quarta-feira, 15 de outubro de 2025

O direito a ser um professor analógico! Inteligência é apenas humana.

 


Havia no passado um termo chamado de "liberdade de cátedra" que segundo nota da reitoria da Universidade de Brasília (UNB) diz que a "Constituição Federal, no art. 206, assegura, a docentes e estudantes, a liberdade de aprender, de ensinar, de pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, de modo a garantir o pluralismo de ideias e concepções de ensino, bem como a autonomia didático-científica. Esse princípio é reforçado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei no 9.394 de 20 de dezembro de 1996), em seu artigo terceiro." (UNB, 2025) e este é o ponto.

É comum que o desenvolvimento de novas tecnologias possam atuar como parte da metodologia empregada no processo formativo, mas tudo tem limites. Eu desde minha passagem pela pós graduação me tornei um crítico feroz da ditadura da "nota Capes" na elaboração e construção das pesquisas acadêmicas, como todo idealista que chega nesse lugar restrito, acreditava e acredito que fazer ciência é um fazer para sociedade, contudo, esse planetinha não é apenas restrito ou elitista, é inclusive limitador onde uma questão paira firmemente no ar: as regras sagradas de elaboração, construção, permanência e aceitação são defendidas para proteger o fazer científico ou para justificar esse lugar restrito, elitista e limitado a uma turma? 

Furar essa bolha exige tanta articulação e capacidade de argumentação que em algum momento cansa. Eu cansei, reconheço. 

Contudo, do outro lado, o que está em curso no ensino seja superior ou básico parece muito pior. Seja no setor privado que busca lucratividade acima do processo formativo, seja no público que prefere inovar sem mudar nada. 
Estou falando de uma coisa que ganhou um nome que considero equivocado, a tal da "inteligência artificial" (IA) e me recuso a usar iniciais em caixa alta, não é nome próprio, é apenas uma designação para uma coisa que é artificial, mas não é inteligente. Inteligência vem do nosso  "telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor" que são características humanas. 

E nem vou ficar em grandes elaborações para explicar porque essa coisa artificial não é inteligente. Para isso basta lembrar dos tempos de escola quando muitos de nós no dia das provas utilizamos um recurso presente até hoje, a COLA. E o que era colar? Colar na escola era buscar as respostas com colegas solidários, com esquemas elaborados (de anotações na palma da mão a inscrições na carteira) ou bisbilhotando a prova do outro, enfim, era a forma encontrada para responder uma prova. E vejam que coisa incrível, o que a tal IA faz? Recebe da rede global via internet milhares, milhões, bilhões de megas e teras bytes escritos, elaborados, pesquisados, alimentados por nós humanos através do nosso  "telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor".

Chamar de "inteligente" uma coisa que colou é como dar um prêmio pra preguiçoso em dia de desafio.

Uns podem até dizer que a IA ao combinar dados tem elaborado novas produções. Mas montar quebra cabeças não requer inteligência, exige paciência e noção para juntar peças. 

Digo isso porquê quero fazer um chamado ao artesanal, ao analógico, ou seja, ao direito que temos de preservar métodos para garantir um mínimo de decência no processo formativo humano. Do mesmo jeito que livros de papel nunca serão extintos, e os dados e nossa humanidade provam isso, haverá sim professores que irão buscar preservar ações, atitudes e métodos formativos analógicos. Mesmo no processo educativo infantil a busca pelo retorno aos jogos interativos, integrativos e sem o uso de recursos tecnológicos evidenciam uma qualidade exclusivamente humana: a nossa relação, somos um ser vivo coletivo e que depende, mesmo buscando um momento só, alguma interação.

Se existe um movimento evidente de que para manter ou resgatar nossa humanidade é preciso ter uma distância segura dos recursos tecnológicos, isso não será diferente no processo formativo. Portanto, exigir o direito a ser um professor analógico, cujas habilidades e o trabalho educativo, acadêmico e formativo seja por meio da leitura, do diálogo ou dialógico, dos jogos reflexivos, lúdicos e dinâmicos, da elaboração crítica com ou uso exclusivo do "telencéfalo altamente desenvolvido". 

Fora de mim abrir mão da tecnologia, como toda boa ditadura, a do capital vai empurrando cada um de nós para suas formas sem direito a escolha - contraditório ao discurso liberal - pois, seja para pagar contas ou resolver problemas básicos somos empurrados para beira do abismo. A tecnologia não é o abismo, mas a forma e para o que ela é destinada em nossa sociedade.

Dito isso, reivindico meu direito ao analógico, quero poder exercer a docência a partir da velha escola de Sócrates, quero me integrar a realidade como Paulo Freire, quero as rodas de conversa e as interações humanas necessárias. Quero ser o ponto de partida, não preciso surpreender ninguém com mágica tecnológica, deixo isso para os outros magos que se sentem mais tranquilos com esse modelo. 

Um pouco de nostalgia para acalmar a alma!



terça-feira, 15 de julho de 2025

Deu PT? Eleições internas seguem na contramão da organização.


