sábado, 7 de fevereiro de 2015

ARTIGO “Com que roupa, eu vou?” Brasil de Fato Edição 614


ARTIGO
“Com que roupa, eu vou?”

Brasil de Fato
Edição 614
1° de dezembro de 2014

Alipio Freire
 
Se os golpistas de plantão não consumarem seus intentos durante os dias de desmobilização das festas de final de ano; se o senhor Aloysio Nunes não assumir a Presidência depois de uma overdose induzida que abata o senhor Aécio Neves – O Aspirante; se dona Marina Silva não for entronizada e coroada A Nefertiti do Igarapé Verde; se dona Kátia Abreu não decidir invadir a Bolívia e a Venezuela com o apoio do pessoal do pijama-e-coturno, para acabar com a baderna no Continente e expandir o agronegócio para além das atuais fronteiras; se Deus quiser e o Divino Espírito Santo permitir; se a presidenta reeleita, Dilma Rousseff, for empossada – conforme ordena a nossa Constituição; se..., se... , etc., uma das primeiras questões (se não a primeira) que se colocará, será a Reforma Política. 

Da direita à esquerda – passando pelos radicais de extremo centro – já existem vários projetos. Como originalmente esta é uma proposta programática do Partido dos Trabalhadores (assumida pela Presidência), antes mesmo de conhecermos todos os pontos da Carta de 1988 a serem reformados, temos uma singela pergunta a fazer, especialmente ao PT: com que força contamos para aprovar reformas que interessem aos trabalhadores e ao povo (povo=todos os explorados e oprimidos)?

As recentes eleições já demonstraram que não estamos com essa bola toda... No primeiro turno, acabamos com um Congresso mais à direita, que o da legislatura que ora finda e, no segundo, a diferença de votos entre os dois candidatos à Presidência foi pequena. Além disso, junto à opinião pública, consolida-se (e nos parece crescer), o ódio contra a esquerda, contra o PT e contra a presidenta.

Ou seja, neste momento a correlação de forças não nos é favorável, mas sim aos nossos inimigos de classe. O fato da presidenta ser obrigada a engolir ministros como a senhora Kátia Abreu e o senhor Joaquim Levy – por mais trágico que consideremos, é apenas a ponta do iceberg.

O processo de golpe que se desenvolve desde junho de 2013, prossegue em curso, e não duvidamos que recrudesça e possa ter um “final feliz” para os golpistas, se a Constituinte Exclusiva aprovar suas emendas (de sentido diametralmente oposto àquelas que propusermos, para o aprofundamento da democracia no Brasil). O golpe poderá se consumar por esse caminho, sem necessidade sequer de arcar com o ônus de tanques nas ruas. Ou seja, o tiro tende a sair pela culatra, com um retrocesso das conquistas obtidas em 1988.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Quem somos, onde estamos e para onde vamos? Novo golpe de 1964 ou atraso na vida política brasileira?


Quem somos, onde estamos e para onde vamos? Novo golpe de 1964 ou atraso na vida política brasileira?

Motivos para um impeachment? Primeiro a palavra é difícil, melhor o seu significado que é “impedimento”, ou seja, um ato de impedir algo ou alguém.  Comparar a conjuntura política do governo Collor com o atual governo Dilma é no mínimo atestado de “analfabetismo funcional” e quem deveria ter cassado o diploma do ensino médio é justamente quem faz coro com imagens ou informações nas redes sociais virtuais e pela imprensa mercantil.

Primeiro, reconhecer a grande capacidade de mídia e controle da opinião que exerce os atuais meios de comunicação controlados pelas elites e seus representantes políticos – os mesmos que a décadas se alimentam do dinheiro público. Sua capacidade de envolver, mentir e entreter é incrível. Jornalistas formados apenas em comunicação se metem a besta (ou bestas) a falar de temas que mal a sua formação universitária teria tocado (a não ser que o curso fosse numa linha intelectual critica), e falam de tudo, economia, política, gestão, medicina, água, direitos humanos, etc., etc., são “poliglotas do conhecimento” “educando” os ignorantes expectadores.

Segundo, o governo Collor foi fabricado por uma serie de fatores que envolveu maquiar o estado de Alagoas, transformar um “playboy”, filho de coronéis e que nunca trabalhou na vida (como assalariado médio), num “caçador de marajás”, sua subida meteórica aliada ao apoio de agentes investigativos (os casos envolvendo a vida privada de Lula), e forte apelo das elites que enriqueceram na ditadura civil-militar,  sustentadas pela “nova” república comandada por Sarney se viam ameaçadas pelo “candidato zebra” Lula da Silva. A mesma elite que precisa dos seus representantes descarta facilmente, hoje ironizam Collor e Sarney que ontem garantiam as concessões de emissoras, financiamento público e privilégios, são tratados como “bandidos” pelos mesmos “amigos”. A direita é leal ao dinheiro, ao lucro e privilégios, pessoas são descartáveis.

