terça-feira, 3 de abril de 2018

Erros e derrotas


  • Vão completar treze anos onde pude ter a oportunidade de participar da última grande marcha realizada pelo MST (Movimento dos/as Trabalhadores/as Sem Terra) era maio de 2005 e é sempre com emoção que repito esse assunto. Mais emocionado ainda por ter encontrado meu diário, registro que fiz durante os dias que caminhei de Goiânia até Brasília com mais de quinze mil companheiras e companheiros movidos pelo sentimento da solidariedade coletiva e da construção de uma sociedade não capitalista, justa, de igualdade e socialista.
  • O tempo pode ser amigo ou inimigo a depender do seu estado de espirito individual. De lá para cá me aconteceram muitas coisas e vou utilizar este espaço, o blog, para algo incomum em uma conjuntura também adversa. Tratar do balanço ou compartilhamento do que sinto e que não tenho respostas, minhas angustias pessoais, das quais não deveriam interessar a ninguém mais. 
  • Na verdade espero que os/as leitores/as possam ler de fato e não apenas "passar o olho" como tem acontecido no mundo comunicacional de hoje. 
  • Sempre, como bom marxista que tento ser, apesar de não ser, pois me faltam leituras e reflexões, busco olhar para história com essa busca necessária, dialético-critica e tentando "não me arrepender do que fiz", já que esse arrependimento ou sentimento de erro vai acabar sendo ou auto-crítica ou só divagação mesmo.
  • Estes últimos anos não tem sido o que eu considero "bons". E mesmo que eu tente todo dia quando saio de casa refletir sobre minha vida e como a dos que atendo (como assistente social) são mais atingidas pelas expressões duras da questão social. 
  • Mesmo que eu tenha vergonha de ver que há outras vidas pessoais mais envoltas em desgraça do que a minha, me incomoda minha patética tentativa de pensar "tenho um trabalho, um salário, uma casa, uma companheira, não me falta comida, não tenho doenças crônicas ou algo que me torne inválido" e mesmo pensando nisso, ainda assim tem algo que incomoda dentro de mim. Um vazio, algo que falta ou que já foi muito presente e agora falta.
  • A exatos 12 anos me convenci de que poderia alçar novas tarefas a partir da minha militância política. Fazer luta política, enfrentar o sistema e estar sempre em algum lugar era minha vida, pelo menos grande parte do tempo. 
  • Na transição da crise do PT em 2006 refleti sobre qual tarefa assumir e duas me pareceram obvias: ou me assumir como um militante-dirigente em estruturas estadual ou nacional, e me dediquei a isso tentando representar a juventude do PT estadual e depois pela juventude da Via Campesina, pois organizar era algo que aprendi ao longo da minha experiência militante. 
  • Ou voltar as minhas origens, a minha cidade (Guarulhos) e retomar o trabalho de base a partir de um mandato de vereador, podendo agora me aventurar em uma tarefa difícil que é a vida parlamentar. 
  • Perder pessoas ou romper relações é natural do ser social e será inevitável na luta política, e a via pela juventude do PT me custou companheiros, suas traições e a certeza de que parte do que sou hoje tem se repetido na minha história. Pensei uma coisa que (ainda) me incomoda e é forma como uma parte dessa casta dirigente se mantém nas estruturas, estadual e nacional, e ao ver até onde chega a indignidade humana para estar "liberado" em nome da luta, desisti. Covarde, não tenho estomago para esse jogo que envolve vaidades, traições e muitas rasteiras, esse vai e vem da luta pelo cargo é cansativa demais, há gente mais profissional nisso. 
  • Portanto, e ainda necessário, a opção por retornar a vida política local, na cidade teria mais sentido, pois uma cidade de mais de um milhão de habitantes era quase uma "Comuna de Paris", e ainda no clima do "chavismo", fórum social mundial, e etc., tudo confluía para tal e foi o que fiz. 
  • Mas é aí onde tudo pode ser o meu erro. Erro que vai me incomodar por um bom tempo. Erro porque há neste tempo de militância duas coisas que eu aprendi a fazer bem: articular coletivos e promover "agitprop" e foi assim que foi feito: criação de um núcleo do PT, disputa interna, articulação e negociação, diálogos e resgate de antigos companheirxs, além dos novos, tudo confluiu rápido demais e posso resumir que foi "da ousadia para estrutura" que fez com que de 2008 a 2015 tudo fosse acontecer de um modo que se pudesse pensar um pouco mais, teria tentado outra via.
