quinta-feira, 21 de julho de 2022

Nossas crianças serão alfabetizadas e olharão para o futuro com dignidade? | Carta semanal 28 (2022) - do Instituto Tricontinental

 

Nossas crianças serão alfabetizadas e olharão para o futuro com dignidade? | Carta semanal 28 (2022)

Nú Barreto (Guiné-Bissau), A Esperar, 2019.

Queridos amigos e amigas,

Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

O mundo está à deriva nas marés da fome e da desolação. É difícil pensar em educação, ou qualquer outra coisa, quando seus filhos não podem comer. E, no entanto, o forte ataque à educação durante a última década nos obriga a considerar o tipo de futuro que os jovens herdarão. Em 2018, antes da pandemia, as Nações Unidas calculou que 258 milhões de crianças, ou seja, uma em cada seis crianças em idade escolar, estava fora da escola. Em março de 2020, início da pandemia, a Unesco estimou que 1,5 bilhão de crianças e jovens foram afetados pelo fechamento de escolas; impressionantes 91% dos estudantes em todo o mundo tiveram sua educação interrompida pelos isolamentos e lockdowns.

Um novo estudo da ONU divulgado em junho de 2022 descobriu que o número de crianças passando por dificuldades em sua educação quase triplicou desde 2016, passando de 75 milhões para 222 milhões hoje. “Essas 222 milhões de crianças”, observa o programa Educação Não Pode Esperar, da ONU, “estão em um espectro de necessidades educacionais: cerca de 78,2 milhões (54% meninas, 17% crianças com dificuldades funcionais, 16% deslocadas à força) estão fora da escola, enquanto 119,6 milhões não atingem a proficiência mínima em leitura ou matemática nas séries iniciais, apesar de frequentarem a escola”. Muito pouca atenção está sendo dada à calamidade que isso imporá às gerações vindouras.

O Banco Mundial, em colaboração com a Unesco, apontou que o financiamento para a educação caiu em países de baixa e média renda, 41% dos quais “reduziram seus gastos com educação com o início da pandemia em 2020, com um declínio médio nos gastos de 13,5%”. Enquanto os países mais ricos retornaram aos níveis de financiamento pré-pandemia, nos países mais pobres o financiamento passou a ser abaixo da média pré-pandemia. O declínio no financiamento para a educação produzirá uma perda de quase 21 trilhões de dólares em ganhos ao longo da vida, muito superior aos 17 trilhões de dólares estimados em 2021. À medida que a economia vacila e os donos do capital aceitam o fato de que simplesmente não vão contratar bilhões de pessoas que se tornam – para elas – “população excedente”, não é à toa que o foco na educação seja tão marginal.

 

 

Professora escreve em lousa em uma escola do PAIGC em uma área liberada nas florestas da Guiné, 1974. Fonte: Roel Coutinho, Guiné-Bissau e Senegal Photographs (1973–1974).

 

Olhar para os experimentos de libertação nacional de uma época anterior revela um conjunto de valores totalmente diferente, que priorizava acabar com a fome, aumentar a alfabetização e garantir outros avanços sociais que aumentassem a dignidade humana. Do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social vem uma nova série chamada Estudos sobre Libertação Nacional. O primeiro estudo desta série, A Educação Política para a Libertação da Guiné-Bissau (1963–1974), é um texto fabuloso baseado na pesquisa de arquivo de Sónia Vaz-Borges, historiadora e autora de Educação militante, luta de libertação e consciência: a educação do PAIGC na Guiné-Bissau, 1963-1978 (Peter Lang, 2019).

O PAIGC, abreviação de Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde, foi fundado em 1956. Como muitos projetos de libertação nacional, o PAIGC começou dentro do quadro político estabelecido pelo Estado colonial português. Em 1959, os estivadores do cais de Pidjiguiti entraram em greve por melhores salários e melhores condições de trabalho, mas descobriram que os portugueses “negociavam” com armas quando mataram cerca de 50 trabalhadores, deixando outros feridos. Esse massacre convenceu o PAIGC a prosseguir uma luta armada, estabelecendo zonas libertadas do domínio colonial na então Guiné (hoje Guiné-Bissau).

