quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Quando as pessoas não tiverem mais nada para comer, comerão os ricos | Carta semanal 3 (2023) TRICONTINENTAL

 

Quando as pessoas não tiverem mais nada para comer, comerão os ricos | Carta semanal 3 (2023)

Maruja Mallo (Spain), La Verbena (‘The Fair’), 1927.

Maruja Mallo (Espanha), La Verbena (A verbena), 1927.

 

Queridas amigas e amigos,

Saudações do  Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

No dia 8 de janeiro, uma multidão vestida com as cores da bandeira brasileira foi à capital do país, Brasília. Eles invadiram prédios federais, incluindo o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o palácio presidencial, e vandalizaram propriedades e bens públicos. O ataque, realizado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, não surpreendeu, pois “manifestações de fim de semana” estavam sendo planejadas nas redes sociais há dias. Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi formalmente empossado como novo presidente do Brasil uma semana antes, em 1º de janeiro, não houve tal balbúrdia; tudo indica que os vândalos estavam esperando até que a cidade estivesse mais quieta e Lula estivesse fora. Apesar de toda a sua fanfarronice, o que se viu foi um ato de extrema covardia.

Enquanto isso, o derrotado Bolsonaro não estava nem perto de Brasília. Ele fugiu do Brasil antes da posse – presumivelmente para escapar das acusações que deve enfrentar – e buscou refúgio em Orlando, Flórida (Estados Unidos). Ainda que Bolsonaro não estivesse em Brasília, os bolsonaristas, como são conhecidos seus apoiadores, deixaram sua marca por toda a cidade. Mesmo antes de Bolsonaro perder a eleição em outubro passado, o Le Monde Diplomatique Brasil sugeriu que o Brasil iria experimentar o “bolsonarismo sem Bolsonaro”. Essa previsão se escora no fato de que o Partido Liberal (PL), de extrema direita, que serviu como veículo político de Bolsonaro durante sua presidência, detém a maior bancada na Câmara dos Deputados e no Senado, enquanto a influência tóxica da direita persiste tanto nas instituições como no clima político, especialmente nas redes sociais.

 

Mayo (Egito), Un soir à Cannes (Um anoitecer em Cannes), 1948.

 

Os dois homens que estavam responsáveis pela segurança pública em Brasília no dia – Anderson Torres (secretário de Segurança Pública do Distrito Federal) e Ibaneis Rocha (governador do Distrito Federal) – são próximos de Bolsonaro. Torres atuou como ministro da Justiça e Segurança Pública no governo do ex-presidente, enquanto Ibaneis apoiou formalmente Bolsonaro durante a eleição. Enquanto os bolsonaristas preparavam seu assalto à capital, os dois homens parecem ter abdicado de suas responsabilidades: Torres estava de férias em Orlando, enquanto Ibaneis tirou folga na tarde do último dia útil antes da tentativa de golpe. Por causa dessa cumplicidade na violência, Torres foi demitido do cargo e enfrenta acusações, e Ibaneis foi afastado. O governo federal encarregou-se da segurança e prendeu mais de mil desses “nazistas fanáticos”, como Lula os chamou. Há bons argumentos sobre por que esses “nazistas fanáticos” não merecem anistia.

As palavras de ordem e cartazes que permearam Brasília no dia 8 de janeiro eram menos sobre Bolsonaro e mais sobre o ódio dos manifestantes por Lula e o potencial de seu governo pró-povo. Esse sentimento é compartilhado por grandes setores empresariais – principalmente o agronegócio – que estão furiosos com as reformas propostas por Lula. O ataque foi em parte resultado da frustração acumulada por pessoas que foram levadas, por campanhas de desinformação intencionais e pelo uso do sistema judicial para atacar o partido de Lula, o Partido dos Trabalhadores (PT), por meio de lawfare, a acreditar que Lula é um criminoso – mesmo que os tribunais tenham anulado as acusações. Foi também um alerta das elites brasileiras. A natureza indisciplinada do ataque a Brasília se assemelha ao ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos EUA por partidários do ex-presidente dos EUA, Donald Trump. Em ambos os casos, as ilusões da extrema direita, seja sobre os perigos do “socialismo” do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ou do “comunismo” de Lula, simbolizam a oposição hostil das elites até mesmo ao mais brando recuo da austeridade neoliberal.

 

Kartick Chandra Pyne (India), Workers (Trabalhadores), 1965.

 

Os ataques a repartições públicas nos Estados Unidos (2021) e no Brasil (2023), assim como o recente golpe no Peru (2022), não são eventos aleatórios; neles há um padrão que requer um exame. No Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, estamos engajados nesse estudo desde nossa fundação há cinco anos. Em nossa primeira publicação, Nas ruínas do presente (março de 2018), oferecemos uma análise preliminar desse padrão, que desenvolverei mais adiante.

Depois que a União Soviética entrou em colapso em 1991 e o Projeto do Terceiro Mundo murchou como resultado da crise da dívida, prevaleceu uma agenda de globalização neoliberal liderada pelos EUA. Esse programa foi caracterizado pela retirada do Estado da regulação do capital e pela erosão das políticas de bem-estar social. O quadro neoliberal teve duas grandes consequências: primeiro, um rápido aumento da desigualdade social, com o crescimento dos bilionários em um pólo e o crescimento da pobreza no outro, juntamente com uma exacerbação da desigualdade entre Norte-Sul; e, segundo, a consolidação de uma força política “centrista” que fingia que a História e, portanto, a política havia acabado, restando apenas a administração (que no Brasil é bem chamada de centrão). A maioria dos países ao redor do mundo foi vítima tanto da agenda de austeridade neoliberal quanto dessa ideologia do “fim da política”, que se tornou cada vez mais antidemocrática, defendendo que os tecnocratas estivessem no comando. No entanto, essas políticas de austeridade, cortando no osso da humanidade, criaram sua própria nova política nas ruas, uma tendência que foi prenunciada pelos as revoltas contra o FMI e contra a fome na década de 1980 e mais tarde se fundiram nos protestos “antiglobalização”. A agenda de globalização imposta pelos Estados Unidos produziu novas contradições que desmentiram o argumento de que a política havia acabado.

 

Leonora Carrington (México), Figuras fantásticas a caballo (Figuras fantásticas a cavalo), 2011.

 

A Grande Recessão que se iniciou com a crise financeira global de 2007-08 invalidou cada vez mais as credenciais políticas dos “centristas” que administraram o regime de austeridade. O Relatório Mundial sobre Desigualdade 2022 é uma denúncia do legado do neoliberalismo. Hoje, a desigualdade é tão ruim quanto nos primeiros anos do século 20: em média, a metade mais pobre da população mundial possui apenas 4.100 dólares por adulto (em paridade de poder de compra), enquanto os 10% mais ricos possuem 771.300 dólares – aproximadamente 190 vezes mais riqueza. A desigualdade de renda é igualmente severa, com os 10% mais ricos absorvendo 52% da renda mundial, deixando os 50% mais pobres com apenas 8,5% da renda mundial. Fica pior se você olhar para os ultra-ricos. Entre 1995 e 2021, a riqueza do 1% mais rico cresceu astronomicamente, capturando 38% da riqueza global, enquanto os 50% da base apenas “capturaram assustadores 2%”, escrevem os autores do relatório. Durante o mesmo período, a parcela da riqueza global pertencente aos 0,1% mais ricos aumentou de 7% para 11%. Essa riqueza obscena – em grande parte não tributada – fornece a essa pequena fração da população mundial uma quantidade desproporcional de poder sobre a vida política e a informação e cada vez mais dificulta a capacidade dos pobres de sobreviver.

relatório Perspectiva Econômica Global do Banco Mundial (janeiro de 2023) prevê que, no final de 2024, o produto interno bruto (PIB) em 92 dos países mais pobres do mundo estará 6% abaixo do nível esperado na véspera da pandemia. Entre 2020 e 2024, projeta-se que esses países sofram uma perda cumulativa no PIB igual a aproximadamente 30% do PIB de 2019. À medida que os bancos centrais dos países mais ricos apertam suas políticas monetárias, o capital para investimento nas nações mais pobres está se esgotando e o custo das dívidas já contraídas aumentou. A dívida total desses países mais pobres, observa o Banco Mundial, “está no nível mais alto em 50 anos”. Aproximadamente um em cada cinco desses países está “efetivamente bloqueado nos mercados globais de dívida”, contra um em quinze em 2019. Todos esses países – excluindo a China – “sofreram uma contração de investimento especialmente acentuada de mais de 8%” durante a pandemia , “um declínio mais profundo do que em 2009”, no auge da Grande Recessão. O relatório estima que o investimento agregado nesses países será 8% menor em 2024 do que o esperado em 2020. Diante dessa realidade, o Banco Mundial oferece o seguinte prognóstico: “o investimento lento enfraquece a taxa de crescimento do produto potencial, reduzindo a capacidade das economias de aumentar a renda média, promover a prosperidade compartilhada e pagar dívidas”. Em outras palavras, as nações mais pobres afundarão cada vez mais em uma crise de dívida e em uma condição permanente de miséria social.