  • "O poder é uma merda" e de fato é. Ainda mais quando o tempo cobra você mais pragmaticamente do que ideologicamente. Mudança de hábitos e buscas fora da ideologia apenas levaram a morte um bom plano.
  • Não sei se foi tarde ou se foi algo que tinha que acontecer, mas sei que tudo virou fumaça rápido demais. Em menos de dois anos várias perdas, antigos companheiros e companheiras, amizades e outras relações perdidas e rompidas, e em ambos os casos, meu sentimento foi o mesmo: de lixo. 
  • Sim, me sinto um lixo. Olhando pra trás cheguei a conclusão do tipo de militante que me tornei, vendo que participei de instâncias, organizações, instituições e grupos sempre em funções de articulação e agitprop, nunca foi minha tarefa presidir e coordenar nada, mas estar presente nestas direções para travar a luta interna, fazer o jogo sujo e sempre na defesa e no ataque, mesmo escalado para ser artilheiro, nunca fui capitão. 
  • Pois bem, seria eu tão instável ou tão inexpressivo? Não sei, só sei que foi assim (como diria Chicó). Dando a pista para que tipo de militante me tornei. E de fato, articular coletivos e promover agitação e propaganda sempre fiz bem, modéstia a parte, fui sempre um bom agitador. Vai ver por isso que sou um péssimo dirigente. Aceito a tarefa e sei agora o meu lugar.
  • Mas isso ainda não é o problema. Nem sei o que é o problema de fato. Mas penso como seria se tivesse tomado outro rumo. Porquê hoje, nem consigo ter uma vida militante como antes. Nem aqui nesse lugar onde moro (Guarulhos) tenho mais apreço, a cidade tornou-se medíocre para mim, com uma direta medíocre, uma elite medíocre e uma parte de uma esquerda medíocre, o que mais quero é abandonar esse lugar. Algo faz falta e nada me atrai.
  • O que sobrou foi o ego e acredito que até nisso falhei, na tentativa assombrosa de deixar uma contribuição publiquei minha dissertação, na forma de livro, e reconheço o caráter patético da tentativa em manter minha referência, minha contribuição. intelectual medíocre, pouca atenção tive de pessoas que julgava terem respeito por mim, pela minha militância. Mas não, na esquerda pertencer a uma casta ou uma elite exige um enorme esforço de ego, do qual não possuo. Vale tudo, menos ter dignidade.
  • Me sinto cansado. Um pouco doente da cabeça, vai ver porque agora trabalhando na área da saúde, compreendo melhor as razões que fizeram a luta pelas 30 horas emergirem desse lugar. Lugar histórico das lutas pelas políticas públicas e sociais, por ter essa bagagem, torna-se o "saco do mundo" sem retaguarda das demais políticas da Seguridade Social e outras. 
  • Soma-se ao sentimento de vazio. Antes bastava ter pouco dinheiro e muita disposição para ouvir boa música, me estragar e curtir a vida, assim como almejo para toda classe. Hoje, pago contas, vou a eventos familiares, moro numa boa casa e tenho uma condição melhor, e mesmo assim sinto um vazio danado, falta algo.
  • As vezes lembro do que construí. E foi assim, correndo, participando, me reunindo, sem feriado, sem final de semana, sem tempo ruim, uma dedicação como se a revolução fosse acontecer amanhã. E hoje? Não consigo ir aos lugares da luta, não pertenço a nada, não me entrego a causas, apenas frequento eventos. 
  • Eu sou o que sou pela minha determinação militante, hoje parece que o freio que me coloquei, me bloqueia e é como se a morte ou a invalidez  fossem os únicos problemas, e assim perco as referências e me dissipo na massa despolitizada. Antes era alguém, militante de fala dura e presente. Agora, um cara que chega aos 40 anos apenas contando consigo mesmo como lugar de reconhecimento. 
  • A conjuntura política atual pegou a todxs de surpresa. Para nós, na esquerda, a oportunidade de poder "errar novos erros", acertar as contas com a história, rever e resistir no seio da massa, construir novas relações na luta de classes, enfim, construir e desenvolver um caminho que seja sólido e não frágil, que não seja institucional-simbólico, mas sólido de uma legitimação de projeto. 
  • Nunca recorri a outros profissionais para tratar do que se chama "doenças da cabeça", mas até isso me entreguei. Não renunciei a ideais, nem a ideias. Porém, todxs precisamos de ajuda, de apoio, de solidariedade, de reconhecimento, de valor...
  • Como li numa camiseta que não uso a muito tempo: "Existem dois dias no ano em que não podemos fazer nada: o ontem e o amanhã. (Mahatma Gandhi) ora de fechar ciclos, de superar lutos e quem sabe superar o vazio que ainda persiste em mim.