Algo está fora da ordem. Não, tudo segue orientada pela ordem, pelo menos no "comitê" central do Partido dos Trabalhadores (PT). Dia 06 de julho de 2025 os filados (as) seguiram em marcha para as urnas para "escolher" a nova direção do partido, como um fetiche pela democracia liberal limitada ou um masoquismo democrático o Processo de Eleições Diretas do PT representa hoje uma farsa em forma de "participação" massificada. Não foi uma "festa" da democracia, passou como um ato protocolar, sem o mesmo entusiasmo  de outros tempos.
Mesmo com a adiamento das eleições internas em Minas Gerais, num confronto patético entre as correntes dominantes que levou a justiça comum a decisão sobre o pleito, os números não mentem, em tese o partido conta com mais de um milhã de filiados, alcançou cerca de 550 mil, a metade diriam os otimistas. O mais constrangedor é a tabelinha do site do PT (https://pt.org.br/pt-faz-maior-ped-da-sua-historia-com-quase-550-mil-votantes/)


Cuja indicação é de que foi o "maior" PED da sua história, como se fosse um dado solto e que pudesse provocar grande euforia para o partido. Contudo, os anos de 2017 a 2019 foram os períodos terríveis de Temer e Bolsonaro, uma baixa que mostrou dois erros: um erro é o discurso da unidade que contaminou o partido, que deveria ser chamada de "abraço dos afogados", num período onde nenhuma força política interna pôde se posicionar de forma arrogante, pois em 2016 o PT tomou o maior tombo de sua história com a derrota em inúmeros municípios pelo Brasil e em 2019 primeiro ano do gov Bolsonaro, e segundo erro, a ausência total de uma reflexão coletiva, nenhum congresso extraordinário, nenhuma ação organizativa que pudesse coesionar o partido internamente, desde 2013, passando pelo golpe contra Dilma em 2016 e a vitória de Bolsonaro em 2018 e com Lula preso qualquer partido de esquerda que se preze deveria ter buscado reunir sua militância para uma analise estratégica, renovar o programa e definir os caminhos da luta social, eleitoral, popular e sindical. 

A direção, os "capas-pretas", os mandatários e demais autoridades internas preferiram seguir com suas vidas, com um pé no "Lula Livre" e outro numa oposição quase idêntica ao MDB durante a ditadura militar, viu o revés com a libertação de Lula e as portas abertas para as eleições de 2022. A busca pelo poder "rápido" ainda sob as hostes do lulismo é a força motriz de quem dirige o PT hoje. 

Escrevi, assim da posse de Lula sobre quanto tempo levaria ao partido para reprimir posições criticas de esquerda, abandonar o barco da luta anti-imperialista e anti capitalista neoliberal, e para minha pouco surpresa, menos de duas semanas de janeiro de 2023. Começaram os seguidores do lulismo a interromper qualquer critica legitima do lado de cá, que busca entender que para fortalecer o governo Lula como lugar de resistência e reconstrução pós Temer-Bolsonaro era necessário reagir. 

E sinais não faltaram, temos a tentativa de golpe ainda no mês de janeiro de 2023, as crises com Campos Neto no Banco Central, o revés de Motta e Alcolumbre na questão do aumento de impostos no IOF, cito estes para não me estender, como o constrangimento da extração de petróleo na bacia da Foz da Amazônia.

Do outro lado  o governo Lula foi surpreendido com as lutas que emergem fora do seu campo de visão, seja as lutas contra a anistia aos golpista de 08 de janeiro de 2025, ou a luta contra a escala 6x1 que atinge a juventude brasileira, que se tornou pauta fundamental e a recente exposição do que de fato promove as desigualdades, que é luta pela taxação dos bilionários. Em todas, o protagonismo do PT foi ridícula, com um empenho protocolar nas redes. 

Mas desde 2013 o PT que tinha como certo de que como maior partido da centro-esquerda, sem ele "nenhuma mobilização social" iria prosperar virou um mito. Nas mobilizações contra a anistia aos golpistas, contra escala 6x1 e na recente luta pela taxação dos bilionários, o que se viu são novas formas de participação e mobilização que não dependem da participação do PT. Se isso não é um sinal não sei mais o que seria?

Voltamos ao PED, nada de novo. Edinho Silva é um membro do establishment, onde das tarefas realizadas foi de ser Ministro da Comunicação Social do governo Dilma Roussef, e para um partido cuja região nordeste foi determinante, fiel e dando seu voto de confiança, internamente no PT Lula preferiu uma saída domestica, novamente o partido é presidida por um paulista. Sua votação também não expressa uma unidade, já que dos 550 mil, apenas 378 mil deram votos para sua vitória.

Seguimos para 2026 numa zona cega. No revés das pesquisas de avaliação do governo Lula a sua aprovação empata com a desaprovação após os ataques do Congresso nacional pelo Centrão, das medidas de taxação de Trump sobre o Brasil e o pedido de condeção dos golpistas, mas isso é apenas um sopro, há desafios pela frente, uma delas é o congresso nacional, se não buscarmos unidade para eleger uma bancada de deputados/as e senadores/as, não adianta buscar o poder executivo.

Vivemos um parlamentarismo de interesses, cuja lógica de classe é a busca por pilhar o Estado para atender a fome dos ricos, isso é fato! 

