quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Como democratizar a leitura?

 

 







Como democratizar a leitura?

05/06/2022


 


Por LINCOLN SECCO*


Só o socialismo poderá semear livros a mancheia e manter as pessoas que trabalham na sua cadeia produtiva


No Brasil avança o debate sobre a proposta de uma lei do preço fixo do livro (ou Lei José Xavier Cortez), cuja relatoria é do senador Jean Paul Prates (PT/RN). Inspirada na Lei Lang da França, a lei obrigaria todas as livrarias a limitar no máximo a 10% o desconto em uma publicação durante o primeiro ano após o seu lançamento. Com isso, o pequeno comércio livreiro estaria protegido de grupos poderosos como a Amazon.


Marisa Midori Deaecto, nossa maior especialista em história do livro e professora dessa matéria na USP, defende a proposta de lei. Ao conhecer essa sua nova frente de luta, lembrei do nosso velho professor Edgard Carone, bibliófilo e colecionador de livros socialistas e rascunhei algumas notas sobre uma realidade quase desaparecida: as políticas de fomento ao livro nos países socialistas.


Os ciclos do livro no antigo bloco socialista acompanharam as vicissitudes da história do partido comunista. A Revolução Russa entronizou o livro como o principal veículo do agitprop (agitação e propaganda). Vladimir I. Lênin, que era um cultuador dos livros a ponto de se irritar com edições mal-cuidadas, preocupou-se em garantir orçamento para bibliotecas e editoras. Aliás, todos os principais líderes bolcheviques devoravam livros e tentavam se impor nos debates com recurso à erudição. Nikolai Bukharin era um intelectual nato. Grigori Zinoviev escreveu uma História do partido bolchevique. Léon Trotsky provavelmente era o mais talentoso deles e teve que levar ao exílio caixas enormes de livros e documentos. Josef Stalin manteve uma ampla biblioteca pessoal com centenas de livros anotados.


 


Livros e agitprop

A propaganda consiste na formação política dos quadros que atuam permanentemente no partido ou nas organizações por ele influenciadas. A agitação visa atingir as massas em comícios, passeatas, greves, protestos, confrontos etc.


Resumindo, para Lênin a agitação vulgariza poucas ideias para muita gente e a propaganda difunde muitas ideias para um número menor de militantes.[i] O agitprop não é uma soma de tarefas fixas rigidamente separadas, mas um conjunto de processos e relações entre pessoas. O objetivo é transformar cada vez mais membros das massas em quadros e alterar qualitativamente a relação entre dirigidos e dirigentes.


A agitação recorre a cartazes, volantes, panfletos, jornais etc. A propaganda utiliza cursos, debates teóricos e livros. Essa é uma distinção analítica, porque na prática jornais podem trazer capítulos de livros, debates teóricos e opúsculos; palestras podem servir à agitação.[ii]


O que nos importa aqui é que o livro tem uma função nuclear nessas atividades. Com a existência de um poder socialista, seu papel se faz muito mais importante em provocar a passagem da quantidade à qualidade, pois milhões de pessoas passam a ter acesso à teoria.


No período stalinista o conteúdo das edições tornou-se controlado. Em 1931 foi fundada a Editorial Progresso de Moscou. Por seu turno, a desestalinização refletiu-se em diversas reformas que afetaram a leitura. O período Kruschev foi o da expansão da moradia urbana familiar, quando as pessoas conquistaram sua cozinha privativa. Isso fez com que se pudesse ser mais crítico e independente na vida privada. E também discutir obras semi proibidas, como a literatura manuscrita ou de mimeógrafo chamada de samizdat.


O filme Eu tenho 20 anos, dirigido por Marlen Khutsiev em 1964, mostra uma vida cultural em Moscou muito ativa e centrada no livro. Há pilhas de obras literárias num apartamento, bancas de livros usados, leitura pública de poemas etc. Por mais que houvesse a intenção de propaganda era significativo que o filme desse relevo ao livro.


Essa realidade levou o historiador francês Serge Wolikow a notar uma contradição entre a democratização da leitura e o controle autoritário sobre o seu conteúdo,[iii] portanto entre a quantidade e a qualidade. Contudo, o bloco socialista nunca foi uniforme. Na Iugoslávia, após o rompimento com a URSS em 1948, o modo de produção e distribuição do livro foi descentralizado e o sistema de preços de mercado introduzido. Além disso, diminuiu a censura.[iv]


 


Distribuição

Em geral, todos os países socialistas tinham uma política para o livro. Na Alemanha Democrática, um decreto de 1973 determinou que as empresas deveriam ter uma biblioteca, com um bibliotecário. Fábricas deveriam manter uma relação proporcional entre número de trabalhadores e de livros. As maiores deveriam ter 30.000 exemplares. Durante a existência do país, o número de livros impressos a cada ano mais que triplicou[v] e incrementou-se a proporção daqueles que eram ficção.


Nos anos 1980, quando eu descobri as edições soviéticas em línguas estrangeiras, o socialismo se me apresentava basicamente como um mundo de livros. O papel que a teoria desempenhava entre os comunistas exigia muita leitura. Era natural que a ideologia soviética se difundisse especialmente por meio de impressos, já que se tratava de uma propaganda concentrada e dirigida pelo Estado.


Em São Paulo eu frequentava, salvo engano, na Rua Barão de Itapetininga, a Livraria Tecno-Científica que importava livros da citada Editorial Progresso, além de vender assinaturas de revistas soviéticas a preços módicos.


A Editorial Progresso de Moscou só se tornou conhecida mundialmente a partir de 1963, quando assumiu o papel de casa publicadora de livros soviéticos em línguas estrangeiras. Naquele ano, a URSS reorganizou sua indústria editorial e a submeteu ao controle geral do Comitê Editorial do Estado, ligado ao Conselho de Ministros. Em última instância, o livro era um assunto da cúpula do poder.


Um efeito importante das Edições em Línguas Estrangeiras de Moscou foi a mudança qualitativa das traduções de Lênin ao português. Segundo a inovadora pesquisa de Fabiana Lontra, todas as traduções brasileiras de Lênin foram feitas, principalmente, a partir do francês e espanhol e nenhuma do original russo. É possível que Otávio Brandão tenha traduzido artigos de Lênin diretamente do russo quando viveu na União Soviética. Mas não há nenhum livro de Lênin oficialmente traduzido por ele.


Em 1964 o editor Enio Silveira pretendeu lançar as Obras Escolhidas traduzidas por Alvaro Vieira Pinto a partir do original russo, mas a ditadura destruiu os manuscritos da tradução. É possível que a decisão tivesse ou buscasse apoio em Moscou?


As edições em Línguas Estrangeiras permitiram que Lenin fosse traduzido diretamente ao português de Portugal após a Revolução dos Cravos, graças à sociedade entre Avante! (editora do Partido Comunista Português) e Progresso. Os textos foram reproduzidos, depois de adaptação, por editoras brasileiras.[vi]


No aspecto quantitativo, os países socialistas deram um salto na oferta de bens culturais. Entre 1957 e 1961 a exportação anual média de livros da URSS foi de 35 milhões de exemplares,[vii] embora haja controvérsias estatísticas derivadas da definição do tamanho de um livro e da junção de livros e outros impressos (panfletos) na contagem[viii]. Também era o país que mais traduzia títulos de outras línguas.


Em títulos por milhão de habitantes (entre 1955 e 1971) a União Soviética saltou de 140 a 175 e os Estados Unidos de 66 a 278.[ix] A tiragem média na União Soviética em 1965 foi de 16.811. Entre os países que lideravam o mundo neste quesito estavam Alemanha Democrática (17.900), Hungria (11.300), Polônia (10.800), Bulgária (10.600), Chile (8.000), Iugoslávia (7.500) e Tchecoslováquia (7.300). Os países nórdicos lideravam a produção de títulos per capita.[x]


 


Depois da Queda

A autodissolução da URSS não foi apenas uma catástrofe geopolítica, para citar o controverso presidente Vladimir Putin. Ela reduziu o nível cultural das nações que surgiram em seu lugar. A Editorial Progresso continuou existindo, sem apoio para difundir obras russas no exterior.


Qual o papel de uma editora socialista depois da queda de um bloco de países que supostamente representavam o futuro? Além disso, surgiu o desafio da Revolução Informática e, naturalmente, da internet. A digitalização ampliou o acesso aos textos, mas não eliminou o mercado de livros impressos. Consultamos livros e também telas de computadores de acordo com a finalidade da leitura e do preço das obras. Isso recoloca a questão dos custos, direitos autorais e lucro.


Nenhum militante de esquerda exige que advogados prestem consultoria a sindicatos e não cobrem. Que um criador de conteúdo marxista para uma plataforma de compartilhamento de vídeos não ganhe por isso. Apenas no mundo dos livros de esquerda há a cobrança por gratuidade e o desrespeito aos direitos autorais é comparado à quebra de uma patente de uma grande empresa farmacêutica.


