quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Como democratizar a leitura?

 

 







Como democratizar a leitura?

05/06/2022


 


Por LINCOLN SECCO*


Só o socialismo poderá semear livros a mancheia e manter as pessoas que trabalham na sua cadeia produtiva


No Brasil avança o debate sobre a proposta de uma lei do preço fixo do livro (ou Lei José Xavier Cortez), cuja relatoria é do senador Jean Paul Prates (PT/RN). Inspirada na Lei Lang da França, a lei obrigaria todas as livrarias a limitar no máximo a 10% o desconto em uma publicação durante o primeiro ano após o seu lançamento. Com isso, o pequeno comércio livreiro estaria protegido de grupos poderosos como a Amazon.


Marisa Midori Deaecto, nossa maior especialista em história do livro e professora dessa matéria na USP, defende a proposta de lei. Ao conhecer essa sua nova frente de luta, lembrei do nosso velho professor Edgard Carone, bibliófilo e colecionador de livros socialistas e rascunhei algumas notas sobre uma realidade quase desaparecida: as políticas de fomento ao livro nos países socialistas.


Os ciclos do livro no antigo bloco socialista acompanharam as vicissitudes da história do partido comunista. A Revolução Russa entronizou o livro como o principal veículo do agitprop (agitação e propaganda). Vladimir I. Lênin, que era um cultuador dos livros a ponto de se irritar com edições mal-cuidadas, preocupou-se em garantir orçamento para bibliotecas e editoras. Aliás, todos os principais líderes bolcheviques devoravam livros e tentavam se impor nos debates com recurso à erudição. Nikolai Bukharin era um intelectual nato. Grigori Zinoviev escreveu uma História do partido bolchevique. Léon Trotsky provavelmente era o mais talentoso deles e teve que levar ao exílio caixas enormes de livros e documentos. Josef Stalin manteve uma ampla biblioteca pessoal com centenas de livros anotados.


 


Livros e agitprop

A propaganda consiste na formação política dos quadros que atuam permanentemente no partido ou nas organizações por ele influenciadas. A agitação visa atingir as massas em comícios, passeatas, greves, protestos, confrontos etc.


Resumindo, para Lênin a agitação vulgariza poucas ideias para muita gente e a propaganda difunde muitas ideias para um número menor de militantes.[i] O agitprop não é uma soma de tarefas fixas rigidamente separadas, mas um conjunto de processos e relações entre pessoas. O objetivo é transformar cada vez mais membros das massas em quadros e alterar qualitativamente a relação entre dirigidos e dirigentes.


A agitação recorre a cartazes, volantes, panfletos, jornais etc. A propaganda utiliza cursos, debates teóricos e livros. Essa é uma distinção analítica, porque na prática jornais podem trazer capítulos de livros, debates teóricos e opúsculos; palestras podem servir à agitação.[ii]


O que nos importa aqui é que o livro tem uma função nuclear nessas atividades. Com a existência de um poder socialista, seu papel se faz muito mais importante em provocar a passagem da quantidade à qualidade, pois milhões de pessoas passam a ter acesso à teoria.


No período stalinista o conteúdo das edições tornou-se controlado. Em 1931 foi fundada a Editorial Progresso de Moscou. Por seu turno, a desestalinização refletiu-se em diversas reformas que afetaram a leitura. O período Kruschev foi o da expansão da moradia urbana familiar, quando as pessoas conquistaram sua cozinha privativa. Isso fez com que se pudesse ser mais crítico e independente na vida privada. E também discutir obras semi proibidas, como a literatura manuscrita ou de mimeógrafo chamada de samizdat.


O filme Eu tenho 20 anos, dirigido por Marlen Khutsiev em 1964, mostra uma vida cultural em Moscou muito ativa e centrada no livro. Há pilhas de obras literárias num apartamento, bancas de livros usados, leitura pública de poemas etc. Por mais que houvesse a intenção de propaganda era significativo que o filme desse relevo ao livro.