É preciso ter um olhar para o que interessa. Se o PT quer de fato avançar contra o fascismo precisa construir uma base, precisará trair aliados nos estados sim, esses aliados do centrão, os infiéis nas votações da base. Se o PT não quer se unir ao campo mais a esquerda como Psol, UP, PCB e outros, precisa dialogar para dar apoio e contribuir para que esse campo supere suas divergências e elejam pelo menos 8% do congresso, e o PT e seu campo (PSB, PcdoB, PDT e outros) possam avançar mais:


A esquerda nunca alcançou 50% do congresso, talvez essa tarefa nunca tenha sido parte de uma ação estratégica. Talvez isso tenha que mudar. 

Talvez o PT como partido tenha que entender que não basta "mobilizar" seus filiados. Precisa voltar ao jogo político e fazer política de classe, mesmo que isso não seja da vontade de alguns, mas o jogo é esse no momento, a direita sabe o que quer e busca seja pelo absurdo, seja pela ousadia.

No quadro atual, não estamos empolgando nem pelo absurdo e muito menos pela ousadia.

Se recuar na luta contra os bilionários, irá amargar um 2026 com mais dificuldades do que já vivencia. 

Uma parte da esquerda compreendeu isso, tem ido a campo e buscado eleger e ocupar esse lugar do congresso, provou que há possibilidades para avançar. 

As demais lutas seguem no dia a dia. Temos o Plebiscito Popular percorrendo as ruas do país. As ruas não vão esperar o PT decidir o que quer da vida.





 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Dr. Victor Frankenstein repudia seu monstro | Carta semanal 2 (2025)

 

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Dr. Victor Frankenstein repudia seu monstro | Carta semanal 2 (2025)

Zulkifli Yusoff (Malásia), Sem título, 1995.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Pouquíssimos humanos tiveram a sorte de descer às profundezas dos oceanos do mundo. O lugar mais profundo — 11 quilômetros abaixo do nível do mar em seu ponto mais profundo — é a Fossa das Marianas, que está localizada ao norte das 607 ilhas dos Estados Federados da Micronésia, no Oceano Pacífico (em comparação, o Monte Everest está quase 9 quilômetros acima do nível do mar). Lá embaixo, nas profundezas abaixo de 6 quilômetros, no que é chamado de zona hadal, não há luz. É chamada de zona hadal em homenagem a Hades, o antigo deus grego do submundo. Em Os Persas, de Ésquilo, o coro canta: “Hades, o deus que tudo recebe, toma tudo em suas mãos e nunca os liberta”. As profundezas são tratadas com medo, a escuridão abaixo é quase uma porta de entrada para o inferno de fogo de Hades.

Exploradores que estiveram nas profundezas do oceano em vários submarinos relatam que a escuridão é total por 6 quilômetros. Mas mesmo nas águas mais profundas, eles testemunharam flashes de luz e então viram que criaturas do fundo do mar emitem sua própria luz (bioluminescência) para atrair parceiros ou caçar alimentos, produzindo luciferina (uma molécula emissora de luz) e luciferase (uma enzima), ambas palavras vindas do latim e que significam “portador da luz”, que interagem e produzem fótons. De fato, um novo estudo nos diz que 76% dessas criaturas das profundezas do mar possuem essa habilidade. Alguns são tão pequenos quanto algas unicelulares que não podem ser vistas pelo olho humano, enquanto outros são tão grandes quanto uma lula gigante, que pode atingir até 13 metros de comprimento. Existem criaturas únicas nessas grandes profundezas, muitas delas evoluíram para se adaptar não apenas à escuridão, mas também à extrema pressão da água (16 mil libras por polegada quadrada ou psi, em comparação com cerca de 14,7 psi no nível do mar). Eles receberam nomes fantásticos de humanos que os veem por sua estranheza: tubarão-duende, polvo-dumbo, lula-vampira, vermes zumbis, peixe-machado seminu. A chave para sua sobrevivência não está apenas em seus olhos e bocas fantásticos, mas na luz que eles produzem para combater a escuridão.

Jean Cocteau (França), Édipo ou a encruzilhada dos três caminhos, 1951.

A luta pela sobrevivência define a história natural e humana na Terra. Nenhum animal ou planta sucumbe a quaisquer desafios absurdos que lhe sejam impostos. Nas praias de Pohnpei, um dos Estados Federados da Micronésia, há flores — como os lindos hibiscos costeiros laranja, rosa e vermelho — que brotam do solo arenoso e florescem quando a água salgada as banha. Em 2013, o poeta pohnpeiano Emelihter Kihleng escreveu “Maré”, que captura essa resiliência:

A maré me puxa,
um lembrete das coisas que se perderam
e das coisas que retornam.
Eu estou na praia,
pés afundados na areia,
imaginando se o oceano se lembra de mim.

Pohnpei não foi bombardeado na Segunda Guerra Mundial e foi poupado dos testes nucleares que atingiram o Atol de Bikini (23 testes nucleares dos EUA entre 1946 e 1958) e o Atol de Enewetak (43 testes nucleares entre 1948 e 1958), ambos a aproximadamente 900 a 600 quilômetros de distância, respectivamente.