 

Roberto Matta (Chile), Invasion of the Night, 1942.

 

O Banco Mundial soou o alarme, mas as forças do “centrismo” – dependentes da classe bilionária e da política de austeridade – simplesmente se recusam a se afastar da catástrofe neoliberal. Se um líder de centro-esquerda ou de esquerda tentar arrancar seu país da desigualdade social persistente e da distribuição polarizada de riqueza, ele enfrentará a ira não apenas dos “centristas”, mas também dos ricos detentores de títulos do Norte, do Fundo Monetário Internacional, e os Estados ocidentais. Quando Pedro Castillo conquistou a presidência no Peru em julho de 2021, ele não teve permissão para buscar nem mesmo uma forma escandinava de social-democracia; as maquinações do golpe contra ele começaram antes de sua posse. A política civilizada que acabaria com a fome e o analfabetismo simplesmente não é permitida pela classe bilionária, que gasta grandes quantias de dinheiro em think tanks e mídia para minar qualquer projeto de decência e financiar as perigosas forças da extrema direita, que transferem a culpa do caos social para bem longe dos ultra-ricos isentos de impostos e do sistema capitalista e a joga no colo dos pobres e marginalizados.

A insurreição alucinatória em Brasília surgiu da mesma dinâmica que produziu o golpe no Peru: um processo no qual forças políticas “centristas” são financiadas e levadas ao poder no Sul Global para garantir que seus próprios cidadãos permaneçam no final da fila, enquanto os ricos detentores de títulos isentos de impostos do Norte Global permanecem na frente.

 

Ivan Sagita (Indonesia), A Dish for Life (Um Prato para a Vida), 2014.

 

Nas barricadas de Paris em 14 de outubro de 1793, Pierre Gaspard Chaumette, o presidente da Comuna de Paris, que foi para a guilhotina para a qual havia enviado muitos outros, citou estas belas palavras de Jean-Jacques Rousseau: “quando o povo não tiver nada mais para comer, eles comerão os ricos”.

Cordialmente, 

Vijay

Lojas Americanas, o velho capitalismo mostrando o que é!

 


O caso das lojas Americanas expõem um mundo que deveria ser de conhecimento público. Exploração e fraude são irmãs que andam passo a passo no capitalismo, quem quer pertencer ao sistema tem que botar a mão na latrina, e ela sempre cheio de merda escorrendo pelas bordas, sim a imagem é terrível, mas é a realidade. Ser ou tentar ser capitalista é pertencer a um mundo que no centro extraí sua riqueza do trabalho dos trabalhadores (as), esse capital gerado deve circular para cumprir a tarefa da lógica da acumulação de riqueza no capitalismo. Isso leva a um "jogo natural" desse sistema, que para além da ostentação e dos bens, temos o pagamento irrisório de impostos, sonegação fiscal, crimes tributários variados, abuso do poder econômico, falseamento de documentos, notas frias, etc. A regra é clara, tem que ostentar e se afiliar a lógica do sistema.

A situação das lojas Americanas ascendem um alerta para um dos pilares do capitalismo financeiro e neoliberal que é o da privatização dos serviços públicos. Alerta porque a naturalização das terceirizações, parcerias privadas, concessão e outros primeiro quebram a impessoalidade na relação do gestor público e dos serviços que presta, administra e gerência. Alerta porque o discurso do "controle externo" virou uma piada de mau gosto para os trabalhadores/as, que são iludidos com o discurso da "meritocracia" de um lado e do outro pela supervalorização da "capacidade da gestão privada". 

O número de 40 bilhões não é apenas um número. É um escândalo! Escândalo porque esse "erro" não foi percebido pelos órgãos de controle financeiro, publico e privado; um rombo nesse valor não causou mal estar nos seus "capacitados" gestores, que não negaram a divida, mas não assumiram de onde ou para onde foi drenado esses recursos; e ao fim colocou em xeque um setor que não sendo produtivo, não tem função estratégica na sociedade, que é o comércio. Comércio que é um mero intermediário dos meios de produção e o consumidor, ou seja, um setor que cresceu as custas da desindustrialização, possui uma mão de obra desvalorizada, massacrada pela reforma trabalhista do golpista Temer e reafirmada pelo fascista Bolsonaro, sem perspectiva de valorização destes mesmos trabalhadores (as), facilmente substituído por outro grupo comercial, já que diferente dos modos de produção que tem função - como vimos na questão da crise de saúde da Covid onde o país estava desprovido de produção de respiradores á mascaras.

Os três porquinhos (Lemann, Sucupira e Teles) e a exposição de um crime "natural" do sistema. Os bilionários "bem sucedidos" da Ambev e outras emitiram nota dizendo "não saber do rombo", expondo o tamanho da confissão de sua participação nesse golpe financeiro. Novamente a ideia do "grande empreendedor", "o gestor privado eficiente", na realidade é apenas garantido pelas amarras que distanciam o mundo da economia de nós, nos tornando leigos e alheios dessa situação. 

Se tivéssemos uma ampla massa na nossa sociedade com capacidade de reflexão critica da realidade a melhor decisão seria emparedar esses cretinos e tomar seus negócios para os interesses público e dos trabalhadores (as).

Segue três lives que são interessantes para entender o que é essa crise das lojas Americanas e porque é importante que esse assunto não morra.










terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A mitologia liberal na propaganda 05/01/2023 - Luiz Marques (publicado na Fundação Perseu Abramo)

 Recentemente uma instituição do sistema financeiro lançou uma peça publicitária, de muito apuro estético (“Fim de Ano”). Sob uma trilha musical cantada em inglês e traduzida com licença poética, espelha o desejo para que no ano corrente “as escolhas priorizem o amor em tudo que fazemos”. As esquetes cinematográficas, com conteúdos axiológicos, exprimem juízos sobre as atitudes em cena:

* Quando o jovem executivo segura a porta do elevador para a entrada do idoso, que se desloca com a ajuda de um andador. “Antes da pressa, a gentileza” (Educação);

* Quando a menina negra em idade ainda de engatinhar mergulha um laptop na água, e o pai abraça-a com paciência. “Antes da reação, a respiração” (Racionalidade);

* Quando o menino de periferia no campo de futebol, triste ao sofrer um gol, volta os olhos para o céu em oração. “Antes da tristeza, a esperança” (Mobilidade Social);

* Quando a aluna de ballet, ao calçar as sapatilhas, percebe que a colega tem uma prótese mecânica na perna. “Antes das diferenças, as semelhanças” (Diversidade);

* Quando o motorista distraído mostra-se prostrado por um acidente com danos materiais, e é consolado pela dona do carro abalroado. “Antes da raiva, o respeito” (Empatia);

* Quando a surfista, com espírito solidário, recolhe os detritos deixados na areia da praia, para depois surfar nas ondas do mar. “Antes do eu, o todo” (Bem Comum).

O comercial termina com a indagação que interpela a nação, agora emancipada da cruel distopia que minava a sociabilidade com a necropolítica liberista e fascista. Voltaremos ao assunto, adiante.

Significação

As análises semióticas de Roland Barthes sobre as revistas e as propagandas dividem a significação em denotativa, no nível da percepção superficial, e conotativa, no nível dos códigos subterrâneos transmitidos por padrões denominados pelo pensador francês de “mitologias”. A combinação de tais vetores ideológicos é o que torna viável a conversão dos meios de comunicação em instrumentos para a persuasão das massas, com vistas ao consumo de mercadorias, ideias e estilos de vida. Trata-se de compreender a criação propagandística, no contexto do capitalismo realmente existente.

Com o recurso de uma imagética das emoções, se pretende sensibilizar consumidores dos serviços bancários, sem cometer o “erro escolástico” de projetar o pensamento da instituição no público-alvo. Coisa que acontece no momento em que os profissionais de marketing avaliam os resultados das pesquisas (surveys) sob o prisma patronal, cujo propósito se resume ao pretinho básico: a maximização dos lucros e dos dividendos. Se o banqueiro quer dinheiro, o cliente quer bem-estar.

Educação, racionalidade, mobilidade social, diversidade, empatia e bem comum traduzem os valores universais das entrelinhas da propaganda. Esses construtos teóricos carregam a denotação legada pelo iluminismo, no Ocidente. O repertório dialoga com a inscrição positivista da bandeira brasileira, “ordem e progresso”. Ordem para assegurar que as mudanças nunca abalem as estruturas e as hierarquias sociais. Progresso para a “casa grande”, não para a “senzala”, conforme a metáfora freyreana. A conotação, registre-se, foi relativizada pela ampliação da consciência ecológica hoje.