Nessas zonas libertadas, o PAIGC implantou um projeto socialista, que incluía um sistema educacional que buscava abolir o analfabetismo e criar uma vida cultural digna para a população. É essa busca de um projeto educacional igualitário que nos chamou a atenção, pois mesmo em um país pobre e enfrentando a repressão armada do Estado colonial, o PAIGC ainda desviou preciosos recursos da luta armada para construir a dignidade do povo. Em 1974, o país conquistou sua independência de Portugal; os valores desse projeto de libertação nacional continuam a ressoar em nós.

 

 

Estudantes dentro de uma sala de aula do PAIGC em uma escola primária nas áreas liberadas, 1974.
Crédito: Roel Coutinho, Guinea-Bissau e Senegal Photographs (1973–1974)

 

O projeto de libertação nacional que o PAIGC iniciou tinha dois objetivos simultâneos:

  1. Derrubar as instituições coloniais de opressão e exploração.
  2. Criar um projeto de reconstrução nacional para buscar a libertação econômica, política e social do povo que se oporia aos resíduos tóxicos deixados pelas estruturas coloniais nos corpos e mentes.

Até 1959, não existiam escolas secundárias na Guiné-Bissau, controlada pela monarquia portuguesa desde 1588. Em 1964, o primeiro congresso do PAIGC, sob a liderança de Amílcar Cabral, fez a seguinte promessa:

Criar escolas e desenvolver a instrução em todas as áreas libertadas. […] Melhorar o trabalho nas escolas existentes, evitar um número muito elevado de alunos que pode prejudicar o aproveitamento de todos. Criar escolas, mas ter em conta as possibilidades reais para evitar que depois tenhamos que fechar algumas escolas por falta de meios. […] Criar cursos especiais para formação e aperfeiçoamento de professores […] Criar cursos para ensinar a ler e a escrever aos adultos, sejam eles combatentes ou elementos da população. […] Criar, a pouco e pouco, bibliotecas simples nas zonas e regiões libertadas, emprestar aos outros os livros a que dispomos, ajudar outros a aprender a ler um livro, o jornal e a compreender aquilo que se lê.

Quem sabe deve ensinar quem não sabe, diziam os quadros do PAIGC, conforme se empregavam muitos esforços para ensinar alfabetização básica, a história de sua terra e a importância de sua luta pela libertação nacional.

 

A student uses a microscope during a PAIGC medical consultation in a college in Campada, 1973. Source: Roel Coutinho, Guinea-Bissau and Senegal Photographs (1973–1974)

Estudante usa um microscópio durante uma consulta médica do PAIGC em uma faculdade em Campada, 1973.
Crédito: Roel Coutinho, Guinea-Bissau e Senegal Photographs (1973–1974)

 

O nosso estudo explica todo o processo do sistema educativo criado pelo PAIGC, incluindo uma avaliação das formas e práticas educativas. Central para o estudo é um olhar atento sobre a pedagogia do PAIGC e seu currículo anticolonial e centrado na África. Como observa nosso estudo:

As experiências do povo africano, seu passado, seu presente e seu futuro tinham que estar no centro dessa nova educação. Os currículos escolares precisavam lidar e serem moldados pelas formas de conhecimento que existiam nas comunidades locais. Com essas novas abordagens, o PAIGC pretendia cultivar nos estudantes um sentido pessoal de obrigação para consigo próprios, com seus pares e com suas comunidades. Já em 1949, Cabral defendia que a produção de conhecimento se concentrasse nas realidades africanas existentes através das suas experiências de investigação sobre as condições agrícolas em Portugal e nos seus territórios africanos. Ele argumentou que uma das melhores maneiras de defender a terra era aprender e entender como usar o solo de forma sustentável e melhorar conscientemente os benefícios que obtemos dele. Conhecer e compreender a terra era uma forma de defender o povo e seu direito de melhorar suas condições de vida.