Em 1934, Jean Cocteau publicou a peça La Machine infernale [A máquina infernal]. Nele, o Oráculo de Delfos, que conhece a história de Hades, diz ao sábio Édipo: “O mundo subterrâneo nada mais é do que um espelho do mundo superior, onde encontramos apenas o mesmo rosto, os mesmos destinos e as mesmas sombras”. Mas, na verdade, o Oráculo de Delfos errou. Nas profundezas, perto dos portões de Hades, em vez de sucumbir à sua situação, as criaturas que ali vivem — apesar da realidade do lema de Thomas Hobbes, Bellum omnium contra omnes [a guerra de todos contra todos, ou a luta pela sobrevivência] — produzem sua própria luz interior por razões de reprodução ou preservação. Quando li sobre a onipresença desses animais bioluminescentes nas profundezas do oceano, senti mais as implicações metafóricas do que as evolutivas: sua luminescência é meramente uma reação bioquímica ou pode ser lida como resiliência?

Do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social chega o dossiê n. 83 (dez. 2024), O falso conceito de populismo e os desafios da esquerda: uma análise de conjuntura da política no mundo do Atlântico Norte Este texto foi estimulado pela vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, mas também pela sensibilidade entre setores do antigo liberalismo e da social-democracia de que é isso — a chegada da extrema direita de um tipo especial — a causa dos problemas que a humanidade enfrenta. Trump sozinho não nos deu os hábitos de intimidação e repressão que os Estados Unidos e seus aliados infligem ao Sul Global. Trump nasceu em 1946, um ano depois de os EUA usarem bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Quando criança, os EUA invadiram a península coreana (1945) e interferiram nas eleições na Costa Rica (1948), Síria (1949), Irã (1953) e Guatemala (1954). Trump certamente definiu os termos para a ofensiva regional israelense com os Acordos de Abraham (2020), mas ele não assinou as ordens para transferir sistemas de armas perigosos para Israel para sua guerra genocida, nem é a única força no Atlântico Norte comprometida em defender seus financiadores.

Trump é um produto do pacto neoliberal. Ele é o monstro de Frankenstein. Sua afirmação de ser um bilionário self-made é tão realista quanto sua afirmação de ser um político self-made: em ambas as áreas, ele foi impulsionado por forças muito maiores do que ele. Quando os antigos liberais e muitos dos sociais-democratas deixaram de lado seus compromissos com o bem-estar social e o bem comum e salivaram em direção ao neoliberalismo, eles perderam cada vez mais popularidade entre grandes setores do eleitorado no Atlântico Norte. Esses velhos liberais e alguns social-democratas usaram o estado para desviar enormes partes do excedente para criar bilionários e depois assumir empregos no mundo deles. À medida que perdia sua base, a classe dominante buscava freneticamente uma maneira de manter sua hegemonia eleitoral. Isso significava, primeiro, destruir a possibilidade de qualquer renascimento do assistencialismo por meio da centro-esquerda (a sabotagem contra a campanha de Bernie Sanders e a conspiração contra Jeremy Corbyn são exemplos disso) e depois encontrar candidatos dispostos a dizer qualquer coisa para criar e disciplinar uma nova base (desde que esses novos candidatos, como Trump, permanecessem comprometidos com as estruturas rígidas de extração de excedentes do trabalho social de muitos para as contas bancárias de poucos). Com o tempo, incapazes de cumprir suas promessas, Trump e outros da extrema direita de um tipo especial cairão na desgraça com sua base. Quando isso acontecer, a classe dominante, os Frankensteins do capitalismo, encontrarão outro mágico que deslumbrará uma base desorientada enquanto continuará a impor brutalidades aos trabalhadores e camponeses do mundo.

Salah Elmur (Sudão), Jubileu de Ouro, 2020.

O que a presidência de Trump significará para o mundo, pergunta o comentarista liberal? O que o pacto neoliberal significou para o mundo? Quando o “mal menor” do pacto neoliberal — Biden nos Estados Unidos, Starmer no Reino Unido, Macron na França, Scholz na Alemanha (e até o patético fim de sua carreira política, Trudeau no Canadá) — é totalmente cúmplice de um genocídio em andamento, há pouco que Trump possa fazer para ser pior. Além de “terminar o trabalho” em Gaza, como ele e seus comparsas prometeram fazer, talvez tudo o que resta seja se ele realmente, ao estilo do Dr. Strangelove, é conduzir o extermínio da raça humana e a aniquilação do planeta. Mas mesmo quando o tema é a destruição planetária, o que as mega corporações do pacto neoliberal têm feito senão cometer ecocídio e ignorar a evidência da catástrofe climática? Essas forças neoliberais alegam apoiar formas de liberalismo, como a liberdade de expressão, mas, na verdade, foram essas antigas forças liberais e antigas forças sociais-democratas no mundo atlântico que introduziram poderes amplamente sem contenção para as forças de repressão em nome do antiterrorismo, entregando assim esses poderes a forças — como Trump — que são instintivamente contra as liberdades de expressão e associação. Os velhos liberais e os antigos sociais-democratas dirão que pelo menos não são patriarcais ou racistas, mas mesmo aqui os números deles são péssimos: a taxa de deportação nos Estados Unidos é tão alta, se não maior, sob presidentes liberais quanto sob conservadores, e os velhos liberais e antigos sociais-democratas não fizeram quase nada para defender os direitos das mulheres, que se tornaram um hobby de campanha em vez de um campo de luta.