A significação da publicidade, em tela, dilui as sequelas do capitalismo na cultura compartilhada pelos que desfrutam de privilégios e pelos que vendem a sua força de trabalho. A sugestão sutil de elementos que englobam a prosperidade geral, em um ambiente convivial, soa natural à medida que aponta para os efeitos colaterais do hiperindividualismo na era da “pós-modernidade”. A saber, os subprodutos suscitados pela busca frenética de rendimentos que, amanhã, beneficiarão o conjunto da coletividade humana por obra da dinâmica de acumulação e também das inovações tecnológicas.

As desigualdades que atravessam a realidade são caladas. Na verdade, interpretadas como o motor do desenvolvimento individual e social, a médio e longo prazos. O sofrimento é jogado debaixo do tapete pela compaixão atomizada no cotidiano, para legitimar a retórica universalista. A pobreza, a insegurança alimentar, a fome nas esquinas, a exclusão dos banquetes, a carência de equipamentos urbanos e a informalidade são escamoteadas da dominação capitalista. As sujeiras são escondidas.

Diferente das classes dominantes, as classes subalternas enfrentam dificuldades para formular seus interesses materiais e simbólicos com o léxico universal, a partir do paradigma do trabalho. Se a burguesia falava em nome da “nação” e da “humanidade”; em contrapartida, os trabalhadores não conseguem ocultar o conteúdo classista das demandas, ao propor políticas públicas com óbvia prioridade aos segmentos vulneráveis. Os conflitos desdobram-se, no jogo do perde e ganha.

No presente, ocorre o mesmo com as lutas multiculturalistas por reconhecimento étnico-racial e pela promoção das mulheres: esbarram no colonialismo (racismo) e no patriarcado (sexismo). Setores beneficiados pela tradição contestam os ideais igualitaristas, em prol do status quo, ao minimizar as disparidades e os preconceitos com execrações ao “politicamente correto”. O universalismo dos lemas que abstraem os fatos do solo histórico contribui para a manutenção da distribuição desigualitária de direitos, entre a população. A distância entre o discurso e a prática só encurta com a eclosão do confronto político, onde convém entregar os anéis para salvar os dedos.

Emancipação

No caso do comercial, para além dos valores explicitados nos episódios encenados, subjaz a abjeta mitologia liberal. Da educação ao bem comum, passando pela diversidade, nenhum valor - acenado propagandisticamente - traz à tona as ações dos “sujeitos em fusão”. Na inacabada formação republicana do país, os guias éticos irrompem sempre associados a condutas isoladas. Como na filmografia hollywoodiana, pródiga em produções com ênfase no papel dos indivíduos, sobram os heróis autônomos; faltam os heróis coletivos nos enredos. Quem construiu os arcos de triunfo?

O substrato das estórias é a famosa “sociedade dos indivíduos”. O processo civilizador atual supervaloriza as individualidades, descolando-as dos controles instituídos socialmente. A dialética entre o indivíduo e a sociedade chega a se dissipar, dando a entender que são categorias analíticas independentes. Ora, não existe indivíduo sem a sociedade, nem sociedade sem os indivíduos.

A “desobediência civil”, para evocar o conceito de Henry David Thoreau, circunscreve-se às atividades individuadas. Por exemplo, na recusa principista de pagar impostos. A decisão de fórum íntimo confere legitimidade ao ato. No entanto, se fulano reúne com sicrano em uma associação para articular um protesto transpessoal contra a cobrança de tributos, de imediato, a manifestação deixa de ser legítima para virar espúria. A matriz individualista vê no associativismo um conluio, por definição, para influenciar as mentes e os corações de agentes particulares da transformação. As saudáveis interações entre os indivíduos e a sociedade são postas dentro de uma camisa de força.

Com um indisfarçável tom pejorativo, a mídia corporativa se reporta a militantes das organizações da sociedade civil (movimentos sociais, sindicatos, entidades comunitárias, ONGs) e da sociedade política (partidos), como se a militância organizada não integrasse a condição cidadã. Sob esse viés, a interlocução política aprovada pelo establishment restringe-se aos representantes eleitos para o exercício de mandatos parlamentares. A eles, caberia a deliberação sobre polêmicas de interesse dos municípios, dos estados e da União. Em consequência, a proposta do novo governo de potencializar a mobilização da cidadania, no quadro de um projeto inclusivo e transparente, para viabilizar a construção do Orçamento Participativo Federal (OPF) subverte a mitologia liberal dos esquetes.

O comercial encerra com uma pergunta. “E pra você, o que vem primeiro em 2023?” O eloquente questionamento, decerto sem intenção, serve para cutucar os golpistas frustrados com o putsch que não se configurou, após dois meses de acampamento com banheiros químicos defronte os QGs do Exército. Não adiantaram as preces para pneus e ovnis, na expectativa de uma intervenção militar contrária à soberania popular expressa nas urnas. Nem o führer aguentou o chororô da impotência.

A formidável vitória foi problematizada nos sombrios meandros da dimensão paralela, inventada pelo bolsolavismo. Frações das finanças, da indústria, do comércio varejista, do agronegócio (que produz commodities para exportação) e do garimpo (ilegal, em terras indígenas da Amazônia) tentaram em vão ignorar a façanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aclamado no mundo. Os grupos que somam uma dívida de R$ 20 bilhões, em razão de multas ambientais, tinham a promessa do governante fujão de que os órgãos de fiscalização permitiriam a absurda prescrição do débito. Deles, saiu grande parcela do financiamento para os criminosos atos de terrorismo, em Brasília.

O Estado de direito democrático garantiu a Constituição, em vigor, apoiado no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Aos compatriotas restam as “quatro linhas” da Carta Magna, que zumbis citam com uma hermenêutica falsa. A pátria provou ser mais forte do que a extrema-direita. O povo começa a se livrar dos grilhões da tirania de classe, gênero e raça. A mitologia na propaganda de produtos do mercado financeiro não tem o poder de anestesiar nosso espírito de luta, com abstrações. O combate à barbárie ensinou-nos o caminho para a emancipação.

* Docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.

O assalto da horda contra a democracia e os desafios da luta antifascista 10/01/2023 - Hamilton Pereira/Pedro Tierra (Fundação Perseu Abramo)

 O assalto das hordas fascistas inspirado (engendrado?) pelo energúmeno, que se refugiou nos Estados Unidos horas antes do eleito tomar posse, consumou-se no domingo, 8 de janeiro de 2023.

As instalações dos três poderes da república foram devastadas pelo impulso destrutivo acumulado ao longo de quatro anos do pesadelo neofascista, nutrido quotidianamente pelo discurso do ódio às instituições democráticas vocalizado pelo delinquente derrotado nas urnas de outubro último.

A tentativa de golpe de Estado fracassou. Como fracassaram as anteriores desde janeiro de 2019, estimuladas pelo governo dos milicianos de Rio das Pedras que emergiu do submundo do crime para assumir o governo central de um país bestificado pelo fanatismo e pelo culto à ignorância, com a conivência, quando não com o apoio explícito do capital financeiro, de setores do agro e dos empresários da fé.

A parcela majoritária do povo brasileiro que resistiu à estratégia de demolição do país, ao longo de seis anos, fez fracassar a tentativa de reeleger a figura sinistra que encarnou a barbárie, em 2 de outubro e 30 de outubro de 2022. Ali se consumou uma virada histórica quando o energúmeno foi derrotado pela frente ampla liderada por Lula.

O silêncio que se seguiu à derrota não admitida não era outra coisa senão um caldeirão de ressentimentos a alimentar a fúria e o terror contra as instituições e os eleitores que lhe negaram as pretensões de perpetuar-se, até a explosão de 8 de janeiro.

O que a sociedade brasileira assistiu neste domingo de assombros foi uma metáfora do que viveu o país enquanto durou o governo de liquidação nacional, em todas as áreas de ação do estado. Uma metáfora materializada na destruição física das dependências dos edifícios-sede dos três poderes da República. Já que não foram capazes de destruir o país – porque o povo brasileiro resistiu – restava à legião dos ressentidos o último gesto de demolir seus símbolos mais emblemáticos.

Uma ação típica de hordas fascistas que buscam destruir pela força aquilo que sequer alcançam compreender: a democracia. Ainda que seja esta democracia liberal mal desenhada que o país veio construindo desde 1988.

A tela de Emiliano Di Cavalcanti que recebeu as digitais do fascismo – sete golpes desferidos com pedras portuguesas recolhidas da Praça dos Três Poderes, utilizadas com instrumento contundente – será um testemunho duradouro da passagem da barbárie de 8 de janeiro, uma espécie de epílogo sinistro do governo derrotado.

Salta aos olhos da sociedade – 90% dos brasileiros e brasileiras repudiam a tentativa de golpe de Estado – a leniência, a incompetência ou mesmo a conivência das autoridades de segurança pública do Distrito Federal.