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

”Militares do Exército tiram foto e 'ficham' morador de favela no Rio” - Nas abordagens aos moradores das favelas, os militares enviavam RG e foto das pessoas por um aplicativo para um setor de inteligência, que avaliava eventual existência da anotação criminal. Após flagrar esse "fichamento" das pessoas, a reportagem da Folha chegou a ser impedida de continuar no local e foi encaminhada por homens do Exército a uma distância de 300 metros. Ao justificar a medida, um militar disse que a presença da imprensa estaria "intimidando" a ação deles. Mais tarde, com a troca de um oficial, a presença da reportagem foi liberada novamente. O pedreiro Edvan Silva Monteiro, 47, reclamou da abordagem dos militares. Pouco antes das 12h, ele voltava para a Vila Kennedy após ter perdido seu dia de trabalho. Afirmou que havia sido obrigado a retornar para casa porque estava sem documento ao tentar deixar a comunidade pela manhã. "Estava saindo pro serviço apenas com a marmita. O pessoal do Exército disse que precisava ver meus documentos. Ao voltar para casa [para buscá-los], acabei me atrasando e fui dispensado por meu patrão", afirmou Monteiro, que disse ter sido fotografado com e sem boné pelos soldados do Exército. • A OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil), que criou um grupo para acompanhar a intervenção no Rio, classificou as ações dos militares como "gra ves infrações às garantias constitucionais". "A ação afrontou os direitos constitucionais de ir e vir e da liberdade de expressão, ao cercear moradores e equipes da imprensa", afirmou a OAB, que estuda medidas judiciais para impedir novos casos como os desta sexta. • A Defensoria Pública do Rio manifestou "veemente discordância" com a prática." A abordagem pessoal por qualquer agente de segurança só é permitida quando há razões concretas e objetivas para a suspeita de que o indivíduo esteja portando bem ilícito ou praticando algum delito. O fato de se morar em uma comunidade pobre não é razão suficiente para este tipo de suspeita", afirma. • A página Maré Vive, administrada por líderes comunitários da favela da Mar é, na zona norte, afirmou que esse tipo de revista pelo Exército nunca seria tolerado em bairros nobres. "Eu queria ver se isso algum dia vai acontecer no Leblon, Ipanema, Flamengo, Laranjeiras, Barra, qualquer lugar que não a favela." • A ONG Justiça Global disse que enviou à ONU (Organização das Nações Unidas) e à OEA (Organização dos Estados Americanos) pedido para que mandem observadores internacionais para acompanhar a intervenção no Rio. • A socióloga Julita Lemgruber, do Centro de Estudos de Segurança Pública da Universidade Cândido Mendes, afirmou que a abordagem do Exército a moradores de favelas "é medida que viola o direito constitucional de todo cidadão de não ter sua liberdade e intimidade cerceada". (FSP 23/02/18)



Não costumo mais reproduzir matérias da mídia golpista, porém, o relato do morador de uma das comunidades invadidas pela intervenção federal do exército. 

O que chama a atenção é que o pedreiro perdeu o dia de trabalho, sem nenhuma manifestação das instituições do Estado. Bom, quando a greve atinge parte da classe, importante lembrar que a outra parte esta em LUTA por direitos, agora neste fato, o Estado e sua propaganda de violência e força militar querem intervir sobre a vida das pessoas que trabalham e sobrevivem. Criminoso mesmo estão entre aqueles que estão em condomínios fechados que se misturam entre chefes do tráfico e outros, sonegadores e exploradores como vimos nas emboscadas aos líderes da organização PCC. 

De novo, a inversão de valores contra a classe.
Reflita, se puder....

Veja matéria:

”Militares do Exército tiram foto e 'ficham' morador de favela no Rio” - Nas abordagens aos moradores das favelas, os militares enviavam RG e foto das pessoas por um aplicativo para um setor de inteligência, que avaliava eventual existência da anotação criminal. Após flagrar esse "fichamento" das pessoas, a reportagem da Folha chegou a ser impedida de continuar no local e foi encaminhada por homens do Exército a uma distância de 300 metros. Ao justificar a medida, um militar disse que a presença da imprensa estaria "intimidando" a ação deles. Mais tarde, com a troca de um oficial, a presença da reportagem foi liberada novamente. 

O pedreiro Edvan Silva Monteiro, 47, reclamou da abordagem dos militares. Pouco antes das 12h, ele voltava para a Vila Kennedy após ter perdido seu dia de trabalho. Afirmou que havia sido obrigado a retornar para casa porque estava sem documento ao tentar deixar a comunidade pela manhã.

"Estava saindo pro serviço apenas com a marmita. O pessoal do Exército disse que precisava ver meus documentos. Ao voltar para casa [para buscá-los], acabei me atrasando e fui dispensado por meu patrão", afirmou Monteiro, que disse ter sido fotografado com e sem boné pelos soldados do Exército.

• A OAB-RJ (Ordem dos Advogados do Brasil), que criou um grupo para acompanhar a intervenção no Rio, classificou as ações dos militares como "graves infrações às garantias constitucionais". "A ação afrontou os direitos constitucionais de ir e vir e da liberdade de expressão, ao cercear moradores e equipes da imprensa", afirmou a OAB, que estuda medidas judiciais para impedir novos casos como os desta sexta.

• A Defensoria Pública do Rio manifestou "veemente discordância" com a prática." A abordagem pessoal por qualquer agente de segurança só é permitida quando há razões concretas e objetivas para a suspeita de que o indivíduo esteja portando bem ilícito ou praticando algum delito. O fato de se morar em uma comunidade pobre não é razão suficiente para este tipo de suspeita", afirma.

• A página Maré Vive, administrada por líderes comunitários da favela da Mar é, na zona norte, afirmou que esse tipo de revista pelo Exército nunca seria tolerado em bairros nobres. "Eu queria ver se isso algum dia vai acontecer no Leblon, Ipanema, Flamengo, Laranjeiras, Barra, qualquer lugar que não a favela." A ONG Justiça Global disse que enviou à ONU (Organização das Nações Unidas) e à OEA (Organização dos Estados Americanos) pedido para que mandem observadores internacionais para acompanhar a intervenção no Rio.

• A socióloga Julita Lemgruber, do Centro de Estudos de Segurança Pública da Universidade Cândido Mendes, afirmou que a abordagem do Exército a moradores de favelas "é medida que viola o direito constitucional de todo cidadão de não ter sua liberdade e intimidade cerceada".