Terceiro, mesmo que os governos do PT tenham sido um misto entre neoliberalismo e desenvolvimentismo, é inegável que as políticas sociais de transferência de renda somados a valorização do salário mínimo e surgimento de uma nova parcela para classe assalariada média de renda consumidora fez o país crescer economicamente.

Então porque a sensação de “corrupção, violência sem controle e alto custo de vida”? Nada mudou em termos de controle da ideologia, os efeitos do neoliberalismo nas políticas públicas, na educação, na saúde, enfim, todo processo que envolve o controle da sociedade, das relações sociais e alienação.
Desmontando brevemente um a um a corrupção está na raiz desta sociedade brasileira e intimamente ligada a uma elite que governa a parte do próprio Estado. De tempos em tempos cada força política usa a seu favor os instrumentos de controle da sociedade e a mídia é sempre a melhor forma, todo mundo fala de “manipulação de opinião” e ela tem certeza, pois reproduz todo dia essa opinião sem refletir ou pensar. Derrotar a cultura de corrupção é vencer as nossas próprias ganâncias e interesses particulares.

A violência sem controle também e grande manutenção dos picos de audiência são os mais engraçados, porque a mesma mídia que diz que estamos em uma “guerra civil” dos “cidadãos de bem contra os bandidos” é a mesma que passa programas de lugares, viagens e felicidade das festas nacionais. Você já viu alguma matéria na TV, rádio ou mídia virtual e impressa que repercutisse intensamente durante o carnaval? É o Brasil é seguro quando interessa.

E o alto custo de vida pode ser visto no aumento dos serviços no Brasil. Qual é família que se dirige ao mercado para aquelas intermináveis filas de compra para estoque como meio de sobreviver à inflação? E o acesso aos bens de consumo duráveis, quantos dias ou anos você deixou de ligar de um telefone público mesmo?

Podemos ter diferenças, inúmeras diferenças, mas uma coisa não se pode acusar o governo do PT, se você pertenceu a classe assalariada média e hoje aproveita os privilégios ou viu sua renda melhorar e ainda reclama parceiro você é muito oportunista.

Mas isso está na raiz da classe assalariada média, com o tempo não se reconhece como parte da classe trabalhadora e com o tempo abre mão de direitos e quer privilégios, o oportunismo se apega ao discurso mais fácil, “tudo é culpa do PT”.

Proponho, vá estudar historia (a formação sócia histórica do Brasil). Olhe para sua renda atual e sua trajetória de vida. Só essas comparações podem desmistificar um pouco do Brasil apresentado pela mídia e o real vivido.

Impedimento de Dilma é golpe! Golpe é um ato que causa ruptura com o legitimo. Legitimo é respeitar a democracia, mesmo limitada.

Impedimento de Dilma é golpe. Golpe porque a conjuntura de 1992 é diferente de agora 2015.

Impedimento de Dilma é golpe. Golpe é praticado por canalhas, gente pequena e uma massa de abobados que seguem o que a o porta voz das elites, a mídia, lhes diz.

Impedimento de Dilma é golpe. Golpe que não será tolerado pelos brasileiros e brasileiras que acreditam e querem uma democracia forte e não uma ditadura que vai governar da Fiesp ou de outra latrina subterrânea das elites.

Não estou dizendo que nada deve mudar. Estou dizendo que a mudança precisa ser do lado de cá. Lado que não viu uma vitória em termos de transformação da sociedade via reformas estruturais como reforma agrária, reforma urbana, reforma educacional popular, fortalecimento da Seguridade Social Pública, do sistema político, etc., apenas tivemos a abertura política lenta, gradual e restrita com uma redemocratização incompleta, uma constituição que não viu os direitos de cidadania efetivados no tempo necessário, fantasmas nos armários do Estado e fissuras como cicatrizes que não fecharam.

Para ser nação não basta ocupar as ruas.

Tem que transformar as relações sociais e políticas. E isso só interferindo no cotidiano, na vida diária e na cultura que cerca o povo.

A maioria da sociedade tem direito a cobrar o seu projeto, um projeto popular de país.