O ex-ministro da Justiça do governo derrotado nas urnas de 30 de outubro de 2022, Anderson Torres, inexplicavelmente nomeado Secretário de Segurança Pública do DF pelo governador Ibaneis Rocha, uma semana depois de tomar posse, foi localizado gozando férias na Flórida, onde, por obra do acaso se refugiou o inspirador da devastação perpetrada pelas hordas fascistas contra o STF, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.

O interino que o substituiu enviou mensagem ao governador na tarde de domingo, 8 de janeiro, garantindo que as manifestações seriam pacíficas, enquanto sua polícia conduzia alegremente a horda que meia hora depois estaria vandalizando os edifícios públicos que abrigam o coração institucional do país. Fato que levou o governador do DF a exonerá-lo e o Presidente Lula a decretar prontamente a intervenção federal na área de Segurança Pública do DF, visivelmente acumpliciada com as manifestações golpistas de 12 de dezembro último e agora com os atos terroristas de oito de janeiro.

Um dado curioso e revelador: as hordas da extrema-direita que se deslocaram para perpetrar a barbárie na Praça dos Três Poderes, partiram de um acampamento mantido à sombra das guaritas do Quartel General do Exército Brasileiro, desde a derrota do energúmeno, em 30 de outubro. O Ministro da Defesa do governo, José Múcio, homem lhano, adotou a tática de “comer pelas beiradas” para desmobilizar os acampamentos – verdadeiras incubadoras de atos terroristas na opinião de seu colega, o Ministro da Justiça Flávio Dino – e colheu a catástrofe de 8 de janeiro de 2023.

O Ministro Múcio revelou, uma semana depois da posse, não ser o homem talhado para conduzir uma área cujo quotidiano é marcado pelo desafio de converter em realidade o que determina a Constituição: subordinar o estamento armado, portador histórico de uma cultura autoritária e golpista, ao poder civil conferido pela soberania popular em um governo democrático.

O estamento militar brasileiro cultiva com zelo invejável, ao longo da história, a pretensão de situar-se acima da Constituição, e como se algum ente sobrenatural o definisse como o tutor do poder civil.

O impulso econômico, social e cultural que resultou na tentativa de golpe de Estado promovida, nesse 8 de janeiro, pela extrema-direita segue latente na sociedade. Ainda que seu mito tenha se refugiado em Orlando, levando consigo a expectativa de voltar nos braços dos garimpeiros ilegais, dos matadores de indígenas, dos devastadores e comerciantes de madeira, dos grileiros, dos envenenadores do meio ambiente nessa tentativa, afinal frustrada. Aos defensores da democracia cabe lembrar, os fatores que o levaram ao poder durante quatro anos, guardam energia suficiente para sustentá-lo ou algum outro aventureiro de perfil semelhante.

O que impõe, mais do que nunca, na história do Brasil, a unidade das forças populares e democráticas para enfrentar o neofascismo em todas as suas manifestações. Seja nas estruturas do estado contaminadas pela ideologia autoritária da extrema-direita – e o lavajatismo é apenas uma delas –, seja na sociedade onde a ”guerra cultural” se converteu num elemento mobilizador do que há de mais reacionário na sociedade para reconstruir uma utopia regressiva, em busca de um passado que, a rigor, nunca existiu.

Os setores populares, os movimentos dos trabalhadores, os sindicatos, movimentos culturais têm diante de si a tarefa permanente de tensionar o governo Lula, sustentado por uma frente heterogênea como todos sabem, para avançar além das políticas públicas de combate à fome, de inclusão social, de redução das desigualdades regionais, rumo à construção e consolidação de mecanismos de participação democrática capazes de respaldar a vocação transformadora do projeto que o elegeu pela terceira vez.

O combate ao neofascismo passa inevitavelmente pela punição exemplar dos responsáveis pela tentativa de golpe de estado – e seus financiadores – e só se tornará realidade com uma expressiva participação popular organizada nos ambientes de trabalho, nas escolas, universidades e centros de pesquisa e quotidianamente nas redes sociais.

Lula no Planalto e a militância antifascista nas ruas!

Brasília, 9 de janeiro de 2023.

Hamilton Pereira/Pedro Tierra, poeta. Ex-Presidente da Fundação Perseu Abramo.

sábado, 24 de dezembro de 2022

Deforma Trabalhista: segundo pesquisa Datafolha "Datafolha: Para 56% reforma trabalhista trouxe mais benefício para empresários do que para trabalhador"

 Importante: 1) Apesar da Datafolha fazer um esforço tremendo em "justificar" a reforma trabalhista que tirou direitos, inclusive dos trabalhadores (as) da imprensa, tentando fazer um contorcionismo com os números de 2017 e 2022, a margem da consciência de classe permanece firme em mais de 50% com a certeza de que a reforma ajudou a burguesia (patrões, donos, etc.) e tirou direitos dos (as) trabalhadores (as). 2) Não se deve subestimar a consciência da classe trabalhadora, portanto não se deve abandonar as ruas e suas lutas, pois eleger Lula foi para tirar o caos do poder central, mas sua base permanece firme; 3) Esperançar significa isso, manter esses vínculos que só a nossa forme organização pode dar como contribuição. Boa leitura!






DATAFOLHA

Datafolha: Para 56% reforma trabalhista trouxe mais benefício para empresários do que para
trabalhador

Avaliação de que mudança foi boa para ambos aumentou desde 2017, segundo pesquisa

23.dez.2022 às 23h15




Eduardo Cucolo

Para 56% dos brasileiros, a reforma trabalhista de 2017 trouxe mais benefícios para os empresários do que para os trabalhadores. É o que mostra a pesquisa Datafolha realizada nos dias 19 e 20 de dezembro.

O número, no entanto, é menor do que a expectativa que havia antes da mudança na legislação. Levantamento feito em abril de 2017 mostrou que, na época, 64% tinham a expectativa de que a reforma beneficiaria principalmente os empregadores.

Na época, 21% avaliavam que empresários e trabalhadores seriam beneficiados na mesma medida. Agora, essa opinião é compartilhada por 27% dos entrevistados.

O percentual dos que avaliam que a reforma traz mais benefícios para os trabalhadores do que para os empresários está em 6% na pesquisa mais recente, praticamente o mesmo percentual de 2017 (5%).

As novas regras criadas pela reforma trabalhista de 2017 completaram cinco anos em novembro. Desde a campanha eleitoral, as mudanças estão na mira do novo governo Lula.

A postura contrária à reforma supera 50% em praticamente todos os recortes socioeconômicos na pesquisa mais recente. As exceções são os grupos de renda acima de dez salários mínimos (37%), moradores da região Sul (43%) e os próprios empresários (27%).






A avaliação de que a mudança beneficia empregadores e trabalhadores na mesma medida é maior entre homens (32%) do que mulheres (23%), entre brancos (30%) e pardos (29%)  do que entre pretos (22%), e cresce conforme a renda, saindo de 23% para quem ganha até dois salários mínimos e chegando a 46% na faixa acima de dez mínimos. Por ocupação, os percentuais mais altos estão entre empresários (58%), assalariados registrados (32%) e autônomos (30%).

Na pesquisa, foram realizadas 2.026 entrevistas em todo o Brasil, distribuídas em 126 municípios. A margem de erro máxima para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%.

CARTEIRA ASSINADA

A pesquisa também mostra que 77% dos brasileiros prefere ter carteira assinada, com direitos trabalhistas garantidos, mesmo que a remuneração seja menor. Outros 21% A primeira opção tem mais apoio de mulheres (81%), pessoas com ensino fundamental (83%), moradores do Nordeste (80%) e católicos (82%). Os percentuais são menores entre homens (73%), no grupo com curso superior e médio (ambos com 75%), moradores do Sul (72%) e evangélicos (73%).




A preferência por salário maior a direitos trabalhistas e registro encontra mais apoio no grupo de autônomos, profissionais liberais e freelancers (37%), entre empresários (28%) e assalariados sem registro (20%).

DESEMPREGO

De acordo com o levantamento, 11% dos entrevistados estão desempregados (9%) procuram trabalho e outros 2% deixaram de procurar). Entre os que buscam emprego, 65% são mulheres, e 35%, homens. São 43% sem emprego há mais de dois anos e 31% há até seis meses.

Entre assalariados sem carteira, autônomos e outros ocupados sem registro, 64% já trabalharam com carteira assinada.

Entre essas pessoas que já tiveram registro, mas trabalham atualmente sem carteira assinada, 70% estão nessa situação há mais de dois anos e 19% há menos de um ano.

Gostariam de ter carteira assinada 61% dos brasileiros que trabalham por conta própria.





A VERDADE SOBRE OS EFEITOS DA "REFORMA TRABALHISTA" DE TEMER-BOLSONARO E PORQUE A POPULAÇÃO TRABALHADORA É CONTRA.