Por outro lado, na prática dificilmente o texto digital pirateado substitui o impresso. A editora Lawrence and Wishart foi fundada em 1936 para difundir a literatura comunista na Inglaterra. Com o fim do bloco socialista e do próprio Partido Comunista da Grã-Bretanha, a editora entrou em crise. Em 2014 ela resolveu revogar a permissão para que o site Marxists Internet Archive mantivesse no ar a Marx/Engels Collected Works (MECW). Trata-se de sua principal coleção, editada entre 1975 e 2004 em 50 volumes. A justificativa é que a editora fecharia se não pudesse vender ela mesma as cópias impressas e, futuramente, digitais.


Decerto, muita gente perdeu o acesso a uma citação fácil e rápida de textos de Marx. Por outro, sem o esforço editorial, o trabalho de tradutores e o investimento financeiro, jamais teria existido a coleção. Como chegar a uma solução para esse dilema?


Trabalho coletivo e voluntário de tradução em rede é um primeiro passo, embora sujeito a muitos problemas. Exigir do Estado o investimento em bibliotecas públicas é outro. Solicitar que os partidos de esquerda mantenham editoras com obras impressas também. Mas como em todos os outros problemas da sociedade capitalista, só o socialismo poderá semear livros a mancheia e manter as pessoas que trabalham na sua cadeia produtiva.


*Lincoln Secco é professor do Departamento de História da USP. Autor, entre outros livros, de Caio Prado Júnior: o sentido da revolução (Boitempo).


 


Notas


[i] Conceição, Fabiana Zogbi Lontra. As Obras de Lênin no Brasil (1920-1964): em busca de uma história da tradução. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: Ufrgs, 2022.


[ii]Deixemos de lado a tradução desses conceitos para a esfera virtual, mas lives e textos em tela podem se situar numa zona intermediária entre agitação e propaganda, talvez servindo como passagem de uma a outra, ou seja, da divulgação à leitura de livros.


[iii]Woliwow, S. “História do livro e da edição no mundo comunista europeu”, in Deaecto, Marisa e Mollier, Jean-Yves. Edição e Revolução. São Paulo: Ateliê, 2013, p. 324.


[iv]Booher, Edward. “Publishing in the USSR and Yugoslavia”, The Annals of the American Academy of Political and Social Science, Sep., 1975, Vol. 421, Perspectives on Publishing (Sep., 1975), pp. 118-129.


[v]Um Estudo Internacional de Alfabetização em Leitura, na época da queda do Muro descobriu que “a compreensão média de leitura dos alunos da oitava série da Alemanha Oriental era significativamente maior do que na Alemanha Ocidental”. Oltermann, Philip. “Red poets’ society: the secret history of the Stasi’s book club for spies”, The Guardian, 5 Fevereiro de 2022.


[vi] Conceição, Fabiana Zogbi Lontra. As Obras de Lênin no Brasil (1920-1964): em busca de uma história da tradução. Dissertação de Mestrado. Porto Alegre: Ufrgs, 2022.


[vii]Escarpit, Robert. La Revolution du livre. Paris: Unesco, 1969.


[viii]Enoch, Kurt. e Frase, Robert. W. “Book distribution in the USSR”, ALA Bulletin, v. 57, N. 6, Chicago, junho de 1963


[ix]Unesco, Statiscal yearbook, 1972. Paris: Unesco, 1973.


[x]Book publishing in the USSR, New York, American Book Publishing, 1963.


 




 


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Como democratizar a leitura? - A TERRA É REDONDA

Por LINCOLN SECCO Só o socialismo poderá semear livros a mancheia e manter as pessoas que trabalham na sua cadei...


 


 


 



sábado, 14 de fevereiro de 2026

Para nós comunistas as armas representam defesa, combate e distração, nunca forma de governo!

 



É típico da ideologia burguesa atribuir a esquerda o uso do recurso da violência e o levante armado para "impor" suas ideias. Esse discurso fantasioso e mentiroso não leva em consideração que a própria burguesia além do controle pela força do monopólio da violência pelo Estado a partir das forças armadas e policiais, além dos recursos adicionais quando sente seu poder ou hegemonia em risco. Importante dizer que o crime organizado ou não é mais funcional a própria burguesia, pois, esses grupos não tem consciência de classe, mas busca pertencimenti material pelos valores da classe dominante, sabe que não alçara o reconhecimento social, mas busca o poder pelo dinheiro, as vezes, como a máfia compra sua posição social, e no final a busca destes grupos é apenas a ostentação. É um exército de mercenários (Sun Tzu) do qual fazem parte ex-militares ou até da ativa via corrupção.

E nós comunistas? Recorremos as armas como instrumento e um meio para os fins, seu uso se faz necessário para enfrentar estas forças citadas, em geral o exercito do povo é aquele cujo pertencimento não é para coerção, mas defesa popular e em última instância e com condições para uma insurgencia e até revolução.

Existem experiências diversas e a própria ideologia comunista na luta pela hegemonia dos explorados contra os exploradores, citemos a do Partido dos Panteras Negras (Black Panther Party), que na metade da década de 1960 se organizam para enfrentar a opressão racial estatal praticada pela polícia contra a população negra estadunidense. Mas as armas foram apenas uma medida de autodefesa, utilizando o dispositivo constitucional, reivindicado pelos grupos de direita fascista dos EUA, a interpretação da militância foi que se o uso das armas contra o invasor britânico é legítimo, interpretada como "armas = liberdade", o Partido dos Panteras Negras assumiram para si esta interpretação, porém, também para apoiar suas ações sociais como creches, escolas, centros de alimentação popular, cultural entre tantas, em apoio a maior autonomia e desenvolvimento das populações negras segregadas. 

Também depois de mais de uma década de reformas neoliberais, em 1994, após um longo processo de diálogo, integração, estudo e construções coletivas a união entre uma parte da esquerda mexicana e os povos indígenas, o levante de Chiapas no sul do México foi uma resposta inclusive à uma esquerda que estava depositando todas as suas fichas na democracia liberal burguesa, baixando as armas e preferindo as lutas domesticadas. A resposta do EZLN, Exército Zapatista de Libertação Nacional foi direta, resistir pela paz sim, mas enquanto o opressor usar a força, não haverão armas abaixadas, muito menos entregues, pois, o EZLN precisa manter seus territórios autônomos e isso só é possível com uma força militar popular e não institucional.

E em nosso tempo? Isso é possível? Possível não,  necessário. O fascismo que surge e se impõe parece que entendeu essa posição da esquerda, usando de artifícios pseudoteoricos, típico do nazi-fascismo, dialogar com o senso comum, usam o discurso da "guerra cultural" da esquerda contra os "valores da sociedade burguesa", e ainda com uma parte das esquerdas acomodadas e parte utilizando do mesmo método de corrupção da direita para seus fins particulares, isso alimenta ainda essa direita fascista 2.0 para carimbar a esquerda pelos problemas que a própria burguesia construiu e ainda constrói, já que a esquerda governa o estado, mas a direita controla a hegemonia das relações sociais.

O Chavismo provou que sem construir resistências militares não tem realização nos demais campos da economia, dos direitos sociais, culturais e outras conquistas redistributivas, pois além da tentativa de golpe contra Chavez,  inúmeras tentativas de sabotagem ao sistema energético, de distribuição de combustíveis e outras tentativas de pane para criar crise social são sabotagens possíveis e que acontecem. Salvador Alende e seu governo popular é a maior expressão histórica desse tipo de sabotagem adotado pelo governo dos EUA, que financiou em conjunto com o empresariado chileno a famosa "greve" dos caminhoneiros, um lockout que buscou desabastecer as principais cidades. 

Hoje, desde o governo fascista de Kennedy quando instaurou o bloqueio econômico contra Cuba passando pela "primavera Árabe" e as ações articuladas com o govenro sionista-nazi fascista de Israel tem atuado em diversas operações de sabotagem desde o massacre dos dirigentes do Hezbola com paigers-bomba e a crise iraniana, essas guerras híbridas tem sido a nova forma de sabotagem do imperialismo estadunidense.

Talvez o momento exige retomar o método! Nas fracassadas democracias liberais como a nossa criar grupos organizados na tese da defesa contra a violência fascista, machista, racista e homofóbica, grupos de tiro esportivo para defesa dos territórios e comunidades ameaçadas. Apoio incondicional não as propostas de armamento da direita fascista, mas criar empates, como se os feminicidas agem impunemente, que se garanta porte de arma especial para mulheres, principalmente as ameaçadas com medidas protetivas, com centros de treinamento e de autodefesa. Se a posição é não mudar a cultura da formação dos homens, então que a defesa seja a reação. Grupos populares de defesa dos nossos representantes políticos e de defesa dos nossos espaços e comunidades. Em alguns casos sob o lema, "nem polícia, nem bandido, aqui a segurança é pela força popular".