Convite do lançamento do livro que será na FAPSS nesta sexta feira (02/03)


Ola companheiras e companheiros,

Segue o convite do lançamento do livro que será na FAPSS (SP) onde debateremos sobre a conjuntura, a democracia e os rumos das lutas. Será um momento importante junto aos alunxs e colegas docentes do curso de Serviço Social e imagino que também poderão estar presentes participantes interessados no tema.

Mais do que apresentar a construção da pesquisa, é reafirmar que caminhos a classe trabalhadora brasileira vai enfrentar e deve construir diante do retrocesso da classe dominante e seus meios de controle/ consenso, que democracia deve nos mobilizar e manter em vigilância contra o arbítrio, a opressão e o autoritarismo que nesse momento histórico usa mais efetivamente a mídia, o cotidiano desesperançado e a força da opressão financeira como meio de manter o consenso capitalista, e onde as forças de repressão do Estado figuram apenas para impor "ordem".

Bom, seguimos. Não podem nos calar, nem suprimir nossa posição. Posição que tem mantido a espinha da classe de pé e não de joelhos.

Quem quiser, puder ou tiver paciência, nos vemos nessa sexta.

abraços

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

Excelência acadêmica requer custeio público



Excelência acadêmica requer custeio público

* Fernanda de Negri, Marcelo Knobel e Carlos Henrique de Brito Cruz 
A crise fiscal dos Estados e da União e de várias universidades importantes tem suscitado um debate sobre modelos de financiamento da universidade e da pesquisa científica no País. O debate é bem-vindo, assim como a proposição de alternativas que possam impulsionar a formação de pessoas e a produção de conhecimento no Brasil.

Várias universidades de ponta pelo mundo, públicas ou privadas, têm fontes de receitas mais diversificadas (doações, fundos patrimoniais e mensalidades, entre outras) do que as universidades públicas brasileiras. Mesmo assim, quem mais paga pelos custos das grandes universidades do mundo, sejam elas públicas ou privadas, continua sendo o Estado.

Endowments são fundos patrimoniais, em geral provenientes de doações, comuns nas universidades norte-americanas. As receitas de tais fundos usualmente cobrem algo como 5% das despesas anuais. As mensalidades, por sua vez, também não são, por si sós, a solução, pelo menos não para universidades de pesquisa. No Massachusetts Institute of Technology (MIT), por exemplo, elas equivalem a cerca de 10% das receitas.

O mesmo vale para recursos de pesquisa oriundos de empresas, que no MIT são cerca de 5% da receita anual. Na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) têm ficado próximos de 3% nos últimos anos. Nenhuma diferença abissal aqui.

As melhores universidades do mundo, além do ensino, produzem pesquisa de alta qualidade e impacto, com benefícios sociais e econômicos acima de seus custos. Por isso o Estado é um dos seus principais financiadores. No MIT, os contratos de pesquisa e subvenções do governo norte-americano são a principal fonte de receitas da instituição: 67% do total para pesquisa no quinquênio 2011-2015. Em Oxford, cerca de 50% das receitas vêm do governo. Na Alemanha, onde as universidades são, em sua maioria, públicas, esse porcentual é ainda maior. Na Universidade Tecnológica de Munique, por exemplo, mais de 60% das receitas correntes são provenientes do governo.

Quando se fala no financiamento da pesquisa, o papel do Estado é ainda maior. Na Inglaterra, estima-se que 66% dos recursos de pesquisa das universidades sejam provenientes diretamente do governo inglês e outros 11%, indiretamente, venham da União Europeia.



No Brasil, as fontes de receitas não são tão diversificadas como em outros países. E também é verdade que nossas melhores instituições custam relativamente pouco ao Estado brasileiro. Uma comparação entre a Unicamp e o MIT, duas universidades de excelência em seus países e com grande vocação para a produção de tecnologia, evidencia esse fato. A Unicamp tem, somando repasses do governo do Estado e receitas extraorçamentárias, uma receita anual, em paridade do poder de compra, de cerca de US$ 1,1 bilhão, menos da metade da do MIT.

Acontece que o MIT possui 4.500 estudantes de graduação e 6.800 de pós-graduação, enquanto a Unicamp tem 19 mil alunos de graduação e 16.600 estudantes de pós-graduação. A Unesp tem 35000 alunos de graduação e 11000 de Pós-graduação.  O número de professores na Unicamp, por sua vez, é praticamente igual, pouco menos de 1.900 docentes nas duas instituições, e o número de funcionários técnico-administrativos é um pouco superior no MIT. A Unicamp tem mais que o triplo dos estudantes, com metade do orçamento e o mesmo número de funcionários e professores, sendo um dos mais importantes centros de pesquisa no País.  A Unesp tem 3500 docentes (relação próxima de 1 docente para 10 alunos) a relação da Unicamp é próxima a da Unesp e no MIT é de 1 docente para cada 2 alunos.  (dados da Unesp foram inseridos no texto original). 

O volume de recursos que o MIT recebe a mais do que a Unicamp é, provavelmente, o que faz a instituição norte-americana ser uma das melhores universidades do mundo. Esses recursos são investidos em novos centros de pesquisa, laboratórios e equipamentos e na contratação temporária de pesquisadores. Os pesquisadores estagiários de pós-doutorado no MIT são mais de 5 mil, enquanto na Unicamp são apenas 270. Esses profissionais são definitivos para fazer a máquina de pesquisa do MIT funcionar tão bem. Ainda assim, a Unicamp é a universidade brasileira com o maior número de patentes solicitadas ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi).

