Deu na mídia nessa segunda semana de fevereiro de 2026, "polícia civil de SP prende suspeitos de planejar atentado na Paulista. Grupo se organizava pelas redes e ensinava a usar explosivos caseiros" (Agência Brasil, 07/02/26) dentre os materiais do "grupo" tinha uma bandeira do personagem de One Peace, que tem sido utilizado pela chamada geração Z e marcaram presença nos atos no Nepal ano passado, outra coisa que chama atenção são as idades, em geral jovens.
São inúmeras dúvidas que rondam as motivações, porém a subjetividade não pode ser desprezada, pois o que se vê no discurso desse "grupo" é a narrativa anti corrupção, ruptura com a atual forma como a vida existe, causar o caos para gerar o "novo". Se observarmos os discursos da nossa esquerda essas lutas e ruptura com o modelo capitalista de vida e relações sociais é quase similar.
Mas um alerta! Antes que meus camaradas e companheiros comecem com suas pseudoanalises sobre "infiltrados" ou grupos para "desmerecer a esquerda", vamos lembrar que os ideais da esquerda do século XX está ligado efetivamente a tomada do poder.
A revolução russa, as lutas anticoloniais, as revoluções na Ásia, a resistência vietnamita, a revolução cubana, os levantes sandinistas e em toda América Central e do Sul, enfim, Che Guevara virava o ícone de uma geração e as organizações armadas para resistir contra a opressão seguia em várias frentes onde a década de 1960 e 1970 erradiou por gerações, onde o rifle russo AK-47 era a arma dos insurgentes. A narrativa de enfrentamento seguiu até meados da década de 1980, estagnada pela queda do muro de Berlim e fim da URSS (União Soviética) as esquerdas preferem uma dupla narrativa: derrotar o sistema capitalista e suas opressões ao mesmo tempo que abraçava a democracia liberal como sua.
A ordem na esquerda era baixar as armas e resistir no campo da democracia liberal, até que as medidas neoliberais vieram para emplodir o Estado de Bem Estar Social, retirada de direitos trabalhistas e da Seguridade Social, repressão aos movimentos sindical e popular e a pilhagem das riquezas nacionais formaram um momento de total recuo da nossa esquerda.
O levante zapatista de 1994 em Chiapas no México, retoma o imaginário da resistência, bem como as lutas do Movimento Sem Terra no Brasil, e o governo Hugo Chavez e a tentativa de golpe em abril de 2002 na Venezuela restabelecem a ideia de que a resistência não passa pela via pacífica, já que os interesses do capital são preservados com extrema violência.
Nesse contexto, voltamos a pergunta: o que inquieta os jovens e que os afasta da esquerda?
Sinais não faltam, falta coragem! Se há um momento da história podemos voltar no ataque as Torres Gêmeas em Nova York nos EUA, na forma radical da resistência antisistema poucos grupos no início do século XXI expressavam esse modelo como alguns grupos que reivindicam a religião islâmica, as Curdas na região da Siria, o exercito marxista na Indonesia, a FARC na Colômbia e o Exército Zapatista de Libertação Nacional no México, entre outros, mas sem a mesma influência que exercia na esquerda nas décadas de 1960/70.
E essa influência no Brasil? A esquerda brasileira estava empenhada na sua resistência pacífica ao sistema nas décadas de 1980/90 e primeira década de 2000, eu mesmo sou parte dessa geração, alimentada pelo imaginário Guevarista paralelo às lutas sociais e eleitorais. Vitórias eleitorais inclusive eram as mais empolgadas das nossas gerações combinadas as lutas de rua e paralelo a radicalidade do MST, essa combinação funcionou até o terceiro mandato do PT a frente do governo federal, as crises com o PT no governo começam já no primeiro mandato de Lula, com as reformas.
Em 2013 a insatisfação reúne forças antagônicas nas ruas, de um lado uma geração identificada com a esquerda e que exigia mudanças que buscassem romper com velhas lógicas, como direito ao transporte, recursos públicos, desapropriações inclusive de comunidades indigenas para Copa do Mundo e os absurdos lucros do sistema financeiro, e do outro lado uma direita que se renovava com jovens alimentados pelas ações sociais do governo do PT, mas capitulados pelo modo capitalista de viver, ideias da "classe média" e mudanças no mundo do trabalho com a farsa do empreendedorismo. Emerge então uma geração que associa o PT ao sistema e parte absorvida pelo fascismo bolsonarista em curso.
A ocupação das escolas em 2015 foi outro sinal que a esquerda não se ligou. Com a ameaça do governo de Sao Paulo em reestruturar as escolas com risco de fechamento de algumas unidades foi na cidade de Diadema que o rastilho de pólvora fez o maior levante estudantil do período.
O lamaçal estadunidense no Oriente Médio em particular no Alfeganistão e no Iraque, faz emergir o Estado Islâmico que acaba captando esse imaginário antisistema para aqueles jovens que não se identificam com a direita, o fascismo e a própria esquerda. Tendo adeptos inclusive no Brasil.
De lá para cá, como parte da narrativa fascista brasileira é o uso da força, como defesa do armamento da população, diante de uma realidade social que combina um clima de violência urbana disseminada pela mídia e pela condição de miséria e pobreza que atinge nossos territórios periféricos, o crime organizado nas comunidades, enfim, esses segmentos atraem a força insurgente da juventude.
Quando jovens observam a esquerda levantando bandeiras do Che Guevara com uma mão e pedindo "paciência" com as injustiças sociais de outro, devido a forte influência da estratégia eleitoral, parte dessa juventude prefere resistir por conta própria ou perseguindo referências que julgam mais insurgentes.
Não sejamos ingênuos, não estou falando e nem espero que as nossas esquerdas venham a defender o levante em armas, mas pensar como a nossa resistência não tem respondido a radicalidade de uma geração.
O que não podemos é perder uma batalha ou uma guerra porque o inimigo ou adversário, que tem sido mais beligerante que nós.
Não vamos libertar territórios ou vidas sem reagir, sem organizar e sem propor resistências que respondam a altura a violência sofrida. Na luta pelo direito ao voto, grupos insurgentes de mulheres no Reino Unido, em especial na Inglaterra, as sufrágistas para dizer aos homens que sua luta era séria e necessária recorreram a ações diretas como bombas em caixas de correio, grupos de enfrentamento aos guardas que não mediam sua violência contra sua luta, entre outras.
Exemplos de resistência não faltam, o que falta é saber como reunir no imaginário de uma geração um projeto societário que rompa com o atual estado de coisas.