O estudo é cativante, uma janela para um mundo que foi vencido pela austeridade do ajuste estrutural do Fundo Monetário Internacional que arrasta a Guiné-Bissau para a turbulência desde 1995, com uma taxa de alfabetização perto de 50% – chocante para um país com o tipo de possibilidades de libertação postas em marcha pelo PAIGC. A leitura do estudo abre janelas de outrora, esperanças que continuam vivas enquanto nossos movimentos permanecerem atentos e retornarem à fonte para construir futuros melhores.

 

 

Watch the Video

Cesária Évora (Cabo Verde) sings Amílcar Cabral’s poem ‘Regresso’, 2010.

 

O líder do PAIGC, Amílcar Cabral, foi assassinado em 20 de janeiro de 1973, um ano antes de o colonialismo português sofrer uma derrota histórica. O PAIGC sofreu com a perda de seu líder. Em 1946, Cabral escreveu um poema lírico, “Regresso”, que apontava para a ética do movimento pelo qual deu a vida. “Retorno” era um termo importante no vocabulário de Cabral, a frase “retorno à fonte” era central em sua visão de que a libertação nacional deve tratar o passado como um recurso e não como um destino. Escute a grande cantora de Cabo Verde, Cesária Évora, declamar o poema de Cabral acima, e leia abaixo, uma porta para as esperanças que temos de uma educação libertadora:

 

Mamãe Velha, venha ouvir comigo
O bater da chuva lá no seu portão.
É um bater de amigo
Que vibra dentro do meu coração

A chuva amiga, Mamãe Velha, a chuva,
Que há tanto tempo não batia assim…
Ouvi dizer que a Cidade-Velha
– a ilha toda –
Em poucos dias já virou jardim…

Dizem que o campo se cobriu de verde
Da cor mais bela porque é a cor da esp’rança
Que a terra, agora, é mesmo Cabo Verde.
– É a tempestade que virou bonança…

Venha comigo, Mamãe Velha, venha
Recobre a força e chegue-se ao portão
A chuva amiga já falou mantenha
E bate dentro do meu coração!

 

Cordialmente,

Vijay.

terça-feira, 19 de julho de 2022

16 de julho de 2022. Entrega dos arquivos e a memória da UGES para o CEDEM, o Centro de Documentação e Memória da UNESP




 16 de julho de 2022. Realizei a entrega dos arquivos e a memória da UGES que estavam sob minha responsabilidade para o CEDEM, o Centro de Documentação e Memória da UNESP. Foi com orgulho e certeza que esse acervo agora estará preservado para pesquisadores/as do Brasil e do mundo que poderão resgatar e preservar a memória das lutas de inúmeras gerações de estudantes que ousaram sonhar e lutar por uma sociedade justa, igualitária, anticapitalista e de direitos humanos e sociais.


A UGES foi e é uma escola permanente viva na história e na coragem da juventude brasileira. Lá, onde a partir dos meus 14 para os 15 anos comecei minha militância política. Foi minha escola de valores humanos, de amizades e companheirismo. Carrego na alma e no coração meus tutores, mestres e guerreiros e guerreiras que me formaram. Pode ser que eu seja injusto em não citar algum nome, a falha é humana. Mas sei que não vamos parar por aqui. Quero agora seguir na fase de colher as histórias orais de cada um e cada uma que fez parte da UGES e foi esse forte coração de estudante!

Aos compas David Fumyo, Luis Claudio e Valdir Ramos Cunha. Aos que me acolheram Luciano, Marcos Silva, Marina Pinto (em memória), Jairo, Janecleide, Benedita, Wagner (de Arujá) entre tantos. Aos que militaram ombro a ombro Rover Marinho, Edlene, Marcos, Andre, Olívia Andreoli, Sidnei, a companheirada das escolas estaduais que visitei passando por debaixo de catraca de ônibus, andando a pé e seguindo no passo da luta! Agradecimento a minha companheira Tati Lima, que está sempre ao meu lado e Edvaldo Belussi companheiro e amigo, que me acompanharam nesse momento.

E aos e ás companheiros/as do CEDEM que fazem da universidade pública um lugar de resistência das lutas coletivas da classe trabalhadora. Muito feliz mesmo! Uma felicidade que não cabe no peito.

quinta-feira, 14 de julho de 2022

Debate necessário. O que os socialistas e comunistas devem fazer nesse momento?