Ir as ruas é fácil, quero ver botar a mão na massa!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Plebiscito oficial para impedir contrarreforma política

Plebiscito oficial para impedir contrarreforma política

 Data da notícia: 05/02/2015
Em ato na Câmara, movimentos sociais cobram retomada de projeto para convocar uma Assembleia Constituinte sobre o sistema político. Enquanto isso, ala conservadora opera para eternizar financiamento empresarial de campanhas
Por Pedro Rafael Vilela - Comunicação Plebiscito Constituinte
 
Movimentos e organizações da sociedade civil realizaram ato na Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira (4), para retomar a luta por um novo sistema político no país. No plebiscito popular realizado em setembro de 2014, quase oito milhões de pessoas disseram sim à Constituinte Soberana e Exclusiva do Sistema Político. Em outubro, como desdobramento da campanha popular, um Projeto de Decreto Legislativo (PDL), assinado por 181 parlamentares, foi entregue ao Congresso Nacional e propõe um plebiscito oficial com a mesma e única pergunta da consulta popular: você é favor de uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o Sistema Político? O povo é quem deve ter a palavra e decidir qual a reforma necessária para reverter as distorções na representação política em nosso país causadas pelo atual sistema político. Entre elas, a baixa representatividade de mulheres, negros, indígenas e trabalhadores; em contraste com a forte presença do poder econômico e de interesses corporativos de grandes empresas.

"Hoje, há na Câmara uma correlação de forças desfavorável aos trabalhadores e ao povo que quer ver seus direitos garantidos e exercer a cidadania política de maneira plena”, destacou a deputada Luíza Erundina (PSB-SP), uma das autores do PDL, junto com o deputado Renato Simões (PT-SP). Erundina, Simões e outros parlamentares presentes ao ato rechaçaram a manobra do presidente Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que encaminhou, na terça-feira (3), a tramitação da PEC nº 352/13, que provoca ainda mais retrocessos no atual sistema político brasileiro.
 Contrareforma
 A PEC nº 352 foi o resultado de um grupo de trabalho criado em 2013 após as manifestações de junho. O relatório final da proposta, debatida apenas entre os parlamentares, é uma “contrarreforma política”, na avaliação dos movimentos sociais. A proposta não cria nenhum mecanismo para acabar com a sub-representação de mulheres, população negra, povos indígenas e outras minorias. Também não cria mecanismos de democracia direta.
 Além disso, a PEC pode aumentar ainda mais a influência do poder econômico nas eleições, pois legalizaria na Constituição a doação de recursos de campanha por empresas, algo que já foi rejeitado até pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Há dez meses, os ministros da mais alta corte de Justiça consideraram inconstitucional a doação de empresas em campanhas eleitorais, a partir de uma ação proposta pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). O julgamento está definido por 6 votos a 1, mas o ministro Gilmar Mendes pediu vista do processo e a decisão ainda não está valendo. Isso também explica a pressa dos deputados em mudarem a Constituição para permitir doação por empresas.
 “O Presidente da Casa [Eduardo Cunha], atendendo a compromissos de campanha, conseguiu a aprovação da admissibilidade de uma PEC que é uma anti-reforma política, uma contrarreforma política, que na prática vai impedir que o STF termine o que começou, que é impedir o financiamento privado de campanha”, apontou Alessandro Molon (PT-RJ).
 O deputado Renato Simões explicou que, apesar do avanço da agenda conservadora, os setores progressitas na Câmara conseguiram garantir que a comissão especial que vai ser criada para analisar a PEC, também vai analisar todos os projetos em tramitação que tratam da reforma política. “Vamos tratar o PDL em conjunto com a PEC 352 na Comissão Especial, com o mesmo peso. Quem participou do plebiscito escreveu uma página importante em suas vidas. Vamos transformar este episódio numa página da história com a realização do plebiscito oficial. Enquanto o financiamento privado durar, não vamos avançar. Nenhuma reforma será aprovada por um Congresso dominado pelo poder econômico”, avaliou.
 Pressão popular
 Para Maristela Matos, da secretaria operativa da campanha Plebiscito Constituinte, o momento é complicado e por isso exige maior participação social. “Tivemos votos para mostrar que a sociedade está mobilizada. Agora o enfrentamento é outros: é aqui no Congresso, que tem uma de suas composições mais conservadores. Temos uma tarefa de articular entidades e levar o debate para a sociedade, para conquistar corações e mentes. Constituinte já!”.
 O deputado Ivan Valente (PSOL-SP) vai na mesma linha. Ele chegou a citar o ano de 1997, quando 19 trabalhadores rurais sem-terra foram brutalmente assassinados em Eldorado dos Carajás (PA). “Dias depois, uma marcha de trabalhadores sem-terra veio a Brasília. No primeiro dia, os deputados se esconderam, fecharam o Congresso e o Palácio do Planalto. No dia seguinte, eles aprovaram duas leis para favorecer a política de reforma agrária no país. Temos que pensar numa governabilidade política que venha com pressão do povo. Vamos à mobilização e à luta política”, afirmou.
 O deputado Henrique Fontana (PT-RS) lembrou que a ala conservadora no Congresso Nacional está fechada na proposta de eternizar o financiamento empresarial das campanhas e reduzir os poucos mecanismos ainda existentes para diversificar o acesso ao poder. Ele rebateu a proposta do voto distrital e o fim do voto obrigatório. “O voto distrital levará ao fim do voto de opinião e pesquisas demonstram que nos países que aplicaram o voto facultativo, quem deixa de votar é sempre o povo mais pobre”. Ele conclamou os movimentos sociais a buscar unidade em torno das propostas populares em discussão. Além da campanha pelo plebiscito oficial, é preciso apoiar o Projeto de Lei de Iniciativa Popular da Reforma Política apoiado por entidades como a OAB, CNBB, UNE, MCCE, entre outros e a ação em julgamento no Supremo Tribunal Federal que torna inconstitucional a doação empresarial para campanhas eleitorais.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