É precisamente esse o ponto: nem os velhos liberais e os antigos social-democratas, nem a extrema direita de um tipo especial são capazes de expandir o campo de luta. Isso dá espaço para que os trabalhadores entrem nesse campo com confiança e clareza e moldem uma política de emancipação das garras do capitalismo, e permite que aprofundem a batalha de ideias e levantem questões programáticas que buscam resolver problemas reais em vez de apenas tentar construir formações eleitorais para derrotar a direita.

Larkin Durey (Costa do Marfim), Haut les mains [Mãos ao alto], 2020.

Não consigo tirar essas criaturas das profundezas do mar da minha mente. Em um ponto do romance Frankenstein, de Mary Shelley, o monstro diz que, embora ele “devesse ser o Adão [de seu criador]”, ele é “mais como um anjo caído” (ou seja, Lúcifer). O nome Lúcifer — assim como luciferina e luciferase — vem da palavra latina para “portador da luz” e, embora o termo tenha aparecido pela primeira vez em uma tradução da Bíblia hebraica do final do século IV como uma tradução da palavra hebraica Heilel ou “aquele que brilha”, foi somente em Paraíso Perdido (1667), de John Milton, que ele foi identificado com o anjo caído. Será que os monstros, os portadores da extrema direita de um tipo especial – como Trump – também são, em algum aspecto, “portadores da luz” luciferianos, cujas contradições nos permitem ver melhor os enganos do pacto neoliberal? Eles podem fazer isso, mas eles e o resto dos monstros do mundo do Atlântico Norte não podem fazer nada além disso. Eles não são como as criaturas das profundezas do mar. Seus seguidores ficam momentaneamente animados com seu carisma, mas logo tremem com seus fracassos. Para onde irão essas massas quando perderem o interesse na extrema direita de um tipo especial? As realidades sombrias da guerra e da fome enfraqueceram as possibilidades de uma luz interior para muitos humanos que parecem ter perdido a faísca em seus olhos que traga a promessa de iluminar um caminho adiante.

Mas essa luz não pode se apagar. Sempre há um feixe de luz. O poeta haitiano Paul Laraque (1920–2007) escreveu surrealisticamente sobre essas curtas explosões de luz nas danças das criaturas e flores nas profundezas das águas em seu poema “Mourir” [Morrer], que aparece em sua coleção de 1979 , Les armes quotidiennes: Poésie quotidienne [Armas do Cotidiano: Poesia Cotidiana]:

A onda de sombra os arrastou para o nada,
para o fundo do mar, onde descansam entre os corais,
que se abrem como rosas, a dança vermelha e brilhante dos peixes,
os restos enferrujados dos navios, a opulência irrisória das areias.

Aquela dança vermelha e brilhante dos peixes, nosso protesto por um novo mundo.

Cordialmente,

Vijay

segunda-feira, 30 de dezembro de 2024

Você é Arthur Fleck ou Coringa? (Tem spoiler de Coringa - Delírio a dois)

 


Em que beco estamos? Confesso que assisti "Coringa - Delírio a dois" com grande preconceito, não fui ao cinema assim que me disseram que era um musical. Não gosto de musicais, enfim, gosto é gosto. Prefiro boas histórias com enredo, tramas e tudo mais. Musicais, veja bem, ficam presos nessa coisa alegórica, cantoria, o show...talvez "Chicago" com Renée Kathleen Zellweger.

Bom, vamos ao que interessa. Tirando a cantoria, o filme me surpreendeu, pois joga luz a questão que foi o estopim do primeiro, a vida social dos indivíduos, numa sociedade marcada pelo capitalismo financeiro, numa cidade afogada no marasmo da rotina determinada por um vazio existencial, ricos sendo ricos, fodidos sendo fodidos, passividade do fim dos serviços públicos e indiferença geral. 

Coringa 1, estabeleceu desse debate do anti-herói que, em sequencia, reage ao abuso dos três imbecis no metrô, vamos lembrar a cena, os três "investidores" de família formada por "cidadãos de bem" assediam uma moça no vagão onde estava o desempregado Arthur Fleck, ele nem foi tão altruísta assim, sua risada de nervoso apenas mudou o foco dos três imbecis para ele mesmo. Diante da agressão destes, a reação, tiro pra todo lado, a força humana irracional em se defender. Não justifica? Bem, eu diria que não, como também não justificaria ele apanhar de três imbecis, isso vira um bom debate ético não é?

Sobre a degola do "colega" de trabalho, voltemos para trás, quem deu a arma de fogo para o indefeso Arthur Fleck? O "colega", que a principio queira vender a arma. Depois de perceber que a mesma foi usada no atentado aos três imbecis, ficou com medo, tentou de tudo para reaver o revolver. Mereceu morrer? Acho que não! Agora, Arthur podia ter rejeitado o artefato, com certeza. Vejam como a sequencia de merda acontece. 

Matar a mãe. Outro ponto de virada, já que descobriu ou rememorou fatos do seu passado, da infância e das mentiras da mãe, já idosa. Outro gatilho, daqueles que vai criando o "Coringa" na alma. 