Há resistências pelo mundo afora. Em armas para se defender da violência sionista, para garantir direito ao seu território como no caso do povo Curdo, em defesa dos povos e territórios autônomos no caso do EZLN, na proteção de sua soberania pelas forças de defesa bolivianas e pelo povo cubano, o ELN na Colômbia, uma vez que os grupos paramilitares da direita fascista não baixou suas armas, no retorno de grupos como os Panteras Negras ou de esquerda de autodefesa nos EUA. 

As armas não são um fim em si mesmo. Para nós comunistas uma reação em um mundo que dominado pela hegemonia do capital, não está satisfeita apenas em explorar, mas em oprimir de forma desumana a humanidade exige resposta, as armas camaradas! 

A história exige dignidade, proteger a dignidade humana nesse momento não será com bandeira branca. Bandeira branca é sinal de rendição e não de paz nesse momento da humanidade. 






sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O lulismo é uma doença política que vai corroer a esquerda brasileira.

 


Antes de tudo, quero declarar que entre  Lula e a direita, seja ela qual for, sigo com a responsabilidade de criar trincheiras, mesmo que imperfeitas como votar em Lula. Segundo, antes de algum fanático falar merda, eu tenho uma vida no PT, com uma trajetória que alguns "novos" militantes nunca vão conseguir ter como tarefa. 

A crise do Rio Tapajos foi criada pelo próprio governo, desde a COP 20, via Boulos (triste situação que ele escolheu) que prometeu que o governo não decidiria nada sem consultar os povos originários,  por exemplo, mas aí venho o susto com a manutenção do decreto 12.600/2025, gesto para Alcolumbre em reciprocidade pela indicação de Messias ao STF. Nada foi feito, o.decreto está vigente e a privatização do Rio Tapajos implica em mudanças estruturais e riscos aos povos que lá habitam e vivem sua realidade. 

Recentemente a Petrobras paralisou a extração de petróleo da bacia amazônica, ironicamente como denunciado por todos/as/es nós. 

No centro disso um governo que gosta de muitos gestos para esquerda, adora fazer gestos, adora palcos e mais palcos, recentemente fez mais um com o Plano Nacional de combate ao feminicidio. Vai as feiras do MST, caminha pelas ruas e vielas cheias de simbolismo, mas mudanças estruturais que é bom, isso é apenas com as lutas e uns poucos no congresso.

Medidas tomadas são as que atendem ao centrão da base, o agronegócio que golpeou Dilma em 2016, apoiou o fascista Bolsonaro em 2018, financiou o.golpe fracassado de 2023 também ganha boas ajudas, enfim, gestos para quem se sacrifica nas lutas e realizações para quem trai o povo brasileiro.

Não adianta o governo ter abarcado a pauta do 6x1 quando manda Edinho Silva, presidente do PT lavar as mãos e arriar as calças diante de empresários. Se  espera que o maior partido de esquerda, base de um govenro que até nas redes sociais defende o fim da escala 6x1 faça isso como pauta prioritária,  mas prefere o estelionato político, dirigentes protegem o governo, enquanto uma massa militante segue rangendo os dentes pela pauta, arriscando os pescoços e até a vida nesses tempos de fascismo pró ativo.

Voltando ao problema do mito, o nosso mito do lado de cá,  me deparei com a postagem do "Capetinha" no Instagram, e como sempre nenhuma crítica pode ser feita, parece um "crime". E os abobados que pertencem ao lulismo parece que vão felizes pular Carnaval como se nada estivesse acontecendo no Brasil e no mundo. Essa micro classe média que se reivindica de esquerda pouco estuda, gosta de instagramar com personalidades, faz discursos meia boca com frases feitas, se indigna sem pregar um prego na parede, enfim, quer ser importante, quer aparecer, quer poder, mas não quer fazer lutabde classes, de fato.

Se agarraram numa personalidade cegamente, nem são capazes de ouvir o que seu próprio líder fala quando, mesmo da boca pra fora diz que seu governo precisa ser criticado, Lula diz isso, mas não quer realmente. 

A contratação de Datena pela bagatela de 1,4 milhão na TV Brasil é quase um atestado de derrota do governo nas redes. Poderia ter criado uma rede com os vários influenciadores que tomou café no primeiro ano de governo. 

Ou seja, tudo parece que está bem. Pesquisas, economia, narrativas...parece que está bem, porém o fascismo não dorme, cria fatos e segue emparedando o governo e a esquerda.

Esse fanatismo que diz que qualquer voz de esquerda que critica o governo é "aliado da direita" encerra qualquer debate. Esse tipo de indivíduo não é militante de esquerda,  é apenas um fanático que na primeira oportunidade, necessidade ou susto vai com a mesma direita que acusa as pessoas com senso crítico e disposição para luta.

Desejo que Lula seja reeleito, pois, de fato construímos uma codependencia e não construímos outras alternativas possíveis,  seja de nomes ou método. 

Mas um.alerta: depois que Lula subir a rampa do Palácio em 2027, parte do PT entrará numa guerra fraticida, não haverá paz entre nós e nosso prazo no governo federal estará datada; dezembro de 2030. Com um cenário que pode ser dos piores,  com uma direita fortalecida nos Estados. 

Alertas são apenas gatilhos e formas de refletir e definir rumos. Não desejo meu pais na mão do fascismo neoliberal, porém,  não sou nada, apenas um militante com quilometragem, nada.mais. Numa luta, sou mais uma soldado. Só não sou vaca de presépio.



quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

A impaciência dos jovens é incompatível com a letargia da esquerda

 


Deu na mídia nessa segunda semana de fevereiro de 2026, "polícia civil de SP prende suspeitos de planejar atentado na Paulista. Grupo se organizava pelas redes e ensinava a usar explosivos caseiros" (Agência Brasil, 07/02/26) dentre os materiais do "grupo" tinha uma bandeira do personagem de One Peace, que tem sido utilizado pela chamada geração Z e marcaram presença nos atos no Nepal ano passado, outra coisa que chama atenção são as idades, em geral jovens. 

São inúmeras dúvidas que rondam as motivações, porém a subjetividade não pode ser desprezada, pois o que se vê no discurso desse "grupo" é a narrativa anti corrupção, ruptura com a atual forma como a vida existe, causar o caos para gerar o "novo". Se observarmos os discursos da nossa esquerda essas lutas e ruptura com o modelo capitalista de vida e relações sociais é quase similar. 


Mas um alerta! Antes que meus camaradas e companheiros comecem com suas pseudoanalises sobre "infiltrados" ou grupos para "desmerecer a esquerda", vamos lembrar que os ideais da esquerda do século XX está ligado efetivamente a tomada do poder. 

A revolução russa, as lutas anticoloniais, as revoluções na Ásia, a resistência vietnamita, a revolução cubana, os levantes sandinistas e em toda América Central e do Sul, enfim, Che Guevara virava o ícone de uma geração e as organizações armadas para resistir contra a opressão seguia em várias frentes onde a década de 1960 e 1970 erradiou por gerações, onde o rifle russo AK-47 era a arma dos insurgentes. A narrativa de enfrentamento seguiu até meados da década de 1980, estagnada pela queda do muro de Berlim e fim da URSS (União Soviética) as esquerdas preferem uma dupla narrativa: derrotar o sistema capitalista e suas opressões ao mesmo tempo que abraçava a democracia liberal como sua. 

A ordem na esquerda era baixar as armas e resistir no campo da democracia liberal, até que as medidas neoliberais vieram para emplodir o Estado de Bem Estar Social, retirada de direitos trabalhistas e da Seguridade Social, repressão aos movimentos sindical e popular e a pilhagem das riquezas nacionais formaram um momento de total recuo da nossa esquerda. 


O levante zapatista de 1994 em Chiapas no México, retoma o imaginário da resistência, bem como as lutas do Movimento Sem Terra no Brasil, e o governo Hugo Chavez e a tentativa de golpe em abril de 2002 na Venezuela restabelecem a ideia de que a resistência não passa pela via pacífica, já que os interesses do capital são preservados com extrema violência.

Nesse contexto, voltamos a pergunta: o que inquieta os jovens e que os afasta da esquerda?

Sinais não faltam, falta coragem! Se há um momento da história podemos voltar no ataque as Torres Gêmeas em Nova York nos EUA, na forma radical da resistência antisistema poucos grupos no início do século XXI expressavam esse modelo como alguns grupos que reivindicam a religião islâmica, as Curdas na região da Siria, o exercito marxista na Indonesia, a FARC na Colômbia e o Exército Zapatista de Libertação Nacional no México, entre outros, mas sem a mesma influência que exercia na esquerda nas décadas de 1960/70.