Essa realidade levou o historiador francês Serge Wolikow a notar uma contradição entre a democratização da leitura e o controle autoritário sobre o seu conteúdo,[iii] portanto entre a quantidade e a qualidade. Contudo, o bloco socialista nunca foi uniforme. Na Iugoslávia, após o rompimento com a URSS em 1948, o modo de produção e distribuição do livro foi descentralizado e o sistema de preços de mercado introduzido. Além disso, diminuiu a censura.[iv]


 


Distribuição

Em geral, todos os países socialistas tinham uma política para o livro. Na Alemanha Democrática, um decreto de 1973 determinou que as empresas deveriam ter uma biblioteca, com um bibliotecário. Fábricas deveriam manter uma relação proporcional entre número de trabalhadores e de livros. As maiores deveriam ter 30.000 exemplares. Durante a existência do país, o número de livros impressos a cada ano mais que triplicou[v] e incrementou-se a proporção daqueles que eram ficção.


Nos anos 1980, quando eu descobri as edições soviéticas em línguas estrangeiras, o socialismo se me apresentava basicamente como um mundo de livros. O papel que a teoria desempenhava entre os comunistas exigia muita leitura. Era natural que a ideologia soviética se difundisse especialmente por meio de impressos, já que se tratava de uma propaganda concentrada e dirigida pelo Estado.


Em São Paulo eu frequentava, salvo engano, na Rua Barão de Itapetininga, a Livraria Tecno-Científica que importava livros da citada Editorial Progresso, além de vender assinaturas de revistas soviéticas a preços módicos.


A Editorial Progresso de Moscou só se tornou conhecida mundialmente a partir de 1963, quando assumiu o papel de casa publicadora de livros soviéticos em línguas estrangeiras. Naquele ano, a URSS reorganizou sua indústria editorial e a submeteu ao controle geral do Comitê Editorial do Estado, ligado ao Conselho de Ministros. Em última instância, o livro era um assunto da cúpula do poder.


Um efeito importante das Edições em Línguas Estrangeiras de Moscou foi a mudança qualitativa das traduções de Lênin ao português. Segundo a inovadora pesquisa de Fabiana Lontra, todas as traduções brasileiras de Lênin foram feitas, principalmente, a partir do francês e espanhol e nenhuma do original russo. É possível que Otávio Brandão tenha traduzido artigos de Lênin diretamente do russo quando viveu na União Soviética. Mas não há nenhum livro de Lênin oficialmente traduzido por ele.


Em 1964 o editor Enio Silveira pretendeu lançar as Obras Escolhidas traduzidas por Alvaro Vieira Pinto a partir do original russo, mas a ditadura destruiu os manuscritos da tradução. É possível que a decisão tivesse ou buscasse apoio em Moscou?


As edições em Línguas Estrangeiras permitiram que Lenin fosse traduzido diretamente ao português de Portugal após a Revolução dos Cravos, graças à sociedade entre Avante! (editora do Partido Comunista Português) e Progresso. Os textos foram reproduzidos, depois de adaptação, por editoras brasileiras.[vi]


No aspecto quantitativo, os países socialistas deram um salto na oferta de bens culturais. Entre 1957 e 1961 a exportação anual média de livros da URSS foi de 35 milhões de exemplares,[vii] embora haja controvérsias estatísticas derivadas da definição do tamanho de um livro e da junção de livros e outros impressos (panfletos) na contagem[viii]. Também era o país que mais traduzia títulos de outras línguas.


Em títulos por milhão de habitantes (entre 1955 e 1971) a União Soviética saltou de 140 a 175 e os Estados Unidos de 66 a 278.[ix] A tiragem média na União Soviética em 1965 foi de 16.811. Entre os países que lideravam o mundo neste quesito estavam Alemanha Democrática (17.900), Hungria (11.300), Polônia (10.800), Bulgária (10.600), Chile (8.000), Iugoslávia (7.500) e Tchecoslováquia (7.300). Os países nórdicos lideravam a produção de títulos per capita.[x]


 


Depois da Queda

A autodissolução da URSS não foi apenas uma catástrofe geopolítica, para citar o controverso presidente Vladimir Putin. Ela reduziu o nível cultural das nações que surgiram em seu lugar. A Editorial Progresso continuou existindo, sem apoio para difundir obras russas no exterior.


Qual o papel de uma editora socialista depois da queda de um bloco de países que supostamente representavam o futuro? Além disso, surgiu o desafio da Revolução Informática e, naturalmente, da internet. A digitalização ampliou o acesso aos textos, mas não eliminou o mercado de livros impressos. Consultamos livros e também telas de computadores de acordo com a finalidade da leitura e do preço das obras. Isso recoloca a questão dos custos, direitos autorais e lucro.