Pesquisa científica é essencial não apenas para estimular a inovação e o crescimento econômico, mas também para resolver questões críticas do nosso desenvolvimento. Novas vacinas e novos tratamentos para doenças que afetam a população brasileira, tecnologias capazes de ampliar a produtividade agrícola e industrial, conhecimento capaz de mitigar os efeitos do aquecimento global sobre a nossa produção agropecuária são alguns dos exemplos. E é o Estado o grande financiador da ciência no mundo todo. Já a inovação exige investimentos empresariais.

As boas universidades no Brasil estão cada vez mais abertas às demandas da sociedade, incluídas aí as empresas. Precisam, além disso, buscar alternativas de financiamento e demonstrar transparência e visibilidade sobre os custos e resultados. Também precisam estar atentas às necessidades de uma das sociedades mais desiguais do mundo. Afinal, é o conjunto da sociedade que define, e assim deve ser numa democracia, os recursos que serão alocados para o ensino superior e a pesquisa científica.

As boas universidades no Brasil precisam e podem mostrar à sociedade que custam pouco, considerando sua qualidade e seus resultados. Precisam modernizar a gestão do orçamento, criando mecanismos internos de controle que permitam que as decisões sejam compartilhadas, transparentes e consistentes com nossa realidade econômica, demonstrando à sociedade os custos e impactos. E o Brasil precisa definir quantas boas universidades intensivas em pesquisa e ensino consegue manter em condições competitivas internacionalmente, considerando que caro mesmo para um país é não saber criar conhecimento.
* RESPECTIVAMENTE, TÉCNICA DO INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA (IPEA), REITOR DA UNICAMP E DIRETOR CIENTÍFICO DA FAPESP

Publicado em 5 de janeiro de 2018, O Estado de S. Paulo, página 2, Espaço Aberto

sábado, 13 de janeiro de 2018

"Nova" classe trabalhadora, ou uma esquerda que pensa o Brasil?

Concordo com Marilena Chaui, mas na real esse " novo" Brasil nunca deixou de ser o velho Brasil se pensarmos no número de pessoas que durante o governo Lula já recebiam os benefícios como salário-família, BPC, aposentadorias de um salário mínimo e os próprios trabalhadores que ainda viviam com menos de um salário mínimo e meio. A estes as condições de vida sofreram mudanças durante o lulismo graças, e verdade seja dita, a melhora nos preços com forte ampliação do de acesso do mercado consumidor e a política de valorização do salário mínimo contribuíram para "inclusão" dos Excluídos.

Porém, não alterando sua estrutura social e política, as medidas do lulismo ainda eram vítimas de uma política econômica neoliberal, perversa e intrrnacionalmente controlada pelo capital financeiro, voraz e anti-social.

Não criando mecanismos de estímulo a participação política, valorização dessa participação constante nas políticas públicas com apropriação da população pelos espaços e pelos rumos. Sem uma.politica econômica alternativa, mesmo que paripasso e concorrente à esta do rentismo, que estimulasse novas formas de comércio, relações econômicas como a economia solidária, cooperativas de trabalhadores, mercados que estivessem aclopados a uma nova "governabilidade" que dialoga com a sustentabilidade da vida do ser social. Pois, devemos reconhecer que a forma de consumo no capitalismo contemporâneo é predatória e causadorade graves doenças da mente que levam o ser humano a buscar pelo ridículo, pelo crime, pela força física, entre outros o acesso aos bens materiais nesse nosso século.

A esquerda que quer dialogar com a classe trabalhadora deve assumir que seu compromisso não é pelo acesso a bens materiais (retórica do lulismo) e sim acesso a condições de vida que agreguem vontades coletivas e individuais sem sofrimento, sem desigualdade e lógico com coragem de enfrentar e combater a exploração do capital.

Parece discurso batido, mas combater a exploração é combater os valores culturoais ultra-liberais do pensamento capitalista neoliberal como aquele mantra que diz que "não há ascensão de uns sem a derrota de muitos outros" ou a ideia de "mérito" (meritocracia) e onde a idiotização funciona como resposta à ciência e a construção do pensamento pela formação intelectual do ser social. Ou seja, o mundo do capital que gira em torno de ideias para empurrar goela abaixo da massa produtos manufaturados cada vez mais e sentido e sem necessidade, a falsa ideia de escolha (basta ver que a roupa que você veste não é exclusiva, mas produzida em larga escala) e a meta pela acumulação de riqueza monetária precisam ser combatidas.

Lógico que um sistema só se altera ppr um outro e seu processo de mudança exige uma transformação que a burguesia conhece bem e é por uma revolução.

Dizer que isso é demorado pode ser um atestado de preguiça ou um reconhecimento de que precisamos dar um novo passo, diferente, ou como diria o poeta: "um caminho começa pelo primeiro passo, e mesmo o caminhar por um outro caminho, exige de nós a iniciativa de seguir caminhando".

Bora seguir um novo caminho, sem.medo de ser feliz.