E essa influência no Brasil? A esquerda brasileira estava empenhada na sua resistência pacífica ao sistema nas décadas de 1980/90 e primeira década de 2000, eu mesmo sou parte dessa geração, alimentada pelo imaginário Guevarista paralelo às lutas sociais e eleitorais. Vitórias eleitorais inclusive eram as mais empolgadas das nossas gerações combinadas as lutas de rua e paralelo a radicalidade do MST, essa combinação funcionou até o terceiro mandato do PT a frente do governo federal, as crises com o PT no governo começam já no primeiro mandato de Lula, com as reformas. 

Em 2013 a insatisfação reúne forças antagônicas nas ruas, de um lado uma geração identificada com a esquerda e que exigia mudanças que buscassem romper com velhas lógicas, como direito ao transporte, recursos públicos, desapropriações inclusive de comunidades indigenas para Copa do Mundo e os absurdos lucros do sistema financeiro, e do outro lado uma direita que se renovava com jovens alimentados pelas ações sociais do governo do PT, mas capitulados pelo modo capitalista de viver, ideias da "classe média" e mudanças no mundo do trabalho com a farsa do empreendedorismo. Emerge então uma geração que associa o PT ao sistema e parte absorvida pelo fascismo bolsonarista em curso. 

A ocupação das escolas em 2015 foi outro sinal que a esquerda não se ligou. Com a ameaça do governo de Sao Paulo em reestruturar as escolas com risco de fechamento de algumas unidades foi na cidade de Diadema que o rastilho de pólvora fez o maior levante estudantil do período. 

O lamaçal estadunidense no Oriente Médio em particular no Alfeganistão e no Iraque, faz emergir o Estado Islâmico que acaba captando esse imaginário antisistema para aqueles jovens que não se identificam com a direita, o fascismo e a própria esquerda. Tendo adeptos inclusive no Brasil.

De lá para cá, como parte da narrativa fascista brasileira é o uso da força, como defesa do armamento da população, diante de uma realidade social que combina um clima de violência urbana disseminada pela mídia e pela condição de miséria e pobreza que atinge nossos territórios periféricos, o crime organizado nas comunidades, enfim, esses segmentos atraem a força insurgente da juventude.

 Quando jovens observam a esquerda levantando bandeiras do Che Guevara com uma mão e pedindo "paciência" com as injustiças sociais de outro, devido a forte influência da estratégia eleitoral, parte dessa juventude prefere resistir por conta própria ou perseguindo referências que julgam mais insurgentes. 

Não sejamos ingênuos, não estou falando e nem espero que as nossas esquerdas venham a defender o levante em armas, mas pensar como a nossa resistência não tem respondido a radicalidade de uma geração.

O que não podemos é perder uma batalha ou uma guerra porque o inimigo ou adversário, que tem sido mais beligerante que nós.

Não vamos libertar territórios ou vidas sem reagir, sem organizar e sem propor resistências que respondam a altura a violência sofrida. Na luta pelo direito ao voto, grupos insurgentes de mulheres no Reino Unido, em especial na Inglaterra, as sufrágistas para dizer aos homens que sua luta era séria e necessária recorreram a ações diretas como bombas em caixas de correio, grupos de enfrentamento aos guardas que não mediam sua violência contra sua luta, entre outras. 

Exemplos de resistência não faltam, o que falta é saber como reunir no imaginário de uma geração um projeto societário que rompa com o atual estado de coisas.


sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

O fascismo não merece ser tratado com seriedade! Por uma candidatura cômica da esquerda para o governo de São Paulo

 


Na luta a tática e a estratégia são definidas após analisar e refletir sobre o quadro que envolve a análise de conjuntura, a correlação de forças e os objetivos a serem alcançados. Há momentos em que se deve adotar objetivos táticos.

Em política avaliar situações de derrotas não é fraqueza é capacidade de articular-se para poder reunir forças e avançar. Se observarmos a situação dos países colonizados e as lutas de libertação, a experiência do Vietnã ainda é um caso exemplar de "arte da guerra".

As duas últimas disputas para o governo do estado de São Paulo foram para esquerda um desastre. O fascismo bolsonarista reúne no mínimo 60% dos votos, perde força na capital Paulista, mas atropela as nossas esquerdas nos interiores. Haddad em 2022 venceu, por exemplo, em 100% das urnas em uma cidade que tem menos de 1000 eleitores, ou seja, nada com coisa nenhuma, já Tarcísio nos esmagou em cidades que já foram governadas pelo PT como Ribeirão Preto, Campinas, Hortolandia, Registro, São José dos Campos, Santos, entre tantas. 

Uma reação popular só seria possível se tivéssemos uma tradição de construir territórios livres, autônomos ou insurgentes, mas isso está longe da nossa realidade. Então, estamos ainda reféns da lógica eleitoral.

Dito isso, hoje (23/01/2026) Tarcísio prefere não trocar o "certo pelo duvidoso" e seu guru, Kassab é o vitorioso do momento. Preferiu deixar os problemas familiares de Bolsonaro com o próprio, prefere a paciência do tempo, pois, uma reeleição de Lula pela quarta vez seria praticamente a última. Montar um bunker em São Paulo é como ter uma máquina azeitada e funcional aos seus interesses futuros. 

Diante do quadro, sabemos que as chamadas candidaturas viáveis da esquerda não são boas pelq viabilidade eleitoral, no quadro mais realista pelo PT Haddad já desconversou, de fora com apoio de Lula, Tebet não abre o jogo, tem dúvidas, pelo Psol o próprio Lula neutralizou Boulos em troca de um futuro próximo (ilusões), Hilton sabe o papel que precisa exercer para o Psol fazer bancada. O quadro é desolador. O resto é especulação de interesses que não refletem a realidade.

Eleger bancadas deveria ser o objetivo das esquerdas, deveriam criar vergonha e construir um acordo que atendesse reeleições preteridas, novas candidaturas e territorialidade, ampliando as representações pelo interior. Guardar personalismo, partilhar recursos e de forma determinante fazer da eleição para o Senado a grande prioridade. Se vão chamar isso de Bloco ou blocos, alianças pontuais, isso pouco importa. 

E o que fazer com a candidatura para governador?

Na arte da guerra, Sun tzu diz que há momentos em que deve-se criar distrações para confundir o inimigo. Eu defendo que se lance um/a camarada do campo da comédia. Sim, um/a comediante.

Já tivemos muitos dirigentes, intelectuais, professores, enfim, só gente boa, erudita, mas que no momento para enfrentar o fascismo precisamos nos reconectar com as massas, e o uso da comédia talvez seja a arma do momento.

Antes de você, querido/a leitor/a surtar ou discordar, vamos prosear sobre as questões da luta de classes. 

Pergunto: um comediante pertence a uma categoria profissional? Ele/ela pertence a cultura como trabalhador/? Tem uma função social?

Na trajetória das revoluções relembrar o papel do teatro na  revolução russa é fundamental, seja pelo caráter comunicacional, diante de uma população analfabeta que compunha parte significativa da sociedade russa daquele período, Brecht é uma referência e seus poemas, alguns, caricaturizam o modo burguês e suas burguesices. E hoje, a comédia foi uma trincheira necessária contra o fascismo bolsonarista.

O uso da ironia, sarcasmo e o cinismo podem e devem ser as nossas armas nesse momento, foda-se a retórica do inimigo, foda-se se o lado de lá que nos ataca sem dó, se nos debates eles começaram a sangrar, ótimo, se em algum ponto pedirem um "respeito", foda-se. RESPEITO que eles são incapazes de ter. Foi o próprio Tarcisio que disse estar " se lixando" para o tribunal penal internacional no caso do massacre na baixada santista. Então,  estamos nos lixando para o que o candidato Tarcisio dirá. 

A comédia não ofende, tira sarro. Não atira cadeiras, causa constrangimento, não se preocupa com falas Marsais, pois prefere a jugular. 

Não é rir das nossas desgraças, mas fazer pensar, refletir sobre a nossa realidade. É fazer nossas posições, mesmo que cômicas, sejam discutidas no bar da esquina, no jantar de casa, no trajeto do ônibus, do metrô e do trem, é virar referência do vendedor que grita nas ruas da 25 de março, enfim, retomar protagonismo.

E os votos? "Podemos perder votos se formos muito diretos!" Essa avaliação é subjetiva e não se sustenta. Assim como os petistas abobalhados, enganados por pesquisas iniciais diziam que Haddad era imbatível e Tarcisio forasteiro. Levamos uma paulada de um forasteiro que não sabia nem onde era seu colégio eleitoral. Então menos preocupação com o futuro e mais atenção à tática.

Volto a reafirmar o título desse artigo, tratar o fascismo com seriedade é um erro. 

E nem me venham com essa história de preparar um tecnocrata, intelectual, político profissional com um roteiro que basta. Vamos valorizar os nossos camaradas da comédia!

Avante, senão o fascismo atropela.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

O mal que corrói o petismo!