Nenhum militante de esquerda exige que advogados prestem consultoria a sindicatos e não cobrem. Que um criador de conteúdo marxista para uma plataforma de compartilhamento de vídeos não ganhe por isso. Apenas no mundo dos livros de esquerda há a cobrança por gratuidade e o desrespeito aos direitos autorais é comparado à quebra de uma patente de uma grande empresa farmacêutica.


Por outro lado, na prática dificilmente o texto digital pirateado substitui o impresso. A editora Lawrence and Wishart foi fundada em 1936 para difundir a literatura comunista na Inglaterra. Com o fim do bloco socialista e do próprio Partido Comunista da Grã-Bretanha, a editora entrou em crise. Em 2014 ela resolveu revogar a permissão para que o site Marxists Internet Archive mantivesse no ar a Marx/Engels Collected Works (MECW). Trata-se de sua principal coleção, editada entre 1975 e 2004 em 50 volumes. A justificativa é que a editora fecharia se não pudesse vender ela mesma as cópias impressas e, futuramente, digitais.


Decerto, muita gente perdeu o acesso a uma citação fácil e rápida de textos de Marx. Por outro, sem o esforço editorial, o trabalho de tradutores e o investimento financeiro, jamais teria existido a coleção. Como chegar a uma solução para esse dilema?


Trabalho coletivo e voluntário de tradução em rede é um primeiro passo, embora sujeito a muitos problemas. Exigir do Estado o investimento em bibliotecas públicas é outro. Solicitar que os partidos de esquerda mantenham editoras com obras impressas também. Mas como em todos os outros problemas da sociedade capitalista, só o socialismo poderá semear livros a mancheia e manter as pessoas que trabalham na sua cadeia produtiva.


*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Caio Prado Júnior: o sentido da revolução (Boitempo).


 


Notas


[i] Conceição, Fabiana Zogbi Lontra. As Obras de Lênin no Brasil (1920-1964): em busca de uma história da tradução. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: Ufrgs, 2022.


[ii]Deixemos de lado a tradução desses conceitos para a esfera virtual, mas lives e textos em tela podem se situar numa zona intermediária entre agitação e propaganda, talvez servindo como passagem de uma a outra, ou seja, da divulgação à leitura de livros.


[iii]Woliwow, S. “História do livro e da edição no mundo comunista europeu”, in Deaecto, Marisa e Mollier, Jean-Yves. Edição e Revolução. São Paulo: Ateliê, 2013, p. 324.


[iv]Booher, Edward. “Publishing in the USSR and Yugoslavia”, The Annals of the American Academy of Political and Social Science, Sep., 1975, Vol. 421, Perspectives on Publishing (Sep., 1975), pp. 118-129.


[v]Um Estudo Internacional de Alfabetização em Leitura, na época da queda do Muro descobriu que “a compreensão média de leitura dos alunos da oitava série da Alemanha Oriental era significativamente maior do que na Alemanha Ocidental”. Oltermann, Philip. “Red poets’ society: the secret history of the Stasi’s book club for spies”, The Guardian, 5 Fevereiro de 2022.


[vi] Conceição, Fabiana Zogbi Lontra. As Obras de Lênin no Brasil (1920-1964): em busca de uma história da tradução. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: Ufrgs, 2022.


[vii]Escarpit, Robert. La Revolution du livre. Paris: Unesco, 1969.


[viii]Enoch, Kurt. e Frase, Robert. W. “Book distribution in the USSR”, ALA Bulletin, v. 57, N. 6, Chicago, junho de 1963


[ix]Unesco, Statiscal yearbook, 1972. Paris: Unesco, 1973.


[x]Book publishing in the USSR, New York, American Book Publishing, 1963.


 




 


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Como democratizar a leitura? - A TERRA É REDONDA

Por LINCOLN SECCO Só o socialismo poderá semear livros a mancheia e manter as pessoas que trabalham na sua cadei...


 


 


 



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Para nós comunistas as armas representam defesa, combate e distração, nunca forma de governo!