Encaminho o artigo "PÁTRIA DE SEMIANALFABETOS? de Frei Betto"


Antes da sua leitura atenta, minhas considerações.

Frei Betto tem a autoridade moral para construir essa critica e claro utilizando um recurso de pesquisa muito importante que são os dados, ou seja, não apresenta uma opinião que ofende.

O que ele traz não se soluciona com verbas ou mais prédios escolares, apenas. Mas voltando ao texto de Florestan Fernandes (Em defesa da escola pública), uma das principais bandeiras do mestre e militante Florestan foi uma educação com bases em uma filosofia laica - promotora de reflexão, de busca pelo conhecimento, de confronto de ideias e principalmente aberta no sentido da descoberta, da critica necessária e do ensino sem amarras (sem a versão única e exclusiva dos "vencedores" do sistema).

A situação da educação tem origem clara: as reformas neoliberais da década de 1990. Durante o governo FHC isso foi levado as últimas consequências com uma LDB (Lei de Diretrizes de Base) que não representava a vontade popular (vamos lembrar que triste foi o fim e a postura do professor Darcy Ribeiro que senador a época enterrou a LDB discutida com a sociedade brasileira), e depois conduzida por um político que fora funcionário do Banco Mundial o (si) nistro da educação Paulo Renato (Privatizador) de Souza.

Nós no movimento estudantil na época já denunciávamos e um cartaz que distribuímos pelas escolas já traduzia esse triste presente que temos hoje, com a imagem de Chales Chaplin (Filme "Tempos modernos") ele com macacão de trabalhador da metalurgia sobre uma roda dentada e uma frase "Não queremos apenas apertar botões"demos o recado naquela década quanto o futuro que nos aguardava.

Duas décadas se foram e o efeito disso é sentido no que Frei Betto nos traz em seu artigo.

Dessa lição é importante dizer que quando denunciamos o impacto dessas reformas queremos dizer que o que é prometido hoje como a "melhor coisa" para nossas crianças e jovens pode não ser no futuro, melhor dizendo, você pode sentir a falta de comida, de material escolar, etc., isso é sentido por ser algo material.

Mas e quando nos retiram algo imaterial? Disciplinas, conhecimentos, ou seja, se reduzirem a carga horária ficamos com menos aula correto? Sim, mas registre se que é também MENOS CONHECIMENTO.

Um estudo feito pela USP na década de 1990 alguns anos após das reformas neoliberais na educação e tocadas a cabo em São Paulo mostrou, em pesquisa, de que a retirada de disciplinas como filosofia, sociologia e psicologia do currículo escolar limitava a capacidade de alunos vindos da escola pública poderem tirar boas notas em redação no mais concorrido vestibular do país que é a fuvest.

E aí, o que fazer? A educação é como a luta política, seus resultados só são sentidos ao longo dos anos e na construção dos processos que levam os projetos a serem desenvolvidos.

Como já disse um bom militante, "revolução não é como fazer bolo, apesar de precisar do fermento, seu processo precisa ser consistente ao máximo como um bom vinho que leva anos para adquirir sabor", na pressa há muita derrota, na construção diária, constante e dedicada há muito valor que está vivo até hoje  na voz da juventude que segue levantando a bandeira dos lutadores e lutadoras.