As reflexões de Zé Paulo seguem necessárias e nos provocam para sabermos no momento histórico atual: "O que os socialistas e comunistas devem fazer nesse momento?"

Abandonar a luta democrática? No ponto que ele nos diz que "comunismo e democracia se combinam", tenho total acordo e tem sido uma perseguição minha desde o mestrado até o doutorado, apesar de ter me aprofundado em um método especifico, os orçamentos participativos. Mas minha questão vai além e ele sempre responde com uma frase que para mim é certeira: "um regime que tem medo livros, não tem como se sustentar" e de fato não basta uma direção revolucionária que indique os desafios econômicos do alto de um comitê central, sem esse processo que agregue os e as maiores interessados/as na transformação da sociedade que é classe trabalhadora.

Ele toca em algo que para mim ainda é um trauma político-pessoal. O dever de insurgir no processo eleitoral, de utilizar o sistema, de ter a tribuna como trincheira (como ensinou Lauro campos), ocupar o parlamento burguês para nosso agitprop, para golpear as representações burguesas enquanto a classe se organiza nas ruas, nos locais de trabalho, nos bairros, enfim, é duro saber se você é capaz de assumir uma tarefa, e de fato qual deve ser o papel dos socialistas e comunistas nesse momento? Se ausentar? Assumir tarefas pequenas no dia a dia da classe? Ou seus quadros devam assumir de fato as responsabilidades que o tempo histórico nos exige?

Não tenho respostas. Porém, depois de assistir essa aula fica a duvida: a provocação do velho marxista dirigida a nós é uma convocação para uma tarefa.

Sempre aprendi que não há tarefas boas ou ruins, na luta de classes há tarefas. Cabe o militante exercer sua práxis seguindo a diretriz do bom comandante soviético (Lenin), onde "não há prática revolucionária, sem teoria revolucionária".

Já faz um tempo que desiludi com o jogo democrático, onde joguei com peças erradas e aprendi uma valiosa lição: "nunca abandone seus princípios e o militante que você é, pois foram com estas qualidades que avançamos. Desviadas por orientações ruins, o gosto amargo da derrota é mais pessoal do que da classe".

Voltemos a essas reflexões em breve.

Recomendo que assistam, do começo ao fim!


terça-feira, 7 de junho de 2022

É luta de classes porra!


 


Intimidação, discurso da servidão e inversão da lógica da exploração. Você pode não entender desses conceitos, mas é vitima deles. Classes sociais são básicas de explicar, basta saber quem apenas vive dos lucros do trabalho alheio e quem tem apenas o seu trabalho para vender. Se você é a segunda opção, bem vindo, com ou sem varanda no apartamento, você é um fudido. E se mesmo assim você insiste em achar que a mágica da riqueza está pelas mãos de quem te contrata e não pela sua força de trabalho, você é um estupido. Capacho também.

Século XXI e a máquina de guerra ideológica do capitalismo financeiro consegue de forma homeopática erradicar as conquistas político culturais que foram forjadas no tempo histórico da sociedade moderna e de forma larga estabelecer uma "idiotização" da sociedade que produz com rapidez gente ignorante, inclusive na sua própria classe e convertendo a democracia liberal em idiocracia (a sociedade e o Estado dos idiotas). 

Quando o escritor e jornalista Luis Fernando Verissímo criticou nossa colonização a partir dos estrangeirismos cada vez mais presentes pela língua estadunidense, vulgarmente chamada de "inglês", ele também estabelece a conexão com o que é relevante nessa colonização idiocrática do capitalismo financeiro influenciada pelo "modo de viver" estadunidense que pós segunda guerra expressa as piores cretinices do mundo moderno e na constituição do neoliberalismo durante o governo Ronald Reagan a lógica do "viva esse momento" (e foda-se o planeta e quem mais viver nele) ganha contornos cada vez mais gritantes.