O tiro no meio da cara do apresentador Murray Franklin, precisava? Olha, esteticamente (falando de filme) adorei, tanto quanto a morte do Wayne. mas voltando o social da coisa, vamos lembrar que o objetivo do Arthur era se matar em público, contudo, outro sentimento desencadeou, chamemos de indignação numa variação de alto nível. Sim, adrenalina nas alturas. Lá nasce o Coringa? Eu achava que sim, até assistir "Delírio a dois"

Lá temos uma pessoa, Arthur Fleck, domesticado pela medicação, sem a euforia e os gatilhos que desencadearam a fúria anterior. O argumento da advogada de defesa sobre as "duas personalidades" até poderia ser um bom argumento legal, mas de fato pelo andar da carruagem, não era verdade. 

Talvez o "Coringa" em nós esteja por outras vias e não duplas, triplas ou múltiplas personalidades. Nós associamos indignação como um ato político, quando na verdade não é sempre. Aas vezes é um impulso individual, algo que pisou no nosso calo, o não reconhecimento, a indiferença dos demais por nós, enfim, só é ato político se é coletivo.

Novamente talvez, o que o "Coringa" em Arthur Fleck tenha causado na massa tenha sido uma indignação coletiva, já Arthur não, foi mais impulso individual. Ele nunca quis defende ruma causa, e sempre deixou isso bem explicado, várias vezes. 

Mas a provocação da sua admiradora Harley Quinn, engraçado tentaram fazer um trocadilho com "Arlequina", foi sendo assedio puro, pois, ela tinha na sua cabeça de que existia "Coringa", e nunca considerou Arthur Fleck, ela sempre o chama por "Coringa". E isso dá o gatilho que Arthur (não precisava) para aos poucos buscar ser aquele indignado que mais tentava ser o "astro da comedia" do que uma simbologia das massas. Outra incoerência, já que Harley queria o "Coringa" das massas e Arthur queria o astro do palco, tanto que os delírios, talvez por isso a cantoria, sempre foi ele representando no palco, como apresentador, cantor...e não um líder de ideais. Contradição danada né. 

A contradição que eu considero mais canalha é aquela do inicio, dos três imbecis no metrô, em nenhum momento, a moça branca assediada pelo menos tem dignidade de dizer em algum lugar que seja de que se não fosse a intervenção involuntária de Arthur Fleck, ela poderia ter sido inclusive estuprada. Nada. Não aparece nada. Isso diz muito sobre a tal a empatia, esse sentimento mentiroso, ligado apenas ao que interessa no intimo do umbigo de quem faz querendo cartaz, likes ou qualquer outro reconhecimento de merda dessa sociedade doente. 

O desfecho é o mais significativo. Começa na última argumentação do tribunal, quando ele novamente volta ao chão da realidade e decide que quem vai falar é a única pessoa que de fato existe, Arthur Fleck. Gerando frustração dos admiradores, com a saída de Harley e várias pessoas do tribunal.

Confesso que quando rolou o final fiquei chateado, achei uma bosta. Mas depois de um tempo refletindo, cheguei nestas conclusões, e no final um dos detentos que também depositou confiança no "Coringa" também entrou na fila dos frustrados e encerrou com o golpe a facadas no estomago do real e único Arthur Fleck. 

Vamos lá. O filme não é sobre o "vilão" de Batman, é sobre a existência humana. Ou a falta dessa existência para nós, para nós todos, ricos, pobres, fodidos, trabalhadores, polícia, todo mundo em pânico!

Como esse atual sistema capitalista tem conduzido a ausência da  nossa existência.

Sim, por incrível que pareça, o filme superou minhas expectativas e como sempre jogou pra baixo, num grande lago de merda, as expectativas com o ser social do capitalismo. 

Assistam, vale a pena!

Resista, meu povo, resista | Carta semanal 52 (2024) Mensagem do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

 Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

A dor percorre as artérias da sociedade global. Dia após dia, o genocídio contra o povo palestino continua e os conflitos na região dos Grandes Lagos da África e no Sudão aumentam. Mais e mais pessoas caem na pobreza absoluta à medida que os lucros das empresas de armas aumentam. Essas realidades endureceram a sociedade, permitindo que as pessoas façam vista grossa e ignorem os horrores que acontecem no mundo todo. A indiferença pela dor dos outros se tornou uma forma de se proteger de um intenso sofrimento. O que se pode fazer com a miséria que passou a definir a vida em todo o planeta? O que posso fazer? O que você pode fazer?

Em 2015, a poetisa palestina Dareen Tatour escreveu Qawim ya sha’abi, qawimhum [Resista, meu povo, resista a eles], pelo qual foi presa e encarcerada pelo Estado israelense. Um poema que pode te mandar para a prisão é um poema poderoso. Um Estado ameaçado por um poema é um Estado imoral.