INCLUSÃO NO DEBATE

Marilena Chauí defende diálogo da esquerda com o 'subproletariado'

Para professora emérita da USP, é preciso saber o que pensa essa nova e crescente classe trabalhadora, formada por precarizados, subempregados, excluídos e órfãos dos programas sociais
por Redação RBA publicado 13/01/2018 09h49, última modificação 13/01/2018 15h11
ACERVO/UNIVERSIDADE FEDERAL DO TOCANTINS
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Para Marilena Chauí, é preciso ouvir essas populações no enfrentamento à desconstrução do estado e dos direitos
São Paulo – A filósofa e professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Marilena Chauí, defende aproximação dos movimentos de esquerda com a nova classe trabalhadora, que surge sobretudo da precarização do trabalho pela perda dos direitos trabalhistas e dos programas sociais.
“Não sabemos o que pensam as pessoas que estão voltando à condição de miséria. Em São Paulo, o grau de exclusão atingiu uma situação alucinante, com desempregados morando nas ruas com suas famílias, o que não se via nem durante a ditadura e nem no governo de Fernando Collor. Ao mesmo tempo, em um contexto neoliberal, surgem uma nova classe trabalhadora totalmente precarizada e mais miséria. Não temos a dimensão de seus valores e percepção política e eleitoral”, disse Chauí nesta sexta-feira (12), em entrevista aos blogueiros Wellington Calasans e Romulus Maya, do Duplo Expresso.
A filósofa considera essa distância da esquerda um “problema gravíssimo”. “Tenho estudado o assunto e não vejo as esquerdas pensando nisso”, disse, ressaltando considerar que a vitória de João Doria (PSDB), para prefeito de São Paulo, não é uma simples vitória da abstenção.
“Há o grande risco de envolvimento dessa nova classe trabalhadora no processo de despolitização, da crença de que a política é corrupta e que você precisa é de um gestor. A mídia vem construindo imagens para nomes com chances de vir a ser candidatos à Presidência da República. Lula é apresentado como messiânico, populista, salvador; Bolsonaro como o nome da segurança e da ordem, e Geraldo Alckmin como o grande gestor. Nenhuma dessas imagens é política”, disse.
Ela destacou que esse diálogo é importante para o debate sobre caminhos para a desconstrução de ideologias neoliberais baseadas na supervalorização do empreendedorismo como alternativa ao emprego, ao desmonte e privatização do estado com perda de direitos.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

O PT queria te ouvir. A tribuna de debates sobreviveu quase dois anos.

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Na convocação do 6º Congresso Nacional do PT uma das poucas iniciativas, abertas para militância petista, sem restrições ou filtros ou "escolhas" de preteridos começou a funcionar como um espaço de promoção do livre pensamento de opiniões e estímulo para filiadxs militantes exercer sua arma da critica. 

A "Tribuna de Debates" (TD) começou com um certo receio da militância acostumada com o mandonismo interno e os filtros das forças políticas majoritárias que pouco se esforçam para possibilitar que a base militante se manifeste em algum espaço que não seja controlado por "algum dono interno". Tanto que no começo haviam constantes mensagens nas redes sociais pedindo para que os/as filiados/as escrevessem para a  TD. Eram constantes mensagens pedindo que os/as petistas se manifestassem. 

O receio foi vencido quando militantes foram aos poucos se apropriando do processo. Escrevendo suas posições, opiniões e garantindo internamente a livre circulação de ideias que expunham abertamente posições quanto aos mais variados temas: Lula, golpe, Estado nacional, privatizações, alianças, governabilidade, etc., etc., uma infinidade de posições que expressavam a alma do partido em seu sentido de massas e de ideologia, sem desapegar do debate central: a estratégia do PT para o Brasil.

Independente das opiniões ali publicadas, o certo é que a ferramenta "pegou", tanto que foi mantida pós-congresso e legitimada como espaço permanente. O que representou um grande avanço, pois, na guerra midiática e comunicacional nas redes na internet, de que vale um militante que apenas é "convocado" para replicar posições oficiais e institucionais? Importante sim, mas não estimulante. 

Isso remete a um jargão antigo sobre o "militante e o balde de cola" que era (ou ainda é) aquele que serve apenas na "hora de colar o cartaz no poste e no muro", mas não serve para oferecer suas opiniões e posições. Ainda mais em um método que não superamos, dos encontros e congressos em que se busca sintetizar em "um minuto, com mais um para concluir" ideias, divergências e propostas. 

Incrível como a nota que "funda" esse novo espaço é apresentada como uma grande inovação: "Criado originalmente como iniciativa integrante dos preparativos para o 6º Congresso Nacional do partido, que aconteceu em junho de 2017, o espaço tornou-se permanente no site do Partido dos Trabalhadores como forma de manter acesa a chama do debate democrático e da livre troca de ideias." (http://www.pt.org.br/contribua-com-a-tribuna-de-debates-do-pt/)

E após quase dois anos no ar, a última postagem é de 30 de dezembro de 2017 e sua identidade visual saiu da página principal do site do PT. Nem é possível achar o espaço sem ajuda do buscador e detalhe, da impertinência militante em querer saber "onde está o lugar do debate?"