 



É típico da ideologia burguesa atribuir a esquerda o uso do recurso da violência e o levante armado para "impor" suas ideias. Esse discurso fantasioso e mentiroso não leva em consideração que a própria burguesia além do controle pela força do monopólio da violência pelo Estado a partir das forças armadas e policiais, além dos recursos adicionais quando sente seu poder ou hegemonia em risco. Importante dizer que o crime organizado ou não é mais funcional a própria burguesia, pois, esses grupos não tem consciência de classe, mas busca pertencimenti material pelos valores da classe dominante, sabe que não alçara o reconhecimento social, mas busca o poder pelo dinheiro, as vezes, como a máfia compra sua posição social, e no final a busca destes grupos é apenas a ostentação. É um exército de mercenários (Sun Tzu) do qual fazem parte ex-militares ou até da ativa via corrupção.

E nós comunistas? Recorremos as armas como instrumento e um meio para os fins, seu uso se faz necessário para enfrentar estas forças citadas, em geral o exercito do povo é aquele cujo pertencimento não é para coerção, mas defesa popular e em última instância e com condições para uma insurgencia e até revolução.

Existem experiências diversas e a própria ideologia comunista na luta pela hegemonia dos explorados contra os exploradores, citemos a do Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party), que na metade da década de 1960 se organizam para enfrentar a opressão racial estatal praticada pela polícia contra a população negra estadunidense. Mas as armas foram apenas uma medida de autodefesa, utilizando o dispositivo constitucional, reivindicado pelos grupos de direita fascista dos EUA, a interpretação da militância foi que se o uso das armas contra o invasor britânico é legítimo, interpretada como "armas = liberdade", o Partido dos Panteras Negras assumiram para si esta interpretação, porém, também para apoiar suas ações sociais como creches, escolas, centros de alimentação popular, cultural entre tantas, em apoio a maior autonomia e desenvolvimento das populações negras segregadas. 

Também depois de mais de uma década de reformas neoliberais, em 1994, após um longo processo de diálogo, integração, estudo e construções coletivas a união entre uma parte da esquerda mexicana e os povos indígenas, o levante de Chiapas no sul do México foi uma resposta inclusive à uma esquerda que estava depositando todas as suas fichas na democracia liberal burguesa, baixando as armas e preferindo as lutas domesticadas. A resposta do EZLN, Exército Zapatista de Libertação Nacional foi direta, resistir pela paz sim, mas enquanto o opressor usar a força, não haverão armas abaixadas, muito menos entregues, pois, o EZLN precisa manter seus territórios autônomos e isso só é possível com uma força militar popular e não institucional.

E em nosso tempo? Isso é possível? Possível não,  necessário. O fascismo que surge e se impõe parece que entendeu essa posição da esquerda, usando de artifícios pseudoteoricos, típico do nazi-fascismo, dialogar com o senso comum, usam o discurso da "guerra cultural" da esquerda contra os "valores da sociedade burguesa", e ainda com uma parte das esquerdas acomodadas e parte utilizando do mesmo método de corrupção da direita para seus fins particulares, isso alimenta ainda essa direita fascista 2.0 para carimbar a esquerda pelos problemas que a própria burguesia construiu e ainda constrói, já que a esquerda governa o estado, mas a direita controla a hegemonia das relações sociais.

O Chavismo provou que sem construir resistências militares não tem realização nos demais campos da economia, dos direitos sociais, culturais e outras conquistas redistributivas, pois além da tentativa de golpe contra Chavez,  inúmeras tentativas de sabotagem ao sistema energético, de distribuição de combustíveis e outras tentativas de pane para criar crise social são sabotagens possíveis e que acontecem. Salvador Alende e seu governo popular é a maior expressão histórica desse tipo de sabotagem adotado pelo governo dos EUA, que financiou em conjunto com o empresariado chileno a famosa "greve" dos caminhoneiros, um lockout que buscou desabastecer as principais cidades. 

Hoje, desde o governo fascista de Kennedy quando instaurou o bloqueio econômico contra Cuba passando pela "primavera Árabe" e as ações articuladas com o govenro sionista-nazi fascista de Israel tem atuado em diversas operações de sabotagem desde o massacre dos dirigentes do Hezbola com paigers-bomba e a crise iraniana, essas guerras híbridas tem sido a nova forma de sabotagem do imperialismo estadunidense.