 


Não tenho prazer de escrever essas críticas. Já expliquei isso em algum momento. O que não entendo é como militantes de esquerda não conseguem se  alimentar da crítica como forma de fortalecer sua luta, seu projeto. Talvez o institucionalismo tenha penetrado tanto no petismo que os valores pequenos burgueses tenham fundido a alma até do mais valente militante.

Esse ser do petismo consegue ir no Galpão Elza Soares e curtir com o MST, apoia a palestina, usa boné do Che, ao mesmo tempo que justifica as alianças de Lula com Lira e parte da direita bolsonarista, defende a floresta, mas não aceita críticas ao governo quando o assunto é perfurações de petróleo na Foz da Amazônia. 

Isso tudo leva a ausência total de protagonismo nas grandes manifestações que passam por 2013, pelo Fora Temer, pelo Ele não, no Fora Bolsonaro e recentemente na luta contra a Pec da Bandidagem, não vamos esconder a verdade, a triste verdade. Tirando 2013, todas as demais participei ativamente, e o que percebi, a ausência do PT, não estou falando que os petistas se aumentaram, muito pelo contrário, estavam lá. 

Mas a direção, os influenciadores, mandatários e qualquer dirigente estes não souberam se conectar com as lutas reais, quando estavam pensando o que fazer, as convocações já estavam circulando, quando exitaram em apoiar e convocar, as massas já estavam nas ruas, quando pensaram que tudo ia se instabilizar, o congresso de direita do orçamento secreto, aliados do governo Lula seguiam dado outra facada nas costas, e novamente novas mobilizações que não passaram pelo protagonismo do PT. 

Confesso que saúdo essa mudança, a esquerda não é um clube fechado e exclusivo,  ser de esquerda é caminhar pelo terreno da luta de classes, é enfrentar o capital e o capitalismo.

Escrevo isso também porque hoje abrindo meu e-mail recebi mensagem da fundação Perseu Abramo, do PT, e ótimo primeira notícia era sobre o 14 encontro nacional de mulheres do PT, fundamental, mas na sequência umas dez matérias  chapa branca, só governismo, só governismo. Nada que alimente o militante partidário, militante que fica em "modo espera" por definições do partido e não informes do governo.

Mas não seria isso o PT? Mandatos presos a lógica do Estado capitalista, que não sobrevive sem essa estrutura. 

O sangue de Rosa Luxemburgo está nas mãos dos sociaisdemocratas alemães, que embriagados pelo poder conciliatório e o acomodamento nesse poder que não sabiam mais o que era se sacrificar pela libertação da sua classe, que as migalhas do sindicalismo econômico não eram presentes e sim concessões raivosas da burguesia. Preferiram abrir mão da sua revolução e pior ainda abater as oposições a sua esquerda e dormir com a direita. Não tem perdão e a história foi cruel. Ascensão de Hitler e o nazismo varreu a Alemanha da história operária, dizimou e empreendeu a pior guerra é massacre humano da história.

Não, o PT não iria tão longe. Mas subjugar o petismo coocando-lhe uma coleira institucional e buscando manter o establishment, sua pequena e feliz elitizinha não mudará em nada a correlação de forças.

Concordo que o novo sempre vem. Mesmo que eu reconheça que fora do PT há poucas esperanças, e também já disse isso em outro lugar. 

Para me confrontar, talvez um desses petistas que tratam a política como religião e Lula como um Deus, vá dizer que o PT fo o partido que mais filiou no Brasil, ok parabéns. Um partido político não faz.mais do que sua obrigação. Quero lembrar que o PT de 2003 a 2010 também filiou muita gente, durante os anos de ouro do lulismo, mas não teve gente para lotar a esplanada em defesa de Dilma e de seu mandato legítimo. A prisão de Lula mobilizou militantes, mas as massas "ingratas" nem sairam na janela. 

Quem erra na análise, erra na ação.

E no 08 de janeiro de 2023 tirando os ministros de Estado e suas responsabilidades, o petismo ficou imóvel, sem saber o que fazer. O que impediu o golpe foi a preguiça e o medo das aposentadorias na confortável carreira militar, viva aos privilégios, ou alguns deles. 

2026 não haverá nada de novo. Pelo menos no petismo.


Justificando o sumiço.

 


Feliz 2026. Principalmente para você que ainda segue, bisbilhota ou tenta ver se esse blog segue ativo. Confesso que depois que se cria um espaço, a responsabilidade de mante-lo torna-se grande.

Desculpe pelos meses de longo inverno. Confesso minha máxima culpa, pois tenho utilizado o Instagram para expressar posições ou replicar posições que defendo.

Sempre achei aqui um lugar mais "refinado", no sentido de me aprofundar mais sobre temas e questões do nosso tempo e da nossa luta de classes.

E aqui estou. Esse post é para dizer que sigo firme. Já fui aconselhado a ir pelo caminho do audiovisual, tipo um canal, mas ainda não sei. Tenho me dedidcado sim ao canal do Sinpro Guarulhos e ao programa Papo de intervalo, porquê é algo coletivo. Um canal meu sou um tanto personalista, e não creio que essa exposição seja necessária.

Talvez eu insisto em manter esse lugar como uma terapia, para mim e você leitora e leitor, pois isso me exige pensar e escrever, e a você LER. Três coisas que se torna casa vez mais importantes em nosso tempo. 

Estou lendo o livre recente do Saflate, "Cinismo e falência da crítica", confesso que não ia mais comprar livros, já tenho muitos na minha lista de dívidas pessoais para ler, mas algo me chamou atenção, seja capa, resumo...enfim, foi e está sendo fundamental. Isso somado ao turbilhão de situações pessoais pelo que passei parece que se encontraram e se encaixaram perfeitamente.

Portanto, se você está em completa paralisia diante do fascismo brasileiro, Trump, Venezuela, direita, aquecimento global, crise da água e outros, minha primeira sugestão é: LEIA. De preferência um livro.

Só tem condições de lutar quem coloca nos eixos sua razão e compressão da realidade a sua volta. Se indignar ou criticar a torta direito só farão vocês errar visto como uma pessoa chata e não um militante de uma causa.

Eu não sou religioso, mas creio em forças sejam elas quais forem. Talvez algo que acontece com a gente influencie mesmo a nossa trajetória.

Digo isso, porque bem no final de 2025 naqueles momentos de alta estima lá no alto, eu estava fazendo tarefas de casa e fui novamente limpar o telhado da garagem, e bem no final algo ruim me aconteceu, pisei erroneamente numa trinca, e tive uma queda livre de lá. Dores, ambulância, maçã, atendimento médico, medicamentos e o custo da cagada: escapula direita fraturada e 60 dias de repouso. Sim, quando se está dependente é se recuperando de um acidente, o "repouso" é quase uma tortura.

Voltando ao meu momento holístico, porquê falei que creio em forças, pois esse tempo e os desafios que tem me trazido talvez seja um aviso de "reduza a velocidade", refletir sobre o que tem sido feito e talvez reavaliar rotas. Sim, parece que precisava desse tempo.

Ainda tenho muitas coisas para fazer e na lista de prioridades, sem data fixa estão:

- concluir o documentário sobre a UGES (União Guarulhense dos Estudantes Secundaristas);

- cumprir e honrar o mandato no Sinpro Guarulhos;

Do que pretendo fazer ou talvez me dedicar mais seria apoiar os Centros de Memória que guardam hoje os arquivos históricos da Uges com o Cedem da Unesp e os arquivos das lutas sociais de Guarulhos-SP que estão com o Centro de Memória da Unifesp campus Guarulhos.

Preciso tirar da gaveta o livro sobre minha experiência na Marcha Nacional da Reforma Agrária de 2005, onde caminhei de Goiânia até Brasília em maio daquele ano com as/os camaradas sem terra. 

Talvez ser assistente social voluntário em alguma associação que valha a pena para contribuir paea luta de classes. 

Tudo em 2026? Não querides, uma coisa que tenho tentado aprender é essa coisa do viver cada momento. 

No tempo que escrevo esse artigo pensei em contribuir com alguns escritos sobre a educação política e popular, o agitprop e outro que trata da arte da articulação política, duas coisas que foram sempre minha especialidade. 

Bem, é isso. Bom ano pra nós e que alguma força ou forças nos protejam, pois é ano de eleição.

A imagem desse artigo é de um cartão de Natal soviético 

quarta-feira, 15 de outubro de 2025

2026, as eleições importam! Desafios da esquerda brasileira, pensar menos executivo e mais parlamentarista.