Sei que os esforços oficiais e institucionais estão voltados para defesa do "grande líder dos povos", onde dia 24 de janeiro de 2018 saberemos se a direita e a burguesia decidiram por permitir ou não a candidatura de Lula, no julgamento do TRF4 em Porto Alegre (RS). Nem quero entrar no mérito do debate sobre a questão dos motivos do julgamento, já que Moro exerce um judicialismo politizado à direita, e mesmo para os padrões jurídicos liberais, condenação por ausência de provas, em si, já é uma aberração contraditória para o próprio legalismo burguês.

O certo é que o site do PT voltou-se para "guerra" de 24 de janeiro e à defesa de Lula. 

Contudo, ficou exagerada a forma e o conteúdo:

Não tenho dúvida que a correlação de forças será bruscamente alterada em Lula candidato. Reconheço a alta dependência do partido a sua imagem para sobrevivência da legenda. E o pouco da própria democracia  liberal-burguesa que ainda vigora que também está em risco.

Agora eliminar, dificultar ou desconsiderar o espaço da "Tribuna de Debates" é um gesto que não pode ser desprezado. Fica a impressão de que a abertura desse espaço trouxe um problema, já que no começo não havia um filtro ideológico e político, pois, imagino que a sua primeira versão não era coordenada por burocratas, mas por "técnicos" isso permitia que as diversas posições pudessem ser publicadas sem dificuldades, obvio valendo-se da nota colocada estrategicamente no final de cada artigo, onde leia-se "ATENÇÃO: ideias e opiniões emitidas nos artigos da Tribuna de Debates do PT são de exclusiva responsabilidade dos autores, não representando oficialmente a visão do Partido dos Trabalhadores" 

E mesmo assim, ainda representava um alento para o debate interno. Ao ponto de ser um espaço que foi aos poucos ocupado pelo establishment do partido, com dirigentes ocupando este espaço. Basta ver o histórico dos artigos (se ainda não tiraram do ar).]
Se é um desafio desse momento histórico que vivemos estabelecer canais de debate político mais acessíveis e abertos, oos do  certo é que a última plataforma do governo federal durante os governos  do PT a frente foi o "participatório", criado para aproximar a participação da juventude. 

Também não vamos cair num velho argumento sobre "precisamos estudar meios que nos aproximem às redes sociais na internet, pois esses espaços tradicionais em sites não funcionam", caralho e vamos esperar um gênio criar essa merda para depois nos comunicar? Ou vamos criar mais e mais lugares que possamos interagir e expor nossas posições como um partido (e de esquerda) deve ser. Um lugar para o debate livre e aberto, internamente, para sua militância!

Como petista, militante e atualmente desencantado com a institucionalização da esperança na qual a direção majoritária não abriu mão e segue firme no seu conservadorismo político, desconsiderando as lições do golpe de 2016, vai aos poucos tornando o PT o que era o PT sob a ditadura do lulismo: um partido dependente da imagem e semelhança do grande líder, sem margem para o debate.

E antes que algum "indignado" venha a encher o saco com a desculpa de que foi criado a plataforma: "O Brasil que o povo quer", lançado pela Fundação Perseu Abramo, vamos ser honestos com nós mesmos, as bases que lançaram esse "fala que eu te escuto" surge tarde, soa hipócrita e não pegou onde deveria pegar: na militância.


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Diferente da "Tribuna de Debates" que permitia ao militante sem cargo, não-dirigente, pouco ouvido, as vezes sem espaço na sua cidade, localidade, zonal ou etc., que não está em corrente, tendência ou grupo, não é influente e nem apadrinhado, mas apenas preocupado com os rumos do seu partido e buscando manter vivo o debate das ideias encontrou na TD a possibilidade de expor suas posições.

Agora, desde o inicio de 2018, parece que até isso (no momento) vai dar um tempo.

Uma pena, quem perde é o próprio PT.

Muita força Lula. Se superarmos dia 24 de janeiro, aí que não haverá tribuna de debates ou plataforma que garanta incorporar a militância não-dirigente ou apadrinhada na contribuição ao debate do país, seremos engolidos pela lógica eleitoral.

Se derrotados em 24 de janeiro, a luta interna sobre quem irá "iluminar" o nosso caminho, como um poste a ser carregado pelo grande líder, com certeza será insuportável para o partido. 

De qualquer forma, novamente, estamos alijados. A militância que aos poucos quer menos esquerda institucional e mais luta de classes real vai buscando outros caminhos. A sorte está lançada.

sábado, 25 de novembro de 2017

Quando o buraco é mais embaixo. Nem velha, nem nova política. Apenas a política necessária.



Quando o buraco é mais embaixo. Nem velha, nem nova política. Apenas a política necessária.

Dividindo o tempo entre um trampo e outro, são muitas impressões e expressões que tenho de como nós, militantes da esquerda socialista, perdemos a medida da estratégia. 

Convivo com pessoas que não vivem o meu mundo. E é óbvio porque, já que meu mundo é restrito pelas escolhas que fiz e pelo que acredito (individual e coletivo) ou seja, quando vou a uma festa de aniversário ou a um ato público, para mim ambos fazem parte da minha realidade.