Resista, meu povo, resista a eles.
Em Jerusalém, curei minhas feridas e expressei minhas tristezas a Deus.
Eu carreguei a alma na palma da minha mão
para uma Palestina árabe.
Não sucumbirei à “solução pacífica”,
nunca abaixe minhas bandeiras
até que eu os expulse da minha terra natal
e os faça ajoelhar por um tempo vindouro.
Resista, meu povo, resista a eles.
Resista ao roubo do colono
e siga a caravana dos mártires.
Destrua a constituição vergonhosa
que impôs uma humilhação implacável
e nos impediu de restaurar nossos direitos.
Eles queimaram crianças inocentes;
Quanto a Hadeel, eles atiraram nela em público,
mataram-na em plena luz do dia.
Resista, meu povo, resista a eles.
Resista ao ataque colonialista.
Não dê atenção a seus agentes entre nós
que nos acorrentam com ilusões de paz.
Não temam os Merkava [tanques do exército israelense];
a verdade em seu coração é mais forte,
enquanto você resistir em uma terra
que sobreviveu a ataques e vitórias.
Ali gritou de seu túmulo:
resista, meu povo rebelde,
escreva-me como prosa no ágar,
pois você se tornou a resposta para meus restos mortais.
Resista, meu povo, resista a eles.
Resista, meu povo, resista a eles.

Choi Yu-jun (República Popular Democrática da Coreia), A Bela Adormecida, 2018.

“Hadeel” no poema se refere a Hadeel al-Hashlamoun (18 anos), que foi morta a tiros por um soldado israelense em 22 de setembro de 2015. Este assassinato ocorreu junto com uma onda de tiroteios – muitos fatais – contra palestinos por soldados israelenses em postos de controle na Cisjordânia. Naquele dia, Hadeel chegou ao posto de controle 56 na rua al-Shuhada em Hebron (Território Palestino Ocupado). O detector de metais apitou e os soldados disseram para ela abrir a bolsa, o que ela fez. Dentro havia um telefone, uma caneta Pilot azul, um estojo marrom e outros pertences pessoais. Um soldado gritou com ela em hebraico, e ela não entendeu. Fawaz Abu Aisheh, de 34 anos, que estava por perto, interveio e traduziu o que estava sendo dito. Mais soldados chegaram e apontaram suas armas para Hadeel e Fawaz. Um soldado disparou um tiro de advertência e depois atirou na perna esquerda de Hadeel.

Nesse momento, um soldado, alegando ter visto uma faca, disparou vários tiros no peito de Hadeel, que foi fotografada parada momentos antes. Depois de ficar no chão por algum tempo, ela foi levada para um hospital, onde morreu por hemorragia e falência múltipla dos órgãos resultante dos ferimentos à bala. Organizações de direitos humanos como a Anistia Internacional e a B’Tselem disseram que a questão da faca era irrelevante, já que Hadeel havia sido alvo de uma “execução extrajudicial” (sem falar no fato de que os depoimentos sobre a faca eram inconsistentes). A representação de Tatour da execução de Hadeel em plena luz do dia é um enorme lembrete das ondas de violência que estruturam a vida cotidiana dos palestinos.

Maksudjon Mirmukhamedov (Tadjiquistão), Meu Mustang, 2020.

Um mês depois da morte de Hadeel, conheci um grupo de adolescentes em um campo de refugiados perto de Ramallah. Eles me disseram que não veem nenhuma saída para suas frustrações e raiva. O que eles veem é a humilhação diária de suas famílias e amigos pela Ocupação, o que os leva ao desespero. “Temos que fazer alguma coisa”, diz Nabil. Seus olhos estão cansados. Ele parece mais velho do que seus anos de adolescência. Ele perdeu amigos para a violência israelense. “Marchamos até Qalandiya no ano passado em um protesto pacífico”, Nabil me conta. “Eles atiraram em nós. Meu amigo morreu”. A violência colonial pesa sobre seu espírito. Ao redor dele, crianças são executadas impunemente pelos militares israelenses. O corpo de Nabil se contorce de ansiedade e medo.

Pensei muito nesses adolescentes, especialmente no último ano, que foi definido pela escalada do genocídio dos EUA e de Israel contra os palestinos. Penso neles por causa da enxurrada de histórias sobre jovens como Hadeel e o amigo de Nabil sendo mortos por tropas israelenses não apenas em Gaza, mas na Cisjordânia.

Em 3 de novembro de 2024, Naji al-Baba, de quatorze anos, de Halhul, ao norte de Hebron, voltou da escola com seu pai, Nidal Abdel Moti al-Baba. Eles comeram molokhia, seu prato favorito, no almoço, e então Naji disse ao pai que iria jogar futebol. Naji e seus amigos brincavam perto da loja de seu avô. Soldados israelenses chegaram e atiraram nos meninos, atingindo Naji na pélvis, no pé, no coração e no ombro. Após o funeral, Nasser Merib, gerente do Halhul Sports Club, onde Naji jogava futebol, disse que ele tinha um pé direito forte. “Ele era ambicioso e sonhava em se tornar internacional como Ronaldo”. Esse sonho foi destruído pela ocupação israelense.

Chuu Wai (Myanmar), Quando Amelie e Khin encontram a revolução, 2021.

A morte de um jovem é um ato imperdoável. A morte de uma criança é particularmente difícil de entender. Naji poderia ter sido capitão do time de futebol palestino. Hadeel poderia ter se tornado uma cientista extraordinária. As famílias olham para as fotografias que restam e choram. Em Gaza, outras famílias estão sentadas em tendas sem nenhuma maneira de se lembrar de seus filhos perdidos, seus corpos destruídos ou desaparecidos e suas fotos transformadas em cinzas nos escombros. Tanta morte. Tanta desumanidade.