Eu assistia o filme "O lobo de Wall Street" e imaginava que era um boa critica ao sistema, mas observando melhor não. É a reprodução escarrada da velha forma neoliberal de viver, onde mesmo condenado, a engrenagem do sistema que são os operadores financeiros e suas fábricas de morte ainda são no final condenadas juntas, pois, se haviam gananciosos querendo "ganhar" dinheiro fácil em um sistema financeiro de risco, estes também são culpados. No final, a perseguição ao operador do sistema e seus cumplices era nada mais, nada menos uma resposta de auto-proteção do próprio sistema, que precisa (aí sim) regular usando o Estado contra os "maus capitalistas". 

Porém, esse nível de reflexão é alto demais para o que eu queria tratar. O buraco é mais embaixo e o nível dos operadores do sistema de classes é muito raso. 

Ouvir em pleno século XXI que um trabalhador se dispor a defender seu trabalho e seus colegas é um perigo e que pode trazer prejuízos a si é um discurso que atravessa o tempo desde que o capitalismo é capitalismo.

Outra coisa é a frase velhaca do "se não gosta dessa empresa peça demissão" remete a uma dimensão de imbecilidade que me faz pensar como certas pessoas tiram títulos acadêmicos, já que sua fala remetem a um clichê que nem faria parte do roteiro do um Guarnieri quando escreveu "Eles não usam black-tie". Como se a condição do local de trabalho fosse uma questão de escolha e como se os patrões estivessem dando um "favor" aos trabalhadores.

E ainda tem a narrativa mais tosca: "os donos trabalharam de baixo para chegarem onde chegaram". Acreditar nisso é no mínimo viver numa bolha digna de "estudar em casa" (ou home escolacho como está sendo discutido pela orda bolsonarista).

É queridas e queridos, vida não tá fácil. Tecnologia no capitalismo não é dado de avanço da humanidade. É apenas ativo ou "commodities" do mercado financeiro, porque em termos humanos estamos indo ladeira a baixo pela sociedade da financeirização. 

Entre o "reino da ignorância" e a "ditadura da maioria", fico com a segunda como bom leninista!  


domingo, 22 de maio de 2022

Voto em Lula é resistência institucional ao projeto fascista de Bolsonaro!

 



Deixa explicar uma coisa sobre minha militância partidária. Filiado desde 1998, mas militante desde 1996 sempre militei na esquerda do PT. Militante não ativista. Ativista vai nos eventos, se envolve mas sem organicidade. Eu militei. Como bom leninista e guevarista me envolvi em tudo: base, direção, delegação, articulação, mobilização, enfim, sempre tratei o PT como um partido da classe, por isso nunca fui lulista, recuar era um pecado contra classe.

Das boas lutas internas tenho orgulho de ter pertencido e apoiado a tese Socialismo ou barbárie de 1998, de ser contra o recuo programático desse ano e ter apoiado Greenhalgh para deputado federal "o advogado do MST", quando a coordenação se distancia do mst naquela eleição, em 2002 participei da ocupação do palco do auditório Elis Regina em SP contra aliança com Quércia, em 2006, em 2010 e 2014 seguimos questionando as alianças, mas sempre apoiando como um militante disciplinado, de partido.

Agora após o golpe de 2016 e a vitória eleitoral do fascismo bolsonarista, seguirei, mesmo não militando no partido desde 2014, mas filiado, respeitando posição, com direito de exercer minha crítica. Votar em Lula agora é um ato de resistência provisória, sem ilusões quanto o programa ou alianças. Agora o que o meu campo de esquerda, socialista e revolucionário construiu nesse período de 20 anos? Nada significativo, com suas lutas internas e egos inconciliáveis estagnamos e ainda somos subsumidos por uma visão de esquerda liberal.

Diante disso, não me considero incoerente, por estar no partido sigo sua deliberação. Não estou indo contra meus princípios, meu voto é pontual e tático contra um mal maior. Quem quer manter sua consciência "limpa e cristalina" siga. Mas seja coerente quando a resistência contra o fascismo exigir irmos as vias de fato. Eu tenho 42 e vivi e vivo resistências, sem problemas para enfrentar fascista na voz ou no braço. Só que a realidade impõe necessidades sobre nossas vontades, sigo as lições de Marx e Lênin, para quem recuar é apenas preparar a reação de classe. Que as experiências de Mao na China e da resistência argelina nos indiquem que aqui o momento é expulsar o miliciano do Planalto. Voto Lula sim.

quinta-feira, 21 de abril de 2022

Fases passam, egoísmos a parte, seguimos em frente!