Por Marcelo Ferreira | Brasil de Fato

“Reforma” foi vendida como uma modernização da legislação que criaria até seis milhões de novos empregos

Cinco anos depois da aprovação da reforma trabalhista, trabalhadores perderam direitos, grandes empresários mantêm seus lucros e a taxa de desemprego não caiu, após bater recorde em 2020 e 2021. A análise é de Lucia Garcia, economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). 

“Além disso, o mercado interno foi desintegrado e a renda pública foi colocada em risco, principalmente o orçamento da Previdência Social”, afirma a especialista em mercado de trabalho. “Quem ganhou com as reformas foram os setores exportadores e financeiro, aprofundando nossa vocação de entregar o sangue de povo para luxúria da elite”, complementa.:

O projeto que alterou ou revogou mais de 100 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) foi apresentado, votado e aprovado em menos de um ano após o golpe que tirou Dilma Rousseff (PT) da presidência, no bojo do programa “Ponte para o futuro” lançado pelo então vice-presidente Michel Temer (MDB).

“Ponte para o abismo”

Chamado por sindicatos de “Ponte para o abismo”, o projeto foi formulado pelo então PMDB com amplo apoio do setor empresarial brasileiro, a exemplo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Nem mesmo greves gerais e intensos protestos impediram sua implantação.

A precarização não parou por aí. Foi aprofundada por Jair Bolsonaro com diversas medidas provisórias. Uma delas, que cria o Programa Nacional de Prestação de Serviço Civil Voluntário, está prestes a virar lei. A MP 1099/22 foi aprovada pelo Senado no dia 25 de maio.


Arte: Brasil de Fato RS / Fonte: IBGE

Modelo espanhol que inspirou reforma no Brasil não deu certo e foi revisto

Um estudo recente da Universidade de São Paulo (USP), assinado pelos pesquisadores Gustavo Serra, Ana Bottega e Marina da Silva Sanches, concluiu que, ao contrário do que prometiam os defensores da reforma trabalhista, cortar direitos do trabalhador não teve impactos positivos no mercado de trabalho. A pesquisa cita, ainda, que reformas semelhantes adotadas na Europa também não entregaram o que prometiam.

Um exemplo é o da Espanha, que serviu de inspiração para a reforma no Brasil. O estudo “A desregulamentação diminui o desemprego?: uma análise empírica do mercado de trabalho na Espanha” constata que as alterações de 2010 e 2012, visando flexibilizar as leis trabalhistas e estimular contratos temporários, tiveram efeito zero sobre o desemprego. Acabaram apenas reduzindo a capacidade de negociação dos trabalhadores.

Um terceiro levantamento, abrangendo vários países europeus que desregulamentaram as leis trabalhistas, indicou, em vez de avanços, uma elevação da taxa de desemprego.

No início de 2022, a reforma espanhola foi parcialmente revogada pelo governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez, do partido socialista. Caminho que pode ser seguido no Brasil, a depender do resultado das eleições deste ano. Entre os pré-candidatos à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Ciro Gomes (PDT) propõem rever a legislação, enquanto Jair Bolsonaro (PL) defende medidas que favorecem os empresários.

FONTE: http://abet-trabalho.org.br/dieese-flexibilizacao-das-leis-trabalhistas-foi-ponte-para-o-futuro-de-um-pais-desempregado/#:~:text=Cinco%20anos%20depois%20da%20aprova%C3%A7%C3%A3o,e%20Estudos%20Socioecon%C3%B4micos%20(Dieese).

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

A esquerda e o interior paulista, ou repensa sua estratégia ou nunca irá avançar!


O mapa do resultado eleitoral de 2022 é quase um cenário estático, onde apesar da nossa esquerda ter inúmeros pesquisadores e intelectuais, expertos em estudo de pesquisas e grande elaboradores de análise, ninguém consegue ver o que está na sua frente. A esquerda vence, mesmo quando perde, na capital e na grande São Paulo. A relação política é outra, não apenas em volume populacional, mas em capiralidade e movimento. Está presente nas veias dos muros de concreto, tem uma cultura mais pulverizada, aberta para inovações, há injustiças que só uma superestrutura é capaz de produzir e por isso produz mais resistência. 

É fato, na capital um sussurro é grito, no interior um grito pode ser um sussurro. 

Desde a eleição de Genoíno ao governo de São Paulo pelo PT, as chances da esquerda são apenas aproximações para um segundo turno, com uma barreira que parece ainda instransponível: o interior. O que fez um desconhecido como Tarcísio ter 9 milhões de votos e estar a frente na disputa pelo Palácio dos Bandeirantes. Primeiro vai ver que é isso mesmo, "palácio dos bandeirantes", será difícil um (a) candidato (a) de esquerda vencer o governo estadual onde só capitães do mato, em sua maioria absoluta já passaram por lá, temos desde os latifundiários do "café com leite", Adhemar de Barros o "rouba mas faz", o golpe militar de 1964 teve sustentação de forças sociais paulistas, Maluf eternizou a ideia de "rouba mas faz" e assim vai. Mesmo quem tenha alçado para promover mudanças foi sendo mudado pela "força dos bandeirantes". 

A capital e a grande São Paulo já teriam eleito um governador de esquerda a muito tempo e sito: Marta Suplicy, Genoíno, Mercadante, Padilha e Marinho, tal é lugar e o papel da capital e sua zona de influência, a grande São Paulo. Dos partidos da centro esquerda e esquerda, só o PT poderia ter mudado essa história. Seja no meio sindical, pois controla o principal sindicato de professores do Brasil, a APEOESP e já governou inúmeras cidades no interior paulista como França, Ribeirão Preto, Registro, Campinas, Itapeva, São Jose dos Campos, Santos, Ubatuba, entre tantas. Porém o que faltou? Eu tive essa impressão de análise quando militei no mandato do companheiro Luiz Eduardo Greenhalgh, ao viajar e articular com militantes do PT no interior a impressão era mesma, forte influência do PMDB, ampliação do PSDB e um conservadorismo que se espraia nas regiões do agronegócio, uma relação partidária subordinada a capital e ausência de uma política para o interior. 

Sem uma estratégia, as eleições se tornaram apenas parte da lógica e vencer um município apenas mais uma "máquina administrativa" para governar e aparelhar. Vimos a perda gradual dessas cidades, sem uma análise necessária do porquê não mantemos, não criamos um cinturão de proteção que deveria sim envolver ter quadros políticos internos para uma boa administração e quadros políticos externos para articular o avanço. Ah uma ladainha discursiva que apenas serve para acalmar corações e justificar erros, de que o "interior tem outra dinâmica, é conservador mesmo" e blá, blá, blá. Explica tudo e não resolve nada. 

Então podemos ainda saudar e com razão os bolcheviques que num país gigante como a a Rússia do início do século XX, pouco industrializado, com grandes parcelas da população analfabetas e monarquista foi tomado por uma revolução popular-militar que com meios de comunicação próprios e criando redes de apoio e articulação venceram. As razões da derrota não superam o fato de que a vitória foi possível, e se alguns querem debater por esse caminho digo que para o PT que já governou cidades importantes no interior também foi dizimado a pouco tempo atrás e não se recuperou. Governamos nada mais nada menos na grande São Paulo apenas Franco da Rocha e no interior Araraquara, e retomamos Diadema no ABC. Também é verdade que a intestinal disputa interna é grande responsável pela derrota da estratégia de ampliar no interior. 

No PT há regras para vencer uma disputa, mas não regras para superá-las. E a função da organização partido seria criar campos de unidade quando o assunto é ocupar o interior para fortalecer a estratégia eleitoral para o estado. Sem isso, vamos imaginar hipoteticamente uma revolução, vai ser lindo as ruas vermelhas na capital, o povo sorrindo, as mudanças acontecendo, mas lembrar da Comuna de Paris? É, essa merda pode e vai acontecer aqui também. Não subestimo a burguesia. Vamos aos números: primeiro tirar os lugares onde a onda lulista foi grande pelos motivos (quase) óbvios, na capital (Lula-Haddad vencem), hna grande São Paulo onde governamos Diadema e Franco da Rocha e adjacências, macro Osasco vencemos em várias cidades, inclusive Osasco. 

Agora onde não se explica: vencemos em Barra do Turvo, Ribeira, Apiaí entre outras cidades que pertencem a região de Sorocaba (bem no fundão, já divisa com o Paraná), uma cidade chamada Coronel Macedo deu 50% dos votos pra Haddad, cerca de 1400 votos, outra Marabá Paulista 50% (1.100), as cidades sob influência das lutas do MST como Teodoro Sampaio, Rosana e Euclides da Cunha cerca de 40% a 50%, Dolcinópolis deu 51% de votos para Haddad (800 votos) e 29% para Tarcísio, Bananal e Areias no Vale do Paraíba juntas somam quase 3.000 votos, em Itapura já divisa com Mato Grosso, deu 56% (1200) para Haddad, e assim vai. Um partido deveria ter uma estratégia. Hora de guerrear internamente e hora de governar externamente. 