BOA LEITURA.



PÁTRIA DE SEMIANALFABETOS?

Frei Betto

Frei Mateus Rocha, frade dominicano e guru de uma geração indignada, nos aconselhava a levar sempre um livro, ainda que sob certeza de não haver tempo de abri-lo. Abracei a recomendação e me surpreendo com as inúmeras oportunidades, ao longo do dia, de prosseguir a leitura.

No meu tempo de ensino fundamental, redação tinha o belo nome de composição. Ainda hoje, ao escrever, me sinto “compondo”, imprimo ao texto uma musicalidade que os entendidos chamam de sotaque literário.

As novas tecnologias ameaçam o prazeroso ato de ler e escrever. Fissurados nas redes sociais, muitos reduzem a linguagem aos seus signos elementares e preferem ver o turbilhão de imagens a ler a cadência narrativa.

Ler e escrever exigem educação, aprendizado, amor à palavra lida e escrita, para que ela nos ofereça seus múltiplos significados e nos revele a beleza que encerra.

A presidente Dilma, ao ser reempossada, a 1º de janeiro, cunhou o lema: “Brasil, pátria educadora”. Prometeu que a educação, afinal, será prioridade de governo (embora já tenha sofrido um corte, este ano, de R$ 7 bilhões em seu orçamento).

Tomara que o governo ponha fim às escolas sucateadas, à má remuneração dos professores, à carência de tempo integral. As escolas públicas, excetuando universidades, fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Qual será o futuro de uma pátria cujos cidadãos e cidadãs não sabem escrever uma simples redação escolar?

Há pouco saiu o resultado do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) 2014. Prestaram exames 5,9 milhões de jovens brasileiros. (para disputar apenas 600 mil vagas nas universidades publicas e um milhão em universidades particulares).

O estudante aprovado no ENEM tem o direito de se inscrever para ocupar uma das 205.514 vagas oferecidas, em 2015, por 59 universidades federais; 38 institutos federais de educação, ciência e tecnologia; e dois centros federais de educação tecnológica.

Dos quase 6 milhões inscritos, 529.374 ganharam nota zero em redação, cujo tema proposto foi “Publicidade infantil”, questão em debate na sociedade, suscitada pelo Instituto Alana.

Entregaram a prova em branco 280.903 alunos. São os analfabetos funcionais, aqueles que não cultivam o hábito de leitura e, com certeza, redigem apenas monossílabos e símbolos gráficos nas redes sociais... Eles sabem ler mas não compreender o que leem.

Um total de 217,3 mil redigiram um texto alheio ao tema. Treze mil copiaram o texto motivador; 7,8 mil escreveram menos de sete linhas; 3,3 mil embutiram na redação trechos do texto motivador de forma desconectada; e 955 escreveram ofensas aos direitos humanos. E apenas 250 mereceram a nota mais alta!

Os que mereceram nota máxima em redação revelaram a razão do êxito: o hábito de leitura de livros e redação de textos. Hábito que começa na infância, quando pais e professores contam e leem histórias, ajudando a criança a desenvolver a síntese cognitiva.


Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia Escolar” (Ática), entre outros livros.

Plebiscito Constituinte: tem que ser oficial! Ato 4 de fevereiro – Congresso Nacional




Plebiscito Constituinte: tem que ser oficial!
Ato 4 de fevereiro – Congresso Nacional - Auditório Nereu Ramos
14 horas

No Plebiscito Popular, em setembro de 2014, quase oito milhões de brasileiros e brasileiras disseram SIM à Constituinte Soberana e Exclusiva do Sistema Político.


É hora de reforçar a luta e fazer valer a vontade popular!


Em outubro, um Decreto Legislativo, assinado por 181 parlamentares, foi entregue ao Congresso Nacional e propõe um Plebiscito Oficial com a mesma e única pergunta do Plebiscito Popular: Você é favor de uma Assembleia Nacional Constituinte Exclusiva e Soberana sobre o Sistema Político?


O povo é quem deve ter a palavra e decidir qual a reforma necessária para reverter as distorções na representação política em nosso país causadas pelo atual sistema político. O povo já disse: com esse Congresso não dá!


Neste ano de 2015, desde o início marcado pela luta dos trabalhadores e trabalhadoras, é imprescindível retomar a força de nossa campanha para conquistarmos a Constituinte e transformarmos o sistema político, destravando todas as mudanças profundas e necessárias em favor do povo brasileiro.