É possível se definir a partir de músicas? Sim, só a produção humana é capaz de desse auto presente que podemos nos oferecer, a nós e a quem nós queremos bem e porquê também não para os que pouco te conhecem. 

Não sei a relevância desse blog. Vejo as visualizações, ok. mas não sei até que ponto isso é importante para quem acompanha e lê, as vezes acho que esse é um diário online ou virtual como queiram. Não mantenho regularidade. portanto imagino que os que seguem dedicam atenção a este escritor relapso a mesa atenção que mereça, descompromissada.

Aqui não é profissional, não tenho revisor e minha gramatica é péssima. O que me salva é a capacidade de juntar palavras, formar frases e dar coerência as ideias que estão sendo difundidas. Ah, o corretor do computador ajuda muito também.

No histórico eu já fiz meu balanço diante da crise pessoal e política que passei. Eu sei quem sou e repito, sou militante, assumi compromisso com a causa que defendo e acredito, contudo, vivo o meu tempo histórico. Me reconheço leninista, sei a responsa desse legado. Não intelectualmente, mas na práxis. Já disse também que como pesquisador segundo as instituições (mestrado e doutorado) não sou um intelectual, sou um curioso, além de descobrir que sou um tanto preguiçoso para os jogos mentais que a profissão de intelectual exige na forma atual do Estado e das próprias instituições. As entranhas desse lugar esconde no fino trato dos discursos eruditos uma crosta bruta de arrogância, luta pelo poder individual e constante rendição/ conformação aos privilégios garantidos pela instituição.

Tentei na ilusão achar que a minha débil experiência como docente do ensino superior privado e meu tempo de militância pudessem constituir um lugar na máquina estatal educacional, e lá me realizar para construir um lugar de resistência. Venho a conjuntura, o golpe de 2016, governo Temer e desgraçadamente Bolsonaro em 2018, somada a isso esse lugar dava sinais, como estudante-pesquisador, que era um espaço restrito a um tipo especifico de profissional, do qual não tenho capacidade para tal. Os sacrifícios não compensariam os possíveis, possíveis ganhos.

De lá pra cá superação dos dilemas, encontros e reencontros, afastamentos necessários e novas relações pessoais e políticas me renderam mais bônus do que ônus no caminho que quero trilhar para frente. Superei parte da minha relação com o PT, após quase vinte anos militando na esquerda do PT, sigo os ideais, mas não os seus condutores. Prefiro errar sozinho. 

O pensamento liberal é um fato majoritário para quem se reivindica de esquerda no Brasil, pensando que a classe dominante em cada fase da nossa história sempre tratou seus "inimigos internos" com força coercitiva preventiva sem dó nem piedade, pós 1988 as gerações, em especial na classe trabalhadora média foram assumindo um formação individualista da política, estudando por conta própria e contaminada pela lógica liberal da opinião individualista, pulverizando qualquer tentativa de coesão e coerência em torno de um programa que carregue um projeto societário. Nesse caso, Lula é expressão dessa intelectualidade orgânica, que fruto do desenvolvimentismo capitalista e tão subjugado historicamente, prefere amenizar a dor dos setores subalternos da classe. 

Não tiro a razão disso. Enfrentar a fome está na base da formulação de Herbert de Souza (Betinho) e corrobora com as reflexão critica de Paulo Freire, Josué de Castro, Nise da Silveira, Celso Furtado, entre tantos pensadores fundamentais e que defenderam um projeto societário convergente de Brasil. Mas Betinho também complementa sobre a democracia onde não adiantará falar de democracia ou luta para famintos, alimentar o estomago e as consciências. No lulismo, por emergência, alimentamos o estomago, mas a ausência de alimentar as consciências provocou uma reação indigesta em 2013, um golpe em 2016 e o fascismo em 2018. Lula e o PT não são culpados, é a ausência de culpa que pode tornar ambos responsáveis, ou seja, quando Lula sinaliza que revogará a reforma trabalhista (e não é a única a ser revogada) dá sinais de que pretende reestabelecer o equilíbrio de forças entre capita e trabalho. Porém, joga pra galera, ou seja, para os trabalhadores/as a responsabilidade para revogar as demais reformas (previdenciária, PEC do Teto de Gastos e outras).