O PT de São Paulo deveria ter a obrigação de apoiar diretamente estes munícipios num projeto de poder estadual, oferecer às cidades pequenas uma chance para mostrar que a esquerda, o socialismo e o comunismo tem mais o oferecer na gestão pública, o medo de ver afetada suas vidas morais apenas serve de combustível para que o interior e o litoral sejam cada vez mais isso, lugares apêndices. Importante constatar que quem provou que o interior pode evoluir culturalmente e politicamente foi a própria ditadura militar. Na estratégia de constituir a integração de institutos de ensino superior em 1976 o governo do estado cria a UNESP, sua presença no interior produz uma cultura política adversa ao traço conservador, mostrando o caminho no campo da política partidária de que não precisamos nos prender a lógicas ou ideias preconcebidas de como funciona essa dinâmica. Nem ficar com o dilema do "adaptar-se ou resistir", basta ousar em querer existir e resistir. 

Os números e as articulações subterrâneas do conservadorismo paulista podem até nos empurrar para uma tragédia, mas ainda não perdemos essa batalha. Lutar até o fim e numa virada caso vença, o governo Haddad, suas alianças e coalisões, bem como o PT precisam saber "o que fazer?" para reverter não eleitoralmente, mas culturalmente uma lógica política que trava e desamina quem pouco quer entender a dinâmica do interior.

Neste segundo turno os avanços foram poucos, mas expressam o raio de influência por onde o PT governa ou tem força social, como na região de Araraquara com prefeito Edinho a frente, na grande São Paulo em especial Macro Osasco e Grande ABC e na capital a força social do petismo e do anti bolsonarismo. Não fazer a leitura das tarefas necessárias do partido é querer seguir tentado vencer no estado de São Paulo por pura osmose.


 
É inegável que ampliação de Tarcísio, em azul escuro, foi considerável, Haddad empata ou perto por pouco nas cidades marcadas com azul claro e vence nas cidades em tom de vermelho (escuro ou claro). Assim, temos um desafio que não compete apenas ao PT, mas a esquerda de modo geral, se quer vencer na capital financeira do capitalismo brasileiro deve assumir uma estratégia que caiba o interior. O interior paulista representa o conservadorismo das elites do agronegócio, que parece uma versão terrível da pré industrialização paulista e do Brasil de antes da década de 1920-30, e como sabemos pela história, esse tipo de elite tende a ser mais conservadora. A desindustrialização não afetou apenas a burguesia, mas atingiu a esquerda na possibilidade de organizar a classe trabalhadora como polo mais dinâmico e atuante da luta de classes, e com isso, o interior pressionado também por uma economia do empreendedorismo dos serviços é apenas força auxiliar do agronegócio. E os bloqueios dos derrotados só mostra que os desafios são ainda maiores com a consolidação da direita conservadora paulista, se contrapor exige mais do que discurso, exige ação em várias frentes.

Se seguirmos a lógica errada, tenho pena dos meus valorosos companheiros e companheiras interior afora que resistem bravamente pela liberdade, pela justiça social, contra a desigualdade, o agronegócio, entre tantas expressões de uma questão que depende de nós reconhecer que dar invertida nesse mito vai além do "aceitar a derrota". 

Enquanto não mudarmos nossa postura com relação ao interior, onde somos reféns de um mito que nós mesmos alimentamos, se não conquistarmos a população com investimento de fato chegando a quem interessa e possa sentir parte dessa mudança, seguiremos apontando o dedo acusatório para o lugar errado, quando deveríamos nós a apoiar mais e decididamente a corajosa militância desse mesmo interior do estado.

PT: dois partidos e nenhuma direção.



Já aviso aos leitores/as, o artigo é longo e trata justamente do momento presente e futuro que vivemos na política brasileira e em particular da esquerda. Não é uma análise eleitoral Lula x Jair, mas sim de uma reflexão sobre o papel do instrumento político que é o partido político, sua forma partido, uma organização que Gramsci designou ser das organizações a de maior importância na sociedade moderna, pois, expressa os projetos societários em disputa na sociedade. E o intelectual marxista tem toda razão. Somada a compreensão de Lênin, para quem o partido da classe trabalhadora deve ser e expressar a vontade da força social que não só representa, e sim impulsiona as transformações necessárias. Ou para Rosa " vermelha", que exigiu da forma partido uma responsabilidade única sobre o rumo estratégico da classe. Luxemburgo por sinal foi lucida em sua Intervenção no Congresso de fundação do Partido Comunista Alemão (https://www.marxists.org/portugues/luxemburgo/1919/mes/40.htm) ao criticar o boicote da ala esquerdista as eleições da Assembleia Nacional, e conclui dizendo: 

"Concluo com a formulação: entre nós, no que se refere aos fins e às intenções, não há nenhuma diferença. Estamos todos sobre o mesmo terreno, combatendo a Assembleia Nacional como um bastião da contrarrevolução, querendo chamar e educar as massas para aniquilar a Assembleia Nacional. Põe-se a questão da conveniência e dos melhores métodos. O de vocês é mais simples, mais confortável, o nosso é um pouco mais complicado e, justamente por isso, considero-o capaz de aprofundar o revolucionamento espiritual(4) das massas. Além disso, a tática de vocês é uma especulação sobre o precipitar dos acontecimentos nas próximas semanas, a nossa encara o caminho, ainda longo, da educação das massas. A nossa tática leva em conta as próximas tarefas ligadas às tarefas da iminente revolução no seu todo, até que as massas proletárias alemãs estejam maduras para segurar as rédeas. O camarada luta contra moinhos de vento ao atribuir-me tais argumentos. Precisaremos recorrer às ruas. Nossa tática apoia-se no fato de que, nas ruas desenvolvemos a ação principal. Isso prova então que, ou bem o camarada quer empregar metralhadoras, ou bem entrar no Reichstag alemão. Ao contrário! A rua deve, em toda parte, dominar e triunfar. Queremos colocar dentro da Assembleia Nacional um sinal vitorioso, apoiado na ação exterior. Queremos explodir este bastião de dentro para fora. Queremos a tribuna da Assembleia Nacional Queremos a tribuna da Assembleia Nacional e também a das assembleias dos eleitores. Quer você decida assim, ou de outra maneira, fica conosco sobre um terreno comum, o terreno da luta revolucionária contra a Assembleia Nacional." 

 E o que isso tem haver com as eleições de 2020? Tem haver o fato de que há sinais para que tenhamos a certeza que ainda haverá vida longa ao petismo na forma eleitoral e institucional a julgar pelo movimento ou humor dos votos de agora serem uma disparidade com 2018. Fato: 2016-2018 foi a agonia do PT, alvo sempre preferencial das frações burguesas no Brasil, nunca foi o Lula o alvo certo, mas o partido. Lula como maior expressão foi carregado para as amarras lavajatistas porquê essas mesmas frações burguesas sabem que a alta dependência do PT ao lulismo só aumentou pós golpe de 2016, tirar de cena ou enfraquecer essa expressão era necessário. As eleições municipais no mesmo ano confirmaram que a derrota do petismo era certa com a destruição do "cinturão vermelho" na grande São Paulo, em especial na região do grande ABC, isolamento e derrotas em lugares de referência em Minas Gerais (Belo Horizonte) e no Rio Grande do Sul (Porto Alegre), o investimento pesado nas facções fascistas-conservadoras-de direita para prosseguir com a ocupação das ruas, lugar antes legitimo da esquerda. 

O PT preferiu seguir uma conveniente oposição institucional contra Temer, voltado as ruas como se nada tivesse acontecido, preferiu seguir uma onda "Fora Temer" mesmo sem legitimidade, a ter que convocar um congresso extra partidário, não público e de intensos debates e deliberações urgentes. Apostou na solidariedade a prisão política de Lula, focando no apelo "popular" pela sua liberdade, voltado o espetáculo às portas do cárcere na PF de Curitiba, enquanto a vida social seguia agonizante, numa paralisia diante das reformas contra os direitos dos/as trabalhadores/as e aguardando as eleições de 2018. 

A ausência da política para um partido é como um corpo humano sem alma, apenas caminha divagando e aguardando. 2018 derrotados todos, mas todos mesmo que pertencem a esse "establishment político", da direita neoliberal à extrema esquerda não houve um que tenha tratado a candidatura de Bolsonaro como "algo realmente sério". Também vindo de um oportunista que nunca trabalhou na vida e mergulhou a vida política numa veia conservadora e saudosista da ditadura militar mantinha um eleitorado fiel, mas de baixa expressão. Só que o fascismo nunca dorme no ponto. A família mafiosa foi aos poucos ocupando os espaços institucionais do parlamento e como alguém que gosta do poder para seus fins privados teve a sorte do momento histórico batendo a sua porta no Brasil e no exterior. 