Portanto, para avançar na mobilização e conquistar o Plebiscito Oficial, convidamos todas as mais de 500 entidades, movimentos, sindicatos, pastorais sociais, partidos, organizações e mais de 100.000 ativistas que se engajaram no Plebiscito Popular, a participarem do ato no dia 4 de fevereiro, em apoio ao Decreto Legislativo, às 14h, no Auditório Nereu Ramos, no Congresso Nacional, em Brasília (DF).

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

É sexta feira, primeira reunião para organizar a CMP Guarulhos!

Compareça!

Este é o espaço dos lutadores (as), dos trabalhadores (as) que lutam por politicas publicas e direitos sociais, dos que querem defender direitos e lutar por uma vida em que todos e todas possam ter acesso as riquezas que nós mesmo produzimos.

Por uma outra política. Uma práxis verdadeira com coerência e princípios como diziam sobre o Che (Guevara), "fazia o que dizia e dizia o que fazia, era mais um, igual a todos e todas nós trabalhadores".

Não queremos ser mais e nem menos nesta sociedade.

Antes que levem a água toda. Antes que deem uma nova desculpa. Antes que digam que ninguém quer saber de nada. Sejamos nós o coletivo.

Sexta feira, o primeiro passo para fortalecer ainda mais as lutas!

"É coisa de grego", sim resistir é coisa de grego. E nós o que estamos fazendo?



fonte: http://cartamaior.com.br/?/Editorial/Na-Grecia-Levy-nao-leva-/32722
26/01/2015 00:00 - Copyleft

Na Grécia, Levy não leva


A Grécia fez tudo. E mais um pouco daquilo que os jornais brasileiros asseguram ser o caminho da redenção para a economia do país.

por: Saul Leblon 

Arquivo



A suposição sobre a qual tudo se apoia é conhecida.

A saber:  o governo toma as medidas econômicas   que os mercados e seus ventríloquos preconizam --algumas necessárias, como o reajuste dos combustíveis;  outras discutíveis -- o encarecimento do crédito, por exemplo,  em um quadro de desaquecimento da economia;  e não poucas indesejáveis --entre estas, sobressaem a alta dos juros,  mudanças em salvaguardas trabalhistas e o desmonte da função indutora do BNDES e demais bancos públicos no desenvolvimento do país.

Missão cumprida, o que deve ocorrer ao longo deste ano, avisam os otimistas,  os detentores do capital encerrariam a greve de investimentos em curso no Brasil.
Novos projetos e planos de expansão engavetados nos últimos dois anos voltariam à agenda dos negócios recolocando a economia na  rota de um novo eldorado de expansão puxado pelo desejável investimento privado.

Mais que isso: a inflação retrocederia, as exportações alçariam voo de cruzeiro, o déficit em contas correntes (de preocupantes 4% em 2014) despencaria; o Brasil, enfim, voltaria a ser um pujante  canteiros de obras, a jorrar empregos e salários por todos os poros.

A leveza com que essas ideias frequentam os prólogos e epílogos dos colunismo de mercado  é notável.

 Nesse mundo idílico, a confiança dos investidores  e a ‘reversão das expectativas pessimistas dos mercados’ só dependeria de o país adotar o  ‘bom senso’ na gestão fiscal e a  ‘racionalidade dos mercados’ na macroeconomia, predicados que, como se sabe não comparecem entre as qualidades atribuídas ao PT, aos ‘economistas da Unicamp’ e a ‘Dilma interventora’.

Por sorte, então, lançou-se mão do que há de melhor na praça.

Joaquim Levy,  la crème de la crème da cepa de zeladores de confiança do dinheiro grosso, assumiu o leme do barco.

Sem cerimônia, ele acena com um cavalo de pau. Garante que assim desviará a sociedade da rota de colisão com o rochedo dos desequilíbrios macroeconômicos para reconduzi-la ao porto seguro dos fundamentos sadios e austeros.

Tudo o mais permanece constante na vida dos nacionais?

Como não se pensou nisso antes: trocar a mediação de fato de Lula –entre o governo e sociedade--   pela austeridade de Levy?

Quanto tempo e dor de cabeça teriam nos poupado a troca da política conturbada e contraditória para a  formação de maiorias, pela matemática clara e afiada como um punhal da austeridade?

Eureka!?

Os gregos que o digam.

E o que eles disseram neste domingo nas urnas, de forma algo sonora e incontestável, é que a receita de arrocho vendida aqui como o atalho óbvio ao paraíso  na prática consiste em  um mergulho ao inferno com passagem de ida.

A de volta há que ser comprada das mãos do diabo.

Ou tomada à força. Como eles acabam de fazer neste domingo, sob a fuzilaria de ameaças e chantagens de um apocalipse financeiro.