 


O cenário ainda não está certo. No plano federal a situação parece favorável para Lula e dos estados, São Paulo tem na liderança a reeleição indesejada de Tarcísio. Isso reflete em muito o que o fascismo brasileiro pretende nesse momento: manter e ampliar os dedos sujos no que puder, enquanto parte da esquerda se segura no lulismo. Esse cenário pode e deve expressar o que devem ser as tarefas da esquerda para o próximo período. Nadar contra realidade não é uma opção. E eu mesmo que defenda, atue e deseje uma saída revolucionária, reconheço que fomos dragados pelo modelo eleitoral e o processo da redemocratização realocou a esquerda da resistência armada para uma resistência institucional, compreensível diante do terror do período militar, mas o terrorrismo neoliberal foi mais rápido que a Constituição de 1988 e atropelou a classe trabalhadora.


Não bastasse o controle político das elites com seus representantes, a velha guarda da direita envelhecendo e a nova geração alimentada pelo egoísmo neoliberal quer terra arrasada em todos os campos institucionais, como uma praga devora os recursos do Estado por todos os lados, da farsa das privatizações, a roubalheira das pseudo organizações sociais e da precarização dos serviços públicos esse processo que criminaliza servidores públicos que não podem ser controlados pela escória neoliberal e distribui privilégios rotativos para políticos cada vez mais medíocres que não se contentam apenas com pequenas trocas, agora querem exercer uma tarefa que não lhes pertence, o de executar recursos por meio de emendas parlamentares ocultas, sem controle e planejamento público.

No meio do caos a pequena, mas corajosa atuação parlamentar da esquerda - nem toda evidente - tem resistido a pilhagem e buscando manter o "moral das tropas" com a mobilização dos atos de rua, nesse campo ainda estamos navegando em águas confusas, em tese o empate, como registrado pela USP que monitorou e quantificou tanto o ato pela anistia aos golpistas de 08 de janeiro e os atos contra a PEC da Bandidagem, sendo que em São Paulo ambos empataram, 42 mil para cada lado. 

Não é segredo que o bolsonarismo fascista tem priorizado o fortalecimento parlamentar numa estratégia que vai desde controle do legislativo e inviabilizar um quarto mandato de Lula. Nem é preciso argumentar muito sobre as tarefas da esquerda diante desse quadro, contudo falta decisão. Decidir o que será prioritário?

Mesmo que o estado de São Paulo com Tarcísio na frente das pesquisas represente um problema sério, a indicação das pesquisas de que Haddad segue na liderança é um sinal de qual prioridade estamos falando. 

Não é momento de barbeiragem, talvez precisemos de um (a) humorista sério e bem posicionado (a) para enfrentar o bolsonarismo de Tarcísio na tarefa de candidato (a) a governador (a) para desestabilizar a folga fascista estadual e investir pesado em uma das vagas para o senado e tentar, porquê não, as duas e buscar eleger senadores pelos demais estados, com identidade ideológica e alinhamento, sem essa de "aliados na direita", a votação da taxação dos bilionários provou que os cargos no governo representam menos do que o financiamento oculto que banca essa thurma. Preservar e ampliar as bancadas estaduais e federais pelo país afora, mantendo nomes fundamentais hoje na trincheira parlamentar.

Não é hora de errar muito, mas errar menos. Não é momento de divergências intestinais, mas de bons antiácidos. 
Todo momento é importante para o futuro. Contudo há momentos em que se não reagir, não haverá futuro!  

O direito a ser um professor analógico! Inteligência é apenas humana.

 


Havia no passado um termo chamado de "liberdade de cátedra" que segundo nota da reitoria da Universidade de Brasília (UNB) diz que a "Constituição Federal, no art. 206, assegura, a docentes e estudantes, a liberdade de aprender, de ensinar, de pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, de modo a garantir o pluralismo de ideias e concepções de ensino, bem como a autonomia didático-científica. Esse princípio é reforçado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei no 9.394 de 20 de dezembro de 1996), em seu artigo terceiro." (UNB, 2025) e este é o ponto.

É comum que o desenvolvimento de novas tecnologias possam atuar como parte da metodologia empregada no processo formativo, mas tudo tem limites. Eu desde minha passagem pela pós graduação me tornei um crítico feroz da ditadura da "nota Capes" na elaboração e construção das pesquisas acadêmicas, como todo idealista que chega nesse lugar restrito, acreditava e acredito que fazer ciência é um fazer para sociedade, contudo, esse planetinha não é apenas restrito ou elitista, é inclusive limitador onde uma questão paira firmemente no ar: as regras sagradas de elaboração, construção, permanência e aceitação são defendidas para proteger o fazer científico ou para justificar esse lugar restrito, elitista e limitado a uma turma? 

Furar essa bolha exige tanta articulação e capacidade de argumentação que em algum momento cansa. Eu cansei, reconheço. 

Contudo, do outro lado, o que está em curso no ensino seja superior ou básico parece muito pior. Seja no setor privado que busca lucratividade acima do processo formativo, seja no público que prefere inovar sem mudar nada. 
Estou falando de uma coisa que ganhou um nome que considero equivocado, a tal da "inteligência artificial" (IA) e me recuso a usar iniciais em caixa alta, não é nome próprio, é apenas uma designação para uma coisa que é artificial, mas não é inteligente. Inteligência vem do nosso  "telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor" que são características humanas. 

E nem vou ficar em grandes elaborações para explicar porque essa coisa artificial não é inteligente. Para isso basta lembrar dos tempos de escola quando muitos de nós no dia das provas utilizamos um recurso presente até hoje, a COLA. E o que era colar? Colar na escola era buscar as respostas com colegas solidários, com esquemas elaborados (de anotações na palma da mão a inscrições na carteira) ou bisbilhotando a prova do outro, enfim, era a forma encontrada para responder uma prova. E vejam que coisa incrível, o que a tal IA faz? Recebe da rede global via internet milhares, milhões, bilhões de megas e teras bytes escritos, elaborados, pesquisados, alimentados por nós humanos através do nosso  "telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor".

Chamar de "inteligente" uma coisa que colou é como dar um prêmio pra preguiçoso em dia de desafio.

Uns podem até dizer que a IA ao combinar dados tem elaborado novas produções. Mas montar quebra cabeças não requer inteligência, exige paciência e noção para juntar peças. 

Digo isso porquê quero fazer um chamado ao artesanal, ao analógico, ou seja, ao direito que temos de preservar métodos para garantir um mínimo de decência no processo formativo humano. Do mesmo jeito que livros de papel nunca serão extintos, e os dados e nossa humanidade provam isso, haverá sim professores que irão buscar preservar ações, atitudes e métodos formativos analógicos. Mesmo no processo educativo infantil a busca pelo retorno aos jogos interativos, integrativos e sem o uso de recursos tecnológicos evidenciam uma qualidade exclusivamente humana: a nossa relação, somos um ser vivo coletivo e que depende, mesmo buscando um momento só, alguma interação.

Se existe um movimento evidente de que para manter ou resgatar nossa humanidade é preciso ter uma distância segura dos recursos tecnológicos, isso não será diferente no processo formativo. Portanto, exigir o direito a ser um professor analógico, cujas habilidades e o trabalho educativo, acadêmico e formativo seja por meio da leitura, do diálogo ou dialógico, dos jogos reflexivos, lúdicos e dinâmicos, da elaboração crítica com ou uso exclusivo do "telencéfalo altamente desenvolvido". 

Fora de mim abrir mão da tecnologia, como toda boa ditadura, a do capital vai empurrando cada um de nós para suas formas sem direito a escolha - contraditório ao discurso liberal - pois, seja para pagar contas ou resolver problemas básicos somos empurrados para beira do abismo. A tecnologia não é o abismo, mas a forma e para o que ela é destinada em nossa sociedade.

Dito isso, reivindico meu direito ao analógico, quero poder exercer a docência a partir da velha escola de Sócrates, quero me integrar a realidade como Paulo Freire, quero as rodas de conversa e as interações humanas necessárias. Quero ser o ponto de partida, não preciso surpreender ninguém com mágica tecnológica, deixo isso para os outros magos que se sentem mais tranquilos com esse modelo. 

Um pouco de nostalgia para acalmar a alma!



terça-feira, 15 de julho de 2025

Deu PT? Eleições internas seguem na contramão da organização.