O rebaixamento político cultural, educacional e de Estado promovido pelos governos neoliberais e conciliados pelo lulismo-dilmismo foram acompanhados de um híper-colonialismo do modo de viver do capitalismo contemporâneo. Comunismo não, consumismo sim! 

Essa lógica do individualismo empreendedor, desindustrialização, banalização do mundo do trabalho de um lado, precarização de outro, só criou uma versão moderna e controlada da versão da "luta de todos contra todos" do livre mercado. A soma de tudo: acumulo de forças, mudanças na conjuntura, clima favorável e uma sociedade desideologizada abriram a porteira de oportunidades que Jair e a família queriam para dar um salto em suas vidas. E deram. O deputado do baixo clero virou presidente. Ah, esqueci do PT. 

E apesar de ser piada de bolsonarista, não seria errado dizer que nesse caso haveria uma certeza: a escolha de Haddad foi uma decisão pessoal do grande líder, direto da PF. Sem direção, sem congresso, sem nem uma reunião de executiva, mesmo que as atas provêm o contrário, o fato de que Lula tornou-se infinitamente maior que o PT após 2010 e 2016 não há duvidas. A chapa era boa, a campanha no clima bom pós golpe, a ida ao segundo turno mostrou o vigor da indignação e no final faltou aquela reunião, aquele congresso, aquela reunião de executiva...perdemos de um candidato que criou um fato político ainda sem resposta (a feikada) e um ausente nos debates. Um fator também era certo: as frações burguesas tinham a crença de que Bolsonaro seria uma versão "Lula" na economia com um upgrade, uma política econômica mais liberalizante. 

Realmente Haddad-Manuela foram guerreiros nessa eleição, enfrentaram mais oposição do que Lula agora em 2022. 2018-2021 Jair e família mostram o que são e o que sempre foram. O governo parecia um hospício, uma tropa de despreparados que desconheciam o Estado, antissociais com as instituições da democracia burguesa, falavam apenas para o cercadinho, foco numa política econômica e social voltada para o grande mercado. 

Teve pandemia! Sim, uma crise sanitária internacional que aqui foi desprezada, o chefe de Estado cagando e andando para as mortes e para o próprio ministério da Saúde que durante uma crise de saúde teve ao todo quatro ministros em curto espaço de tempo, falta de vacina de um lado, oxigênio do outro, corrupção com recursos da saúde em volumes do tamanho da própria pandemia e o show do negacionismo presidencial e seus aliados. Desemprego, fome, crises sanitárias, humanitária, ambiental, entre tantas. 

Despenca aprovação e sobre rejeição. Para a cúpula do lulismo cenário perfeito para o retorno triunfal. Lula solto, livre, sendo absolvido das acusações e derretimento do lavajatismo que já tinha sido corrompido com a subida de Moro ao Ministério da Justiça de Jair "rachadinha". 

Mesmo assim, as eleições municipais de 2020 ainda demostram que a rejeição ao governo de Jair não é maior do que a rejeição ao petismo, mesmo diante desse cenário na capital paulista um novo nome ascende ao segundo turno, Boulos do PSOL, sinais de mudanças nos colégios eleitorais das capitais e grandes cidades onde parte do eleitorado tende para esquerda. Ainda assim, o centro do comando petista prefere a orientação do grande líder, que teve duas posições em tempos diferentes. 

Na saída da prisão Lula afirma que o PT precisa se reinventar, renovar e ampliar o espaço da juventude, aqui o preço é escamotear e pedir que antigos quadros se afastem ou apoiem novos nomes, e lógico, isso não aconteceu. E não aconteceu porque não era uma diretriz partidária ou orientação tática ou estratégica, mas um discurso num momento de grande comoção. O tempo vai passando e as prioridades mudando. 

Mudam ao ponto de priorizar a mesmíssima lógica: aliança-conciliação-pacificação. Ao PT, siga-se o jogo como foi sempre jogado. Mesmos nomes, mesmos financiamentos, os mesmos acenos e muita simbologia para movimentos sociais, identitários, sindicais e populares. Para quem estava acostumado com as coordenações eleitorais, comando de campanha, deliberações partidárias, nada disso, a novidade é a força do "deixa o Lula me levar, leva eu" e levou mesmo. Autonomia total para quem quer fazer campanha, mas restrição para as decisões políticas no processo eleitoral. 2022 o cenário político eleitoral para centro esquerda é: PT = 14 milhões de votos e a retomada de uma bancada de 80 deputados/as, a mesma que conquistou em 2002. Vai entender o eleitor né. Mas tem explicação.

O PT se consolidou como um grande partido da centro-esquerda brasileira. Sem demérito, é a realidade. Até as eleições de 2002 a disputa interna político e ideológica era intensa, já comentei em outro artigo que neste ano até Suplicy disputou prévias contra Lula, para enfrentar as arrogâncias do campo lulista à época. Ainda existem tendências internas, debates, mas não com a intensidade do período. O último ensaio que pode ter tido algum efeito antes mesmo das eleições de 2014, quando setores do campo majoritário lulista e personalidades do campo de esquerda questionaram a reeleição de Dilma diante da crise política e econômico-social que explodiu em 2013 com as manifestações de julho. Estes setores defendiam um recuo tático, retirando Dilma e recolocando Lula, nesse momento a lavajato ainda não tinha "radicalizado" para prisão de Lula, porém a ideia geniosa pode ter vindo daí, nesse momento até setores da elite e da mídia burguesa já atiçavam as hostes petistas com pesquisas de opinião, simulações eleitorais com Lula e Dilma como candidatos, vale lembrar que a voz da burguesia, o jornal "O Estado de São Paulo" deu destaque para uma pesquisa e a chamada foi "Lula é nome favorito para 2014, aponta pesquisa da CNT, [o] ex-presidente receberia 69,8% das intenções de voto, contra 11,9% do senador tucano Aécio Neves; Dilma foi citada por 59% dos eleitores em cenário sem Lula" (Estado de São Paulo e Reuters de 03/08/12, segue o link: https://politica.estadao.com.br/noticias/geral,lula-e-nome-favorito-para-2014-aponta-pesquisa-cnt,910543)

Após a reeleição de Dilma vivíamos numa montanha russa constante. 2015 foi a luta contra o golpe, não interpretado pelo PT, como um todo, as manifestações contra o golpe foram se intensificando nas ruas fora da orientação partidária, no PT ainda não havia acordo sobre o risco e nos demais partidos a pauta econômica e de reformas não permitia sequer mover-se na defesa contra um golpe contra a presidente. O estado não era nem de atenção, mas de situação estática.

Precisamos passar por dois momentos-chave para que 2016 fosse o ano da crise se tornar um problema real: o impeachment. Vamos lembrar que Cunha havia tentado negociar sua situação na Comissão de Ética do congresso e o PT tinha os votos para engavetar os pedidos de processos contra Cunha. Tensão e apreensão, no final o PT decide pela continuidade do processo e Cunha declara guerra a presidente, o resto já sabemos: golpe!

O PT retornando à oposição não voltou igual ao que era antes. Isso é a lição da política, "tudo que é sólido se desmancha no ar" e o movimento da sociedade é único como água do rio, que mesmo passando por um sistema de tratamento, nunca será mesma água. Fato, o petismo na oposição associada ao lulismo se tornou o mito do lado de cá do progressismo, sem qualquer direção do partido, a reascenção pós golpe de 2016 não foi de um partido ou uma esquerda renovada e sim de um lulismo fortalecido. Lula encarnou para as novas gerações fora do petismo ou incorporadas por ela pós 2016 a oposição ao Temer-Bolsonaro. Não o partido, o instrumento político que por natureza seria a organização estável do movimento da sociedade.

Desde então, o tamanho das tendências diminuem, sua organicidade sendo substituída pelas personalidades e um elemento de classe que acompanha o PT desde a sua fundação: o estigma às correntes de pensamento político ideológico não é novidade e a mídia burguesa ou PIG na definição de Paulo Henrique Amorin (saudoso) sempre reiteraram que se há o que preferir no PT, que fosse o lulismo, pois os "radicais" reunidos ou desunidos no campo da esquerda  socialista e revolucionária precisavam ser combatidos direta ou indiretamente. Sempre houve critica à Lula, mas o tom era bem mais elevado quando o assunto era destas correntes.

2020 a ausência desse PT ideológico mostrou que com uma organização fraca derrotas também no simbólico eram possíveis de acontecer. Na capital paulistana Boulos vai para o segundo turno contra Bruno Covas, o PT tinha como candidato Jilmar Tatto, nome da elite do petismo paulista, influente em inúmeros governos, porém fora da sua zona de conforto amargou um sexto lugar atrás de França, Russomano e Arthur do Val, situação inédita para o PT desde 1988. Essa simbologia também reflete na ampliação e renovação da bancada do PSOL nas eleições de 2018, ainda em São Paulo temos para federal nomes novos como Sâmia na política ultrapassando em votos nomes tradicionais como Ivan Valente e Erundina, e na Assembleia fazendo uma bancada de quatro deputadas, sendo apenas Gianazzi deputado veterano. 