Inútil.

Os  votos majoritários dados à esquerda, o Syriza, numa eleição histórica, alteram a correlação de forças na Europa e colocam a agenda neoliberal na defensiva ante o encorajamento de possíveis novas rupturas. Na Espanha em maio, por exemplo, com o Podemos.

Com 149 cadeiras obtidas no Congresso, um resultado superior aos cálculos mais otimistas, a esquerda grega passa a depender de apenas mais duas adesões para ter a maioria legislativa, necessária para as reformas e renegociações ansiadas pela população.

A crise terminal vivida pela Grécia –um país literalmente insolvente e preso a uma camisa de força cambial (o euro)--  nem de longe se equipara aos solavancos vividos pelo Brasil na atual transição de ciclo de crescimento.

Mas a tragédia protagonizada nos últimos seis anos funciona como uma espécie de endoscopia das consequências sociais e institucionais de se entregar aos mercados o comando e o destino de uma nação.

 Nesse aspecto o basta de domingo pode e deve ser lido com um olho na Europa e o outro no Brasil.

 A percolação da tragédia na pirâmide social grega escancarou os custos humanos e econômicos de se preservar a lógica da ganância financeira  como discutível  moeda de troca  para  ‘resgatar a confiança dos mercados e dos investidores’.

A promessa, que durante seis anos escalpelou cada fio de cabelo do povo grego, ao mesmo  tempo em que se exigia que ele se reerguesse puxando o que restou com as próprias mãos, não foi entregue a tempo de se evitar a rejeição eleitoral do domingo.

O que se deu, ao contrário, foi uma odisseia às profundezas do arrocho mais dramático já enfrentado por um povo desde o início do século XX –superior à Grande Depressão norte-americana de 1929.

 O ponto a reter é que a vida da população não apenas não melhorou, como se alardeava em defesa dos ‘sacrifícios’.

Ela foi capturada por um liquidificador desgovernado que interditou qualquer traço de segurança social, desidratou qualquer gota de certeza em relação ao amanhã e interditou a esperança no futuro.

Nos últimos seis anos, o PIB da Grécia  retrocedeu 25%; o desemprego saltou de 8,3% --no início do programa de austeridade-- para 27%  (é de 50% entre a juventude); a dívida mantem-se em assustadores 170%  do PIB (€ 322 bilhões).

 Renegociar um  desconto de 50% é o chão firme defendido pelo vencedor das eleições deste domingo para, a partir daí, deslocar a Grécia do atoleiro para um retorno gradual à viabilidade econômica e social.

Trata-se, é preciso dizer, de uma ruptura.

Há seis anos  a prioridade de Atenas é adequar o país aos 'programas de ajuste' traduzidos em sucessivos cortes orçamentários.

No interior do metabolismo social deu-se o previsível.

Mas há detalhes que ainda desconcertam: o orçamento da educação, por exemplo, sofreu um corte de 60% nessa razia.

 Em miúdos: a rede pública de ensino dispõe atualmente de quatro de cada dez euros que recebia em 2010.

Não há como preservar o essencial quando 60% do alicerce desaba.

Inclua-se no essencial a merenda.

Das periferias mais pobres surgiram nos últimos anos  relatos de desfalecimentos em sala de aula.

Fraqueza.

Não só a infância foi convocada a pagar em libras de carne aos banqueiros da Alemanha e assemelhados.

Aposentados foram 'convidados' a viver com pensões entre 20% a 30% menores.

O salário mínimo foi cortado em 20%.

Todo o país foi estripado nessa proporção: entre 20% a 25% das vísceras.

Macrodados não conseguem traduzir o que se passa na agonia da vida de uma família quando o facão do arrocho corta a carne com esse talho e essa regularidade.

  A camada de gelo mais fina trinca a olhos vistos. Mas é o lago todo que se revolve por baixo em correntes devastadoras.

Governada de forma irresponsável, diga-se, por sucessivos gabinetes antes da crise mundial, a Grécia foi a primeira economia da Zona Euro a ser excluída dos mercados financeiros quando a bolha do crédito fácil estourou.

A partir daí passou a depender dos programas de ‘ajuda’  para respirar.

A lambança precedente sugeria certa legitimidade a um ciclo de maior controle e sacrifícios.

Assim se fez.

Assim se desfez a ilusão na ‘racionalidade’ dos mercados para substituir a ‘sujeira’ da política.