Talvez o momento exige retomar o método! Nas fracassadas democracias liberais como a nossa criar grupos organizados na tese da defesa contra a violência fascista, machista, racista e homofóbica, grupos de tiro esportivo para defesa dos territórios e comunidades ameaçadas. Apoio incondicional não as propostas de armamento da direita fascista, mas criar empates, como se os feminicidas agem impunemente, que se garanta porte de arma especial para mulheres, principalmente as ameaçadas com medidas protetivas, com centros de treinamento e de autodefesa. Se a posição é não mudar a cultura da formação dos homens, então que a defesa seja a reação. Grupos populares de defesa dos nossos representantes políticos e de defesa dos nossos espaços e comunidades. Em alguns casos sob o lema, "nem polícia, nem bandido, aqui a segurança é pela força popular".

Há resistências pelo mundo afora. Em armas para se defender da violência sionista, para garantir direito ao seu território como no caso do povo Curdo, em defesa dos povos e territórios autônomos no caso do EZLN, na proteção de sua soberania pelas forças de defesa bolivianas e pelo povo cubano, o ELN na Colômbia, uma vez que os grupos paramilitares da direita fascista não baixou suas armas, no retorno de grupos como os Panteras Negras ou de esquerda de autodefesa nos EUA. 

As armas não são um fim em si mesmo. Para nós comunistas uma reação em um mundo que dominado pela hegemonia do capital, não está satisfeita apenas em explorar, mas em oprimir de forma desumana a humanidade exige resposta, as armas camaradas! 

A história exige dignidade, proteger a dignidade humana nesse momento não será com bandeira branca. Bandeira branca é sinal de rendição e não de paz nesse momento da humanidade. 






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O lulismo é uma doença política que vai corroer a esquerda brasileira.

 


Antes de tudo, quero declarar que entre  Lula e a direita, seja ela qual for, sigo com a responsabilidade de criar trincheiras, mesmo que imperfeitas como votar em Lula. Segundo, antes de algum fanático falar merda, eu tenho uma vida no PT, com uma trajetória que alguns "novos" militantes nunca vão conseguir ter como tarefa. 

A crise do Rio Tapajos foi criada pelo próprio governo, desde a COP 20, via Boulos (triste situação que ele escolheu) que prometeu que o governo não decidiria nada sem consultar os povos originários,  por exemplo, mas aí venho o susto com a manutenção do decreto 12.600/2025, gesto para Alcolumbre em reciprocidade pela indicação de Messias ao STF. Nada foi feito, o.decreto está vigente e a privatização do Rio Tapajos implica em mudanças estruturais e riscos aos povos que lá habitam e vivem sua realidade. 

Recentemente a Petrobras paralisou a extração de petróleo da bacia amazônica, ironicamente como denunciado por todos/as/es nós. 

No centro disso um governo que gosta de muitos gestos para esquerda, adora fazer gestos, adora palcos e mais palcos, recentemente fez mais um com o Plano Nacional de combate ao feminicidio. Vai as feiras do MST, caminha pelas ruas e vielas cheias de simbolismo, mas mudanças estruturais que é bom, isso é apenas com as lutas e uns poucos no congresso.

Medidas tomadas são as que atendem ao centrão da base, o agronegócio que golpeou Dilma em 2016, apoiou o fascista Bolsonaro em 2018, financiou o.golpe fracassado de 2023 também ganha boas ajudas, enfim, gestos para quem se sacrifica nas lutas e realizações para quem trai o povo brasileiro.

Não adianta o governo ter abarcado a pauta do 6x1 quando manda Edinho Silva, presidente do PT lavar as mãos e arriar as calças diante de empresários. Se  espera que o maior partido de esquerda, base de um govenro que até nas redes sociais defende o fim da escala 6x1 faça isso como pauta prioritária,  mas prefere o estelionato político, dirigentes protegem o governo, enquanto uma massa militante segue rangendo os dentes pela pauta, arriscando os pescoços e até a vida nesses tempos de fascismo pró ativo.

Voltando ao problema do mito, o nosso mito do lado de cá,  me deparei com a postagem do "Capetinha" no Instagram, e como sempre nenhuma crítica pode ser feita, parece um "crime". E os abobados que pertencem ao lulismo parece que vão felizes pular Carnaval como se nada estivesse acontecendo no Brasil e no mundo. Essa micro classe média que se reivindica de esquerda pouco estuda, gosta de instagramar com personalidades, faz discursos meia boca com frases feitas, se indigna sem pregar um prego na parede, enfim, quer ser importante, quer aparecer, quer poder, mas não quer fazer lutabde classes, de fato.