Se o tempo e a luta nos permitirem, seremos capazes de despertar adequadamente os sonhos da humanidade. Mas a noite antes do amanhecer será longa e difícil. Ansiamos pela humanidade, mas não esperamos que ela chegue facilmente. Pequenas vozes clamam por um novo mundo, e muitos pés marcham para construí-lo. Para chegar lá, será necessário pôr fim à guerra, à ocupação e à feiura do capitalismo e do imperialismo. Sabemos que vivemos na pré-história, na era anterior ao início da verdadeira história humana. Ansiamos por esse mundo socialista, onde Naji e Hadeel terão um futuro pela frente e não apenas um breve interlúdio em nosso mundo.

Feliz Ano Novo. Que ele nos aproxime da humanidade.

Cordialmente,

Vijay

terça-feira, 10 de dezembro de 2024

Jovens, se o "futuro" do PT for eleger Jo´se Dirceu deputado federal, então saiam do PT !

Respeito a história do Zé. Eu era de uma geração que não teve medo de gritar "Stalin não morreu, necarnou no Zé Dirceu. Eu respeito a história até ele ser o líder do Campo Majoritário do PT. José Dirceu tem direito de disputar eleição. Com certeza, uma vez resolvida todas as questões com a justiça é seu direito buscar um mandato de deputado para "lavar a sua honra", mesmo sendo esse conceito de "honra" bem pequeno burguês. Como militante e dirigente acredito que teriam melhores formas de preservar sua história, honra e desforra ao que enfrentou nos últimos anos. Poderia liderar uma grande frente que buscasse reeleger e eleger uma bancada de jonens lutadores (as). Poderia liderar um novo pacto nacional com um amplo grupo de forças políticas do campo progressista ao centro esquerda para resurgir um projeto de nação. Poderia, mas prefere não fazer. Buscar um mandato para dizer que é seu é melhor, mais comôdo e bom para os negócios. Se em 2026 o que restou para jovem militância polítca do PT é escutar "não é o momento", para "ajudar na vitória" do "grande líder" José Dirceu de Oliveira, eu diria, com conhecimento de causa que: jovens deixem o PT e busquem se organizar, mobilizar, articular e construir um espaço que lhes valorize. A frase "não é o momento" é o que minha geração escutou na década de 1990. Sobre o discurso de inexperiência, "vocês ainda são jovens" e todo tipo de desculpa, minha geração serviu para tudo: votar, eleger e reeleger (até hoje) os mesmos dirigentes nos seus cargos de executiva, carregar bandeira, organizar listas, distribuir jornais, fazer campanha na rua, se fazer presente em reuniões, plenárias, encontros, congressos, seminários, etc., etc., só que poucos tomaram a frente e ocuparam espaços fundamentais de luta política. Eu mesmo tive poucas dessas tarefas e mesmo assim escutando o velho mantra "não é momento", fui dirigente municipal, da executiva da macro região, membro de chapa municipal, estadual e nacional e as vezes negociador. ontudo, a luta interna por um programa de esquerda e socialista foi solitária, a candidatura a vereador por duas vezes foi solitária e derrotada. No fim, aos 45 anos, nunca foi o momento e nunca seria se depender da lógica dos dirigentes que agora empurram seus familiares para alçar o lugar do parlamento e poucos governos do PT. Sobrenomes agora são eleitos pela normalidade da sucessão patriarcal que criticamos nas ruas e são reproduzidas nos nossos espaços. Então jovens, se alguém disser que não é o seu momento, saia, procure constrruir o seu lugar na luta política de classes, pois isso não pertence a ninguém. Leia Lênin, que diz, "Há décadas em que nada acontece e a semanas em que décadas acontecem", não espere o tempo do momento, o momento da luta, do levante, da revolução, do enfrentamento, da resistência esses são os momentos. Não é apenas 2026, mas antes, durante e depois. Um jovem que dispõe sesu esforços para eleger o velho, que com seu passado nesse caso levou a vitória de Lula em 2002 com Roberto Jeferson, Valdemar da Costa, Maluf e companhia, sim estes mesmos que deram o golpe, que se aliaram ao bolsonarismo fascista, estes que eram chamados de companheiros e quem criticasse a política de alianças era considerado "inimigo", foram construidos pelo velho modo de vera política como uma oportunidade pessoal e não coletiva. Coletivo é palavra que usada é apenas um, item de discurso. Coletivo como exercicío é a ação, o estudo, escuta, fala, diálogo e principalmente gesto. Lula no Seminário do PT sobre a realidade brasileira no dia 06/12/24 fez um discurso (novamente) duro sobre a militancia e o trabalho de base (assista:https://www.youtube.com/watch?v=zwGfAVpLQEM) e amídia adora essa contradição (ver; https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2024/12/06/a-petistas-lula-faz-mea-culpa-reclama-de-comunicacao-e-pede-volta-a-base.htm), porém, isso é suficiente? O chamado de Lula quando deixou a carceragem de Curitiba foi uma convocação aos jovens para ocuparem os espaços da política, mas foi para todos/as ou só para alçar Boulos para sua lista de sucessão futura? Aos que querem pagar para ver ou fazer parte da turma do "não é o momento", só tenho que lamentar. Cada vez que um jovem em um partido que se denomina de esquerda como PT tem que ser contido com a frase, "não é o momento", essa sim é a morte da primavera!