Algo está fora da ordem. Não, tudo segue orientada pela ordem, pelo menos no "comitê" central do Partido dos Trabalhadores (PT). Dia 06 de julho de 2025 os filados (as) seguiram em marcha para as urnas para "escolher" a nova direção do partido, como um fetiche pela democracia liberal limitada ou um masoquismo democrático o Processo de Eleições Diretas do PT representa hoje uma farsa em forma de "participação" massificada. Não foi uma "festa" da democracia, passou como um ato protocolar, sem o mesmo entusiasmo  de outros tempos.
Mesmo com a adiamento das eleições internas em Minas Gerais, num confronto patético entre as correntes dominantes que levou a justiça comum a decisão sobre o pleito, os números não mentem, em tese o partido conta com mais de um milhã de filiados, alcançou cerca de 550 mil, a metade diriam os otimistas. O mais constrangedor é a tabelinha do site do PT (https://pt.org.br/pt-faz-maior-ped-da-sua-historia-com-quase-550-mil-votantes/)


Cuja indicação é de que foi o "maior" PED da sua história, como se fosse um dado solto e que pudesse provocar grande euforia para o partido. Contudo, os anos de 2017 a 2019 foram os períodos terríveis de Temer e Bolsonaro, uma baixa que mostrou dois erros: um erro é o discurso da unidade que contaminou o partido, que deveria ser chamada de "abraço dos afogados", num período onde nenhuma força política interna pôde se posicionar de forma arrogante, pois em 2016 o PT tomou o maior tombo de sua história com a derrota em inúmeros municípios pelo Brasil e em 2019 primeiro ano do gov Bolsonaro, e segundo erro, a ausência total de uma reflexão coletiva, nenhum congresso extraordinário, nenhuma ação organizativa que pudesse coesionar o partido internamente, desde 2013, passando pelo golpe contra Dilma em 2016 e a vitória de Bolsonaro em 2018 e com Lula preso qualquer partido de esquerda que se preze deveria ter buscado reunir sua militância para uma analise estratégica, renovar o programa e definir os caminhos da luta social, eleitoral, popular e sindical. 

A direção, os "capas-pretas", os mandatários e demais autoridades internas preferiram seguir com suas vidas, com um pé no "Lula Livre" e outro numa oposição quase idêntica ao MDB durante a ditadura militar, viu o revés com a libertação de Lula e as portas abertas para as eleições de 2022. A busca pelo poder "rápido" ainda sob as hostes do lulismo é a força motriz de quem dirige o PT hoje. 

Escrevi, assim da posse de Lula sobre quanto tempo levaria ao partido para reprimir posições criticas de esquerda, abandonar o barco da luta anti-imperialista e anti capitalista neoliberal, e para minha pouco surpresa, menos de duas semanas de janeiro de 2023. Começaram os seguidores do lulismo a interromper qualquer critica legitima do lado de cá, que busca entender que para fortalecer o governo Lula como lugar de resistência e reconstrução pós Temer-Bolsonaro era necessário reagir. 

E sinais não faltaram, temos a tentativa de golpe ainda no mês de janeiro de 2023, as crises com Campos Neto no Banco Central, o revés de Motta e Alcolumbre na questão do aumento de impostos no IOF, cito estes para não me estender, como o constrangimento da extração de petróleo na bacia da Foz da Amazônia.

Do outro lado  o governo Lula foi surpreendido com as lutas que emergem fora do seu campo de visão, seja as lutas contra a anistia aos golpista de 08 de janeiro de 2025, ou a luta contra a escala 6x1 que atinge a juventude brasileira, que se tornou pauta fundamental e a recente exposição do que de fato promove as desigualdades, que é luta pela taxação dos bilionários. Em todas, o protagonismo do PT foi ridícula, com um empenho protocolar nas redes. 

Mas desde 2013 o PT que tinha como certo de que como maior partido da centro-esquerda, sem ele "nenhuma mobilização social" iria prosperar virou um mito. Nas mobilizações contra a anistia aos golpistas, contra escala 6x1 e na recente luta pela taxação dos bilionários, o que se viu são novas formas de participação e mobilização que não dependem da participação do PT. Se isso não é um sinal não sei mais o que seria?

Voltamos ao PED, nada de novo. Edinho Silva é um membro do establishment, onde das tarefas realizadas foi de ser Ministro da Comunicação Social do governo Dilma Roussef, e para um partido cuja região nordeste foi determinante, fiel e dando seu voto de confiança, internamente no PT Lula preferiu uma saída domestica, novamente o partido é presidida por um paulista. Sua votação também não expressa uma unidade, já que dos 550 mil, apenas 378 mil deram votos para sua vitória.

Seguimos para 2026 numa zona cega. No revés das pesquisas de avaliação do governo Lula a sua aprovação empata com a desaprovação após os ataques do Congresso nacional pelo Centrão, das medidas de taxação de Trump sobre o Brasil e o pedido de condeção dos golpistas, mas isso é apenas um sopro, há desafios pela frente, uma delas é o congresso nacional, se não buscarmos unidade para eleger uma bancada de deputados/as e senadores/as, não adianta buscar o poder executivo.

Vivemos um parlamentarismo de interesses, cuja lógica de classe é a busca por pilhar o Estado para atender a fome dos ricos, isso é fato! 

É preciso ter um olhar para o que interessa. Se o PT quer de fato avançar contra o fascismo precisa construir uma base, precisará trair aliados nos estados sim, esses aliados do centrão, os infiéis nas votações da base. Se o PT não quer se unir ao campo mais a esquerda como Psol, UP, PCB e outros, precisa dialogar para dar apoio e contribuir para que esse campo supere suas divergências e elejam pelo menos 8% do congresso, e o PT e seu campo (PSB, PcdoB, PDT e outros) possam avançar mais:


A esquerda nunca alcançou 50% do congresso, talvez essa tarefa nunca tenha sido parte de uma ação estratégica. Talvez isso tenha que mudar. 

Talvez o PT como partido tenha que entender que não basta "mobilizar" seus filiados. Precisa voltar ao jogo político e fazer política de classe, mesmo que isso não seja da vontade de alguns, mas o jogo é esse no momento, a direita sabe o que quer e busca seja pelo absurdo, seja pela ousadia.

No quadro atual, não estamos empolgando nem pelo absurdo e muito menos pela ousadia.

Se recuar na luta contra os bilionários, irá amargar um 2026 com mais dificuldades do que já vivencia. 

Uma parte da esquerda compreendeu isso, tem ido a campo e buscado eleger e ocupar esse lugar do congresso, provou que há possibilidades para avançar. 

As demais lutas seguem no dia a dia. Temos o Plebiscito Popular percorrendo as ruas do país. As ruas não vão esperar o PT decidir o que quer da vida.





 


segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

Dr. Victor Frankenstein repudia seu monstro | Carta semanal 2 (2025)

 

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Dr. Victor Frankenstein repudia seu monstro | Carta semanal 2 (2025)

Zulkifli Yusoff (Malásia), Sem título, 1995.

Queridas amigas e amigos,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Pouquíssimos humanos tiveram a sorte de descer às profundezas dos oceanos do mundo. O lugar mais profundo — 11 quilômetros abaixo do nível do mar em seu ponto mais profundo — é a Fossa das Marianas, que está localizada ao norte das 607 ilhas dos Estados Federados da Micronésia, no Oceano Pacífico (em comparação, o Monte Everest está quase 9 quilômetros acima do nível do mar). Lá embaixo, nas profundezas abaixo de 6 quilômetros, no que é chamado de zona hadal, não há luz. É chamada de zona hadal em homenagem a Hades, o antigo deus grego do submundo. Em Os Persas, de Ésquilo, o coro canta: “Hades, o deus que tudo recebe, toma tudo em suas mãos e nunca os liberta”. As profundezas são tratadas com medo, a escuridão abaixo é quase uma porta de entrada para o inferno de fogo de Hades.

Exploradores que estiveram nas profundezas do oceano em vários submarinos relatam que a escuridão é total por 6 quilômetros. Mas mesmo nas águas mais profundas, eles testemunharam flashes de luz e então viram que criaturas do fundo do mar emitem sua própria luz (bioluminescência) para atrair parceiros ou caçar alimentos, produzindo luciferina (uma molécula emissora de luz) e luciferase (uma enzima), ambas palavras vindas do latim e que significam “portador da luz”, que interagem e produzem fótons. De fato, um novo estudo nos diz que 76% dessas criaturas das profundezas do mar possuem essa habilidade. Alguns são tão pequenos quanto algas unicelulares que não podem ser vistas pelo olho humano, enquanto outros são tão grandes quanto uma lula gigante, que pode atingir até 13 metros de comprimento. Existem criaturas únicas nessas grandes profundezas, muitas delas evoluíram para se adaptar não apenas à escuridão, mas também à extrema pressão da água (16 mil libras por polegada quadrada ou psi, em comparação com cerca de 14,7 psi no nível do mar). Eles receberam nomes fantásticos de humanos que os veem por sua estranheza: tubarão-duende, polvo-dumbo, lula-vampira, vermes zumbis, peixe-machado seminu. A chave para sua sobrevivência não está apenas em seus olhos e bocas fantásticos, mas na luz que eles produzem para combater a escuridão.

Jean Cocteau (França), Édipo ou a encruzilhada dos três caminhos, 1951.

A luta pela sobrevivência define a história natural e humana na Terra. Nenhum animal ou planta sucumbe a quaisquer desafios absurdos que lhe sejam impostos. Nas praias de Pohnpei, um dos Estados Federados da Micronésia, há flores — como os lindos hibiscos costeiros laranja, rosa e vermelho — que brotam do solo arenoso e florescem quando a água salgada as banha. Em 2013, o poeta pohnpeiano Emelihter Kihleng escreveu “Maré”, que captura essa resiliência:

A maré me puxa,
um lembrete das coisas que se perderam
e das coisas que retornam.
Eu estou na praia,
pés afundados na areia,
imaginando se o oceano se lembra de mim.