Se agarraram numa personalidade cegamente, nem são capazes de ouvir o que seu próprio líder fala quando, mesmo da boca pra fora diz que seu governo precisa ser criticado, Lula diz isso, mas não quer realmente. 

A contratação de Datena pela bagatela de 1,4 milhão na TV Brasil é quase um atestado de derrota do governo nas redes. Poderia ter criado uma rede com os vários influenciadores que tomou café no primeiro ano de governo. 

Ou seja, tudo parece que está bem. Pesquisas, economia, narrativas...parece que está bem, porém o fascismo não dorme, cria fatos e segue emparedando o governo e a esquerda.

Esse fanatismo que diz que qualquer voz de esquerda que critica o governo é "aliado da direita" encerra qualquer debate. Esse tipo de indivíduo não é militante de esquerda,  é apenas um fanático que na primeira oportunidade, necessidade ou susto vai com a mesma direita que acusa as pessoas com senso crítico e disposição para luta.

Desejo que Lula seja reeleito, pois, de fato construímos uma codependencia e não construímos outras alternativas possíveis,  seja de nomes ou método. 

Mas um.alerta: depois que Lula subir a rampa do Palácio em 2027, parte do PT entrará numa guerra fraticida, não haverá paz entre nós e nosso prazo no governo federal estará datada; dezembro de 2030. Com um cenário que pode ser dos piores,  com uma direita fortalecida nos Estados. 

Alertas são apenas gatilhos e formas de refletir e definir rumos. Não desejo meu pais na mão do fascismo neoliberal, porém,  não sou nada, apenas um militante com quilometragem, nada.mais. Numa luta, sou mais uma soldado. Só não sou vaca de presépio.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A impaciência dos jovens é incompatível com a letargia da esquerda

 


Deu na mídia nessa segunda semana de fevereiro de 2026, "polícia civil de SP prende suspeitos de planejar atentado na Paulista. Grupo se organizava pelas redes e ensinava a usar explosivos caseiros" (Agência Brasil, 07/02/26) dentre os materiais do "grupo" tinha uma bandeira do personagem de One Peace, que tem sido utilizado pela chamada geração Z e marcaram presença nos atos no Nepal ano passado, outra coisa que chama atenção são as idades, em geral jovens. 

São inúmeras dúvidas que rondam as motivações, porém a subjetividade não pode ser desprezada, pois o que se vê no discurso desse "grupo" é a narrativa anti corrupção, ruptura com a atual forma como a vida existe, causar o caos para gerar o "novo". Se observarmos os discursos da nossa esquerda essas lutas e ruptura com o modelo capitalista de vida e relações sociais é quase similar. 


Mas um alerta! Antes que meus camaradas e companheiros comecem com suas pseudoanalises sobre "infiltrados" ou grupos para "desmerecer a esquerda", vamos lembrar que os ideais da esquerda do século XX está ligado efetivamente a tomada do poder. 

A revolução russa, as lutas anticoloniais, as revoluções na Ásia, a resistência vietnamita, a revolução cubana, os levantes sandinistas e em toda América Central e do Sul, enfim, Che Guevara virava o ícone de uma geração e as organizações armadas para resistir contra a opressão seguia em várias frentes onde a década de 1960 e 1970 erradiou por gerações, onde o rifle russo AK-47 era a arma dos insurgentes. A narrativa de enfrentamento seguiu até meados da década de 1980, estagnada pela queda do muro de Berlim e fim da URSS (União Soviética) as esquerdas preferem uma dupla narrativa: derrotar o sistema capitalista e suas opressões ao mesmo tempo que abraçava a democracia liberal como sua. 

A ordem na esquerda era baixar as armas e resistir no campo da democracia liberal, até que as medidas neoliberais vieram para emplodir o Estado de Bem Estar Social, retirada de direitos trabalhistas e da Seguridade Social, repressão aos movimentos sindical e popular e a pilhagem das riquezas nacionais formaram um momento de total recuo da nossa esquerda. 