Há uma migração de votos de um eleitorado de um campo de pensamento à esquerda, independente de partido, migrando do PT para outras legendas, em especial o PSOL? Essa é uma questão que realizo na minha análise para justificar que a ausência de uma direção política, não as pessoas, mas as ideias, o programa, a estratégia, o agitprop, enfim, a disputa de projetos que um partido de esquerda deve fazer para conquistar, mudar ou revolucionar uma sociedade e um Estado. 

Primeiro, minha hipótese é que sim. Porque, no campo parlamentar o que se espera de uma representação de esquerda? Combatividade, denúncia, enfrentamento, disposição para o debate, articular a serviço das pautas classistas, trabalhistas, de políticas públicas e populares. E é justamente o que parte significativa das representações parlamentares tem feito em baixa intensidade, sem essa força que sai dos muros dos parlamentos, que ganha as ruas. E me parece que 2022 venho consagrar essa migração gradual de votantes de várias matizes, sejam elas do petismo, da classe assalariada média progressista, de simpatizantes que desagregados da dinâmica partidária petista que institucionalizou sua forma partido, que marca posição cada vez mais plástica e menos carismática, de presença pontual e não de articulação com as pautas e lutas em movimento, do distanciamento do mundo real das relações sociais mais presentes da classe. 

O Psol em números cresceu pouco, mas em intensidade da sua atuação política pela esquerda associada a novos números eleitorais relevantes tem sido um dos canalizadores dessa migração político eleitoral. A bancada federal com Boulos frente como o mais votado do estado para federal com um milhão de votos, seguido de Erica Hilton, Sâmia, Sônia Guajajara e Erundina, e na Assembleia Legislativa, com cinco deputados/as. O fato é que há uma migração sutil de votos petistas para o parlamentarismo psolista, justamente pelos valores que se espera de uma representação parlamentar de esquerda. Falemos do mundo real, no espectro do eleitorado ativo, sejam ativistas ou militantes, relativamente pequeno, estamos falando de Brasil e de uma esquerda que passou da redemocratização até o primeiro mandato do ex-presidente Lula atuando sobre uma metodologia de lutas internas e de movimento definido por um tipo de organização que ficou tradicional, que ainda persiste, mas agora coexiste com novas formas que abarcam as mudanças da sociedade com relação as pautas políticas que passam pelas lutas identitárias e a precarização do mundo do trabalho, as redes sociais virtuais e as relações sociais, a luta pela sobrevivência de um conservadorismo que acusa essas próprias mudanças da sociedade como desestabilizantes do "mundo perfeito" em que vivemos. 

Esse turbilhão de mudanças evidenciam que algo está acontecendo com a base, mas nenhuma análise tem se preocupado com o lado de cá, pois o lado de lá tem causado mais horror. Contudo, o lado de cá é tão fundamental quanto, porquê aqui estão os ativistas e militantes, indivíduos que se movimentam voluntariamente pela causa ou por uma (ou mais) causas, são imprescindíveis pois quando assumem uma luta a fazem com amor revolucionário, cumprem a tarefa, reúnem pessoas, pautam os debates, não são pautados, ou seja, uma base que tem se dispersado na ausência diretiva do PT.

Segundo, a questão da direção não deve ser interpretado como uma reflexão trotskista, por onde as direções são centrais para que as bases se ocupem das tarefas necessárias da revolução. Minha questão é sobre organização, corpo, massa, força social, estas definições que se tornam responsabilidade do partido. Sem partido não haveria Lula, contudo devemos reconhecer que há Lula sem partido. 

Haverá partido com Lula presidente? Haverá partido com Bolsonaro presidente? Sim, haverá, mas não na forma tradicional de antes e nem cativante para uma base decidida a caminhar por ideais. Muitos perguntam como isso é possível se o PT alçou novos sujeitos, com jovens sendo eleitos parlamentares, mesmo diante da crise que se arrastou desde 2016. Bom, a empolgação do pós golpe e a força atrativa do lulismo ainda criam essa figura popular do petismo, mas o petismo não consegue agregar e agradar os seus. Duas situações são emblemáticas e tristes ao mesmo tempo, uma remete a um problema antigo, a interferência do lulismo com seus interesses sobre os interesses do próprio petismo, como em Pernambuco que em nome da coalisão nacional rifou pela segunda vez Marilia Arraes, e lá deu no deu, saída de Marilia. O caso de Renato de Freitas. vereador em Curitiba cassado após participar de um ato contra o racismo em uma igreja católica é emblemática, já que a direção do PT e o próprio Lula foi dúbia e repreensiva ao jovem vereador, que seguiu em frente e foi eleito deputado estadual. A velha lógica que amadureceu após a derrota de 1989, avançou na década de 1990, se consolidou nos governos do PT, agora maduro segue cristalizando uma triste realidade interna: o PT é centro esquerda e ponto!

Agora, na transição do caos para o futuro governo não impressiona que Alckmin seja o coordenador e muito menos as especulações sobre futuros ministros da coalisão, dos aliados do segundo turno ou das representações políticas simbólicas. Diante do quadro eleitoral e do risco que apresentou uma distancia pouco segura de quase 2 milhões de votos de Lula para o segundo colocado, é fato que o PT se resigne a grandeza da tarefa histórica e se preocupe mais em sua organização partidária, no enfrentamento necessário que passa pela formação e educação política, bem como das tarefas do partido-massa.

 Os sinais de que é necessário e possível seguir em frente na tarefa partido-massa é a adesão da juventude à candidatura de Lula, que representou o anti conservadorismo, uma oposição urgente ao projeto conservador de Bolsonaro. Esse fator precisa ser considerado inclusive pelo partido e pelo governo. Outro elemento é a antiga e urgente inversão de valores do "modo petista de governar", onde a pauta ambiental, antiracista, feminista, lgbtqiap+ e de direitos humanos e sociais que precisa ser enraizada por políticas públicas evidentes e realizadoras, e não apenas simbólicas. Enfrentar o modelo capitalista que âncora os desempregados e desprezados em geral do direito ao trabalho sob o signo de um "empreendedorismo" de serviços que é sazonal, atemporal e instável na economia de mercado, e para isso é preciso minar as bases dessa lógica por uma outra economia possível e urgente, a economia solidária por meio das cooperativas, da circulação econômica solidária, de um novo marco das compras públicas como incentivo aos grupos coletivos, como foi na experiência da compra direta da alimentação escolar e as cooperativas da agricultura familiar, com força e peso das instituições, com a busca pela autonomia progressiva em um campo econômico progressista.

A organização partido ainda demostra que nada aprendeu com o golpe de 2016. Preferiu, na oposição, adotar um tom MDB contra ARENA  aguardando 2022 como se fosse um "passeio", a realidade mostrou que o passeio quase se tornou um calvário.

Dou outro lado, na banda B da esquerda brasileira observamos uma renovação não apenas singela, mas efetiva. A consolidação do Psol à esquerda na tarefa parlamentar atraiu inclusive votos de militantes petistas, e digo militantes e não filiados, já que a condição é totalmente diferente. O/a militante se doa, vive e respira a política, se organiza mesmo sem organização, está em permanente luta e debate, exerce a política na rotina e não pontualmente, doa seu tempo, recursos pessoais e o que mais for necessário à mudança da sociedade. Filiado é filiado, está nas fileiras das fichas em algum HD ou armário de metal. Esse fator representa para onde foi empurrado parte da militância petista que tem votado no executivo no PT e no parlamento no Psol. E porquê? Porque o parlamento é o lugar do combate, do embate, do debate, da luta, do enfrentamento, da denúncia, enfim, a busca por projeto societário.

Não há duvidas que o PT seguirá grande. Também não há duvidas de que Lula não é eterno, é humano. Não há duvidas que o PT seguirá sendo um partido como o PSOE na Espanha, influente, mas não empolgante, apenas necessário quando a classe assalariada precisa arrumar a casa. Mas terá coragem de retomar o debate estratégico de partido, sociedade e Estado? 

Poderia dizer: "só o tempo dirá". Porém o tempo é nosso inimigo quando sabemos que a direita reafirma seu projeto e ainda por cima, organizado como um partido orgânico na sociedade e no Estado, usando seu poder já preexistente na superestrutura e na sociedade civil, apoiada na violência como forma de exercer a política, ou como podemos resumir no lema do Partido Novo, "liberal na economia e conservador nos costumes", isso é fascismo clássico. 

O mal ainda está presente e vivo. E nós? Ganhamos a eleição, estancamos a sangria, contudo a luta continua!  






Recomendo aos interessados que leiam: "A social democracia e o PT de Antonio Ozai; os dois livros de Andre Singer, sito, "Os sentidos do lulismo" e a "Crise do Lulismo"; e "O PT e os rumos do socialismo" de Florestan Fernandes.