Pohnpei não foi bombardeado na Segunda Guerra Mundial e foi poupado dos testes nucleares que atingiram o Atol de Bikini (23 testes nucleares dos EUA entre 1946 e 1958) e o Atol de Enewetak (43 testes nucleares entre 1948 e 1958), ambos a aproximadamente 900 a 600 quilômetros de distância, respectivamente.

Em 1934, Jean Cocteau publicou a peça La Machine infernale [A máquina infernal]. Nele, o Oráculo de Delfos, que conhece a história de Hades, diz ao sábio Édipo: “O mundo subterrâneo nada mais é do que um espelho do mundo superior, onde encontramos apenas o mesmo rosto, os mesmos destinos e as mesmas sombras”. Mas, na verdade, o Oráculo de Delfos errou. Nas profundezas, perto dos portões de Hades, em vez de sucumbir à sua situação, as criaturas que ali vivem — apesar da realidade do lema de Thomas Hobbes, Bellum omnium contra omnes [a guerra de todos contra todos, ou a luta pela sobrevivência] — produzem sua própria luz interior por razões de reprodução ou preservação. Quando li sobre a onipresença desses animais bioluminescentes nas profundezas do oceano, senti mais as implicações metafóricas do que as evolutivas: sua luminescência é meramente uma reação bioquímica ou pode ser lida como resiliência?

Do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social chega o dossiê n. 83 (dez. 2024), O falso conceito de populismo e os desafios da esquerda: uma análise de conjuntura da política no mundo do Atlântico Norte Este texto foi estimulado pela vitória eleitoral de Donald Trump nos Estados Unidos, mas também pela sensibilidade entre setores do antigo liberalismo e da social-democracia de que é isso — a chegada da extrema direita de um tipo especial — a causa dos problemas que a humanidade enfrenta. Trump sozinho não nos deu os hábitos de intimidação e repressão que os Estados Unidos e seus aliados infligem ao Sul Global. Trump nasceu em 1946, um ano depois de os EUA usarem bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Quando criança, os EUA invadiram a península coreana (1945) e interferiram nas eleições na Costa Rica (1948), Síria (1949), Irã (1953) e Guatemala (1954). Trump certamente definiu os termos para a ofensiva regional israelense com os Acordos de Abraham (2020), mas ele não assinou as ordens para transferir sistemas de armas perigosos para Israel para sua guerra genocida, nem é a única força no Atlântico Norte comprometida em defender seus financiadores.

Trump é um produto do pacto neoliberal. Ele é o monstro de Frankenstein. Sua afirmação de ser um bilionário self-made é tão realista quanto sua afirmação de ser um político self-made: em ambas as áreas, ele foi impulsionado por forças muito maiores do que ele. Quando os antigos liberais e muitos dos sociais-democratas deixaram de lado seus compromissos com o bem-estar social e o bem comum e salivaram em direção ao neoliberalismo, eles perderam cada vez mais popularidade entre grandes setores do eleitorado no Atlântico Norte. Esses velhos liberais e alguns social-democratas usaram o estado para desviar enormes partes do excedente para criar bilionários e depois assumir empregos no mundo deles. À medida que perdia sua base, a classe dominante buscava freneticamente uma maneira de manter sua hegemonia eleitoral. Isso significava, primeiro, destruir a possibilidade de qualquer renascimento do assistencialismo por meio da centro-esquerda (a sabotagem contra a campanha de Bernie Sanders e a conspiração contra Jeremy Corbyn são exemplos disso) e depois encontrar candidatos dispostos a dizer qualquer coisa para criar e disciplinar uma nova base (desde que esses novos candidatos, como Trump, permanecessem comprometidos com as estruturas rígidas de extração de excedentes do trabalho social de muitos para as contas bancárias de poucos). Com o tempo, incapazes de cumprir suas promessas, Trump e outros da extrema direita de um tipo especial cairão na desgraça com sua base. Quando isso acontecer, a classe dominante, os Frankensteins do capitalismo, encontrarão outro mágico que deslumbrará uma base desorientada enquanto continuará a impor brutalidades aos trabalhadores e camponeses do mundo.

Salah Elmur (Sudão), Jubileu de Ouro, 2020.

O que a presidência de Trump significará para o mundo, pergunta o comentarista liberal? O que o pacto neoliberal significou para o mundo? Quando o “mal menor” do pacto neoliberal — Biden nos Estados Unidos, Starmer no Reino Unido, Macron na França, Scholz na Alemanha (e até o patético fim de sua carreira política, Trudeau no Canadá) — é totalmente cúmplice de um genocídio em andamento, há pouco que Trump possa fazer para ser pior. Além de “terminar o trabalho” em Gaza, como ele e seus comparsas prometeram fazer, talvez tudo o que resta seja se ele realmente, ao estilo do Dr. Strangelove, é conduzir o extermínio da raça humana e a aniquilação do planeta. Mas mesmo quando o tema é a destruição planetária, o que as mega corporações do pacto neoliberal têm feito senão cometer ecocídio e ignorar a evidência da catástrofe climática? Essas forças neoliberais alegam apoiar formas de liberalismo, como a liberdade de expressão, mas, na verdade, foram essas antigas forças liberais e antigas forças sociais-democratas no mundo atlântico que introduziram poderes amplamente sem contenção para as forças de repressão em nome do antiterrorismo, entregando assim esses poderes a forças — como Trump — que são instintivamente contra as liberdades de expressão e associação. Os velhos liberais e os antigos sociais-democratas dirão que pelo menos não são patriarcais ou racistas, mas mesmo aqui os números deles são péssimos: a taxa de deportação nos Estados Unidos é tão alta, se não maior, sob presidentes liberais quanto sob conservadores, e os velhos liberais e antigos sociais-democratas não fizeram quase nada para defender os direitos das mulheres, que se tornaram um hobby de campanha em vez de um campo de luta.

É precisamente esse o ponto: nem os velhos liberais e os antigos social-democratas, nem a extrema direita de um tipo especial são capazes de expandir o campo de luta. Isso dá espaço para que os trabalhadores entrem nesse campo com confiança e clareza e moldem uma política de emancipação das garras do capitalismo, e permite que aprofundem a batalha de ideias e levantem questões programáticas que buscam resolver problemas reais em vez de apenas tentar construir formações eleitorais para derrotar a direita.

Larkin Durey (Costa do Marfim), Haut les mains [Mãos ao alto], 2020.

Não consigo tirar essas criaturas das profundezas do mar da minha mente. Em um ponto do romance Frankenstein, de Mary Shelley, o monstro diz que, embora ele “devesse ser o Adão [de seu criador]”, ele é “mais como um anjo caído” (ou seja, Lúcifer). O nome Lúcifer — assim como luciferina e luciferase — vem da palavra latina para “portador da luz” e, embora o termo tenha aparecido pela primeira vez em uma tradução da Bíblia hebraica do final do século IV como uma tradução da palavra hebraica Heilel ou “aquele que brilha”, foi somente em Paraíso Perdido (1667), de John Milton, que ele foi identificado com o anjo caído. Será que os monstros, os portadores da extrema direita de um tipo especial – como Trump – também são, em algum aspecto, “portadores da luz” luciferianos, cujas contradições nos permitem ver melhor os enganos do pacto neoliberal? Eles podem fazer isso, mas eles e o resto dos monstros do mundo do Atlântico Norte não podem fazer nada além disso. Eles não são como as criaturas das profundezas do mar. Seus seguidores ficam momentaneamente animados com seu carisma, mas logo tremem com seus fracassos. Para onde irão essas massas quando perderem o interesse na extrema direita de um tipo especial? As realidades sombrias da guerra e da fome enfraqueceram as possibilidades de uma luz interior para muitos humanos que parecem ter perdido a faísca em seus olhos que traga a promessa de iluminar um caminho adiante.

Mas essa luz não pode se apagar. Sempre há um feixe de luz. O poeta haitiano Paul Laraque (1920–2007) escreveu surrealisticamente sobre essas curtas explosões de luz nas danças das criaturas e flores nas profundezas das águas em seu poema “Mourir” [Morrer], que aparece em sua coleção de 1979 , Les armes quotidiennesPoésie quotidienne [Armas do Cotidiano: Poesia Cotidiana]:

A onda de sombra os arrastou para o nada,
para o fundo do mar, onde descansam entre os corais,
que se abrem como rosas, a dança vermelha e brilhante dos peixes,
os restos enferrujados dos navios, a opulência irrisória das areias.

Aquela dança vermelha e brilhante dos peixes, nosso protesto por um novo mundo.

Cordialmente,

Vijay