O levante zapatista de 1994 em Chiapas no México, retoma o imaginário da resistência, bem como as lutas do Movimento Sem Terra no Brasil, e o governo Hugo Chavez e a tentativa de golpe em abril de 2002 na Venezuela restabelecem a ideia de que a resistência não passa pela via pacífica, já que os interesses do capital são preservados com extrema violência.

Nesse contexto, voltamos a pergunta: o que inquieta os jovens e que os afasta da esquerda?

Sinais não faltam, falta coragem! Se há um momento da história podemos voltar no ataque as Torres Gêmeas em Nova York nos EUA, na forma radical da resistência antisistema poucos grupos no início do século XXI expressavam esse modelo como alguns grupos que reivindicam a religião islâmica, as Curdas na região da Siria, o exercito marxista na Indonesia, a FARC na Colômbia e o Exército Zapatista de Libertação Nacional no México, entre outros, mas sem a mesma influência que exercia na esquerda nas décadas de 1960/70.


E essa influência no Brasil? A esquerda brasileira estava empenhada na sua resistência pacífica ao sistema nas décadas de 1980/90 e primeira década de 2000, eu mesmo sou parte dessa geração, alimentada pelo imaginário Guevarista paralelo às lutas sociais e eleitorais. Vitórias eleitorais inclusive eram as mais empolgadas das nossas gerações combinadas as lutas de rua e paralelo a radicalidade do MST, essa combinação funcionou até o terceiro mandato do PT a frente do governo federal, as crises com o PT no governo começam já no primeiro mandato de Lula, com as reformas. 

Em 2013 a insatisfação reúne forças antagônicas nas ruas, de um lado uma geração identificada com a esquerda e que exigia mudanças que buscassem romper com velhas lógicas, como direito ao transporte, recursos públicos, desapropriações inclusive de comunidades indigenas para Copa do Mundo e os absurdos lucros do sistema financeiro, e do outro lado uma direita que se renovava com jovens alimentados pelas ações sociais do governo do PT, mas capitulados pelo modo capitalista de viver, ideias da "classe média" e mudanças no mundo do trabalho com a farsa do empreendedorismo. Emerge então uma geração que associa o PT ao sistema e parte absorvida pelo fascismo bolsonarista em curso. 

A ocupação das escolas em 2015 foi outro sinal que a esquerda não se ligou. Com a ameaça do governo de Sao Paulo em reestruturar as escolas com risco de fechamento de algumas unidades foi na cidade de Diadema que o rastilho de pólvora fez o maior levante estudantil do período. 

O lamaçal estadunidense no Oriente Médio em particular no Alfeganistão e no Iraque, faz emergir o Estado Islâmico que acaba captando esse imaginário antisistema para aqueles jovens que não se identificam com a direita, o fascismo e a própria esquerda. Tendo adeptos inclusive no Brasil.

De lá para cá, como parte da narrativa fascista brasileira é o uso da força, como defesa do armamento da população, diante de uma realidade social que combina um clima de violência urbana disseminada pela mídia e pela condição de miséria e pobreza que atinge nossos territórios periféricos, o crime organizado nas comunidades, enfim, esses segmentos atraem a força insurgente da juventude.

 Quando jovens observam a esquerda levantando bandeiras do Che Guevara com uma mão e pedindo "paciência" com as injustiças sociais de outro, devido a forte influência da estratégia eleitoral, parte dessa juventude prefere resistir por conta própria ou perseguindo referências que julgam mais insurgentes. 

Não sejamos ingênuos, não estou falando e nem espero que as nossas esquerdas venham a defender o levante em armas, mas pensar como a nossa resistência não tem respondido a radicalidade de uma geração.

O que não podemos é perder uma batalha ou uma guerra porque o inimigo ou adversário, que tem sido mais beligerante que nós.

Não vamos libertar territórios ou vidas sem reagir, sem organizar e sem propor resistências que respondam a altura a violência sofrida. Na luta pelo direito ao voto, grupos insurgentes de mulheres no Reino Unido, em especial na Inglaterra, as sufrágistas para dizer aos homens que sua luta era séria e necessária recorreram a ações diretas como bombas em caixas de correio, grupos de enfrentamento aos guardas que não mediam sua violência contra sua luta, entre outras. 

Exemplos de resistência não faltam, o que falta é saber como reunir no imaginário de uma geração um projeto societário que rompa com o atual estado de coisas.