A negociação com a sociedade foi substituída pelos ‘pronunciamentos’ e metas da troika, que durante seis anos fizeram gato e sapato da sociedade e da economia, com implicações iguais ou piores que as distorções que prometiam corrigir .

Vencida a paciência dos gregos, o que se tem depois de tudo é uma economia colapsada, um país desacreditado e uma população disposta  a correr todos os riscos para se livrar do lacto purga interminável e devastador.

Essa talvez seja a maior lição das eleições deste domingo: trata-se do grito de alerta emitido por um povo que passou pelo inferno dos ajustes ‘racionais’.

E  justamente por isso decidiu devolver à negociação política a construção do passo seguinte de sua história.

O protagonista que recebe esse mandato não é um partido qualquer.

E nisso também  há algo a se extrair como lição à esquerda brasileira nos dias que correm.

O Syriza não é um partido, mas uma frente de organizações.

Surgiu em 2004 depois de um intenso processo de diálogo iniciado em 2001 entre múltiplas correntes progressistas, incluindo-se de socialistas  a eurocomunistas, passando por ecologistas, maoístas e trotskistas.

Hoje  é composto por doze organizações.

Sua solidez política e consistência programático levou-o a se tornar  um polo de convergência de centenas de personalidades independentes, entre elas lideranças que se afastaram do PASOK (Partido Socialista) e do partido comunista grego.

 A posição firme e ao mesmo tempo serena da coligação na luta contra o arrocho alargou  sua base de apoio nas ruas e entre a juventude, com adesões maciças entre os Indignados da Praça Syntagma.

A seguir, alguns números que mostram por que,  na Grécia, um Levy não leva mais o povo na conversa:


PIB – a recuperação prometida cedeu lugar a uma contração de 25% da economia entre 2009 e 2013. O desgoverno que era um pesadelo virou um inferno, sob o açoite do arrocho.

Emprego--  mais de um quarto da população ativa do país ficou sem emprego. Antes do ciclo de arrocho a taxa era da ordem de 8%. Entre os jovens, até 35 anos, saltou para 50%, sem perspectiva de se reverter com a manutenção das políticas de ajuste.

Investimento –  a prometida redenção pela retomada do investimento privado revelou-se uma fraude. Admite-se que os níveis pré-crise estavam inflados por conta de gastos públicos irreais  e endividamento privado. Mas o que sobreveio foi o desmoronamento completo desse motor. Asfixiado pela contração da demanda, da renda e do orçamento do Estado, o investimento caiu de 26% do PIB, em 2007, para cerca da metade agora, 13% --o valor mais baixo de toda a zona do euro.

População e vagas -- como se vivesse uma guerra, a Grécia viu sua população diminuir nos últimos anos, assim como o seu estoque de empregos. Desde 2009, 150 mil pessoas deixaram o país (1,3% da população) e 850 mil vagas de trabalho foram destruídas (18% do total).

Inflação --A inflação que era de 4% em 2007 caiu para menos 2% nos últimos dois anos. Nada a  comemorar: a deflação reflete o arrocho salarial implacável, cujo objetivo é baratear o ‘custo Grécia’ para dar à economia algum poder de competição nas exportações à Europa. Com o colapso econômico de toda a zona do euro, marcada por recessão e deflação, o sacrifício grego, ademais, mostrou-se inútil.

Dívida --  A Grécia protagonizou a maior reestruturação de dívida pública da história, em 2012. Mas o seu peso continua asfixiante em relação a um PIB que se contraiu 25%. A dívida continua a esgoelar a sociedade, situando-se acima de 170% do PIB. É impagável. E é justamente essa certeza que fez a população votar no Syriza que defende um corte de 50% no saldo. Antonio Samaras, o líder do derrotado Nova Democracia, ao contrário, considerava esse enforcador ‘sustentavel’.

 Déficit público – Há aqui uma síntese das razões que levaram o eleitor grego a dizer ‘basta’ nas urnas deste domingo:  apesar da queda de 25% do PIB nos últimos seis anos, a política de arrocho do Estado grego ainda conseguiu reduzir em mais 10% o gasto fiscal. Não só: simultaneamente, elevou  a receita de 40% para 45%  do PIB, desde 2009. Arrocho por todos os lados e tributação por todos os poros: foi assim que se conseguiu derrubar o déficit público, da ordem de 15% em 2009, para algo como 3% no ano passado.

O colunismo brasileiro abestalhado de tanta ortodoxia aplaudiria de pé.
Mas exatamente por isso terá dificuldades para explicar aos seus leitores por que os gregos rejeitaram, com tanta ênfase e risco, um êxito tão graúdo que aqui se vende como a redenção da lavoura.