Contudo, a primeira é certa para maioria (majoritária) da sociedade e a segunda menos e tratada, por esta mesma maioria, como algo do tipo “quando der” ou da máxima “não vai adiantar nada”. E assim segue a vida para os que vivem nesse cotidiano: dividindo o tempo entre ano-novo, carnaval, Páscoa, dia das mães, dos pais, feriados sem importância histórica  (para maioria) e o natal. 

E aí reside a diferença de escolhas e compreensão de nação e de sociedade da qual faço parte. No meu calendário estão: o dia de luta das mulheres, as várias expressões de manifestação como o “Grito dos Excluídos” no 07 de setembro e as reflexões do 20 de novembro, entre tantas para pensar, refletir, defender e lutar por uma outra sociedade.

Outro dia compartilhei a ideia  (meio óbvia) onde imagino, que haja na formação das crianças e adolescentes dos outros países o estudo dos seus intelectuais tradicionais ou aqueles que marcaram a sua história, tornando-se referência em estudos e pesquisas consagradas e sendo lidos e apresentados na formação escolar básica. Exemplo, o desenvolvimentista Franklin Roosevelt que para história básica estadunidense é apresentado enquanto presidente, bem como seu modelo de governo, podendo-se debater suas convergências e divergências, e mesmo que a indiferença opere, vários destes jovens terão uma vaga e certa ideia de quem foi e o que defendeu.

E no Brasil? Apenas quem se salvou da censura burguesa foram os literários. Mas, os que buscaram entender o Brasil, onde estão na formação básica? Sergio Buarque de Holanda, Florestan, Josué de Castro, Celso Furtado, entre outros, que eu mesmo esqueci e que poderiam (e deveriam) sair do aprisionamento da excelência do ensino superior acadêmico e fazer parte do ensino básico.

Com suas convergências ou divergências, proporcionar às nossas crianças e adolescentes o conhecimento e assim permitir que cada um tire suas conclusões e promova o debate.

Essa é uma das reflexões que tem me incomodado, depois de tanto tempo assumindo tarefas coletivas, dirigentes e outras que me confinavam em reuniões que, geralmente, deliberavam a data da próxima.

Hoje, acredito ainda mais na iniciativa de um coletivo de compas que, por exemplo, chegaram a disputar e vencer as eleições do Sindicato dos Servidores Públicos de Guarulhos, e o seu presidente, a época, decidiu manter seu vínculo no local de trabalho, sem liberação, para exercer suas funções sindicais. Mantendo vínculo junto a realidade dos seus colegas de trabalho.

Na época achei estranho, já que a regra geral, era comum ver dirigentes sindicais que nunca mais haviam voltado aos seus locais de trabalho. Perpetuando-se nas direções. Alguns sobre o argumento de que "não havia como formar novos quadros". Bem, pesando a estrutura e a liberação não deveria ser problema, mas isso é outro debate.

Ou quando pertenci ao Conselho Regional de Serviço Social do estado de São Paulo e pela lei federal não é permitido remuneração e (em alguns  casos) nem liberação do local de trabalho. Porém, o pertencimento direto ao local de trabalho também mantêm vivo o olhar e as relações no cotidiano da classe.

Com o tempo e vivendo essa conjuntura de transição da esquerda brasileira (pelo menos eu acho isso) percebo que a iniciativa do companheiro no sindicato e essa vivência no Conselho me deram a síntese do que precisamos repensar: quais vínculos queremos estabelecer com a classe trabalhadora? 

Quando surgem as primeiras liberações, entre as organizações de esquerda, o profissionalismo militante era uma sentença de morte, lembrando que haviam os riscos da dedicação. Onde a regra para maioria destes militantes profissionalizado era desempenhar a tarefa da agitação, da propaganda, articulação, rede de relações orgânicas, etc, etc. E não apenas fazer volume em atos e manifestações como vemos hoje em alguns casos (pra não ser indelicado ou derrotista) piada pronta que, as vezes, se estabelece nos nossos próprios círculos e comentários.

E, esta deve ser a questão. Solidariedade de classe se expressa no grau de vínculo e confiança, na contribuição, inclusive financeira, nas tarefas que fazem parte  do cotidiano da classe e não fora dele.

Talvez esteja sendo simplista. E nem é o objetivo desta contribuição, não escrevi essa opinião para ser teórica, porém, com aqueles que compartilho, fica a necessária reflexão: de quais devem ser as “novas-velhas” tarefas da esquerda?

Insisto, convivo com pessoas alheias a esse mundo da esquerda, e o faço isso como trabalhador, sem liberação ou cargos. Nelas vejo, ouço, compartilho e vivencio a realidade da classe assalariada, que produz a sua solidariedade, não de classe, mas humana. E é difícil ser “diferente” e ser um militante hoje do agitprop, mas o militante deve desempenhar sua tarefa.

E tenho reaprendido muito. Sobre nós e o que de fato representa transformar a sociedade.

Insisto, ensinar Josué de Castro, Nise da Silveira ou Gilberto Freire para as crianças e adolescentes  é provocar a necessária ideia de Brasil no plural. Se elas irão seguir os caminhos da esquerda, não sei, mas se buscarem seguir um caminho coletivo, de povo, já ficarei contente.

Ps.: Esqueci, mas inclui, que nas relações sindicais do sindicalismo dos professorxs também há esse vínculo, não em todos os níveis, mas há. E pode ser isso que mantêm o seu vigor sindical na base.