Parece simples, mas não é. Por isso resolvi manter uma relação de "filiação afetiva" no PT, sem militância no momento, já que o partido não precisa nem das minhas reflexões e nem do meu esforço militante. Pelo menos é o que indica cada decisão, postura, deliberação, inércia, ausência e outras coisas que não me mobilizam.

Outro lugar que eu preferi estar bem longe é do corporativismo. E digo isso da minha profissão, o Serviço Social. Como militante que contribui para as entidades da categoria, meu maior respeito, como docente jamais irei criticar ou não incentivar a participação seja de estudante ou outro sujeito. Contudo, uso meu direito militante para contestar o que tem se tornado recorrente e incoerente nas elites pensantes da profissão, como o marxismo sem Marx, excesso de clichês nas palavras de ordem e um evidente descolamento da realidade da luta de classes, pois, para um politburo tão radical não ser capaz de perceber que há um descolamento das bases, distanciamento até de um movimentismo necessário, as vezes, para aproximar das massas e um medo excessivo de posições contrárias vindas inclusive de militantes do mesmo campo político de pensamento à esquerda denotam (ou detonam) o pluralismo tão defendido nos princípios. Um institucionalismo cada vez mais latejante, engessado e incapaz de dar respostas ao que o momento histórico exige e uma evidente dificuldade de dar direção de fato à categoria diante das crises do movimento das forças do capital, vide a confusa orientação frente a pandemia e a realidade do exercício profissional no desmonte progressivo das políticas públicas e sociais.

Terceirizou mesmo e temos que admitir, faz urgente um congresso que reafirme princípios, enfrente divergências e atualize o programa de lutas e resistência da profissão. Ou seremos derrotados pela osmose tecnicista.

Por isso e outras questões no campo político, me afastar deu uma reatualização  do meu papel de classe, que é não me isolar no pequeno mundo corporativista do Serviço Social, pois, a verdade marxista não pertence a nós, nunca pertenceu, pertence a classe trabalhadora. Respeitar ou divergir das deliberações ou posições é direito conquistado no processo de lutas classista. Não querer participar traz o ônus que assumo, assumindo que há um mundo inteiro para ocupar. Nunca fecharei questão eterna, caso perceba disposição para enfrentarmos nossas questões e seguir em frente, sou um bom soldado.

E nesse momento me descobri militantemente. Sempre fui um bom soldado. Das direções que pertenci a mim estava reservado o que melhor eu sei fazer: organizar, articular, formar e argumentar na defesa dos interesses coletivos a que estou vinculado, sou um bom soldado marxista-leninista, ok, bom saber o meu lugar na luta de classes. Chega de insistir em ser o que não é. Não sou um bom condutor, coordenador ou dirigente, nunca fui escalado para essa tarefa, sou um bom soldado com a qualidades que aprimorei ao longo da vida.

Reconhecendo isso, estou livre para perseguir projetos que contribuam para luta de classes. Sai o PT, sai as instituições da categoria, vem as tarefas sindicais na docência e no serviço público, vem a preservação da memória da classe trabalhadora, por onde militei, vem as responsabilidades de tio, padrinho e sujeito da história. 

No horizonte há uma força política que emergiu das latrinas e ocupou em curto espaço de tempo muitos espaços de poder, esse neofascismo que sustenta a nova fase do capitalismo neoliberal é corrosivo e perigoso. Não fortalecemos o lado de cá, então para resistir ainda, seguimos pelas armas que temos, assim vou votar em Lula e na sequencia em representações do pensamento político ideológico alinhado a minha militância.

Seguir na formação, formação e formação. Como disse Che Guevara, "criar um, dois, três Vietnãs", ou seja, criar um, dois, três levantes populares, polos de resistência, enfim, o que for necessário para o agora e o depois!

Duas músicas fecham essa fase, expressam meu momento de reflexão interna que começou em 2014 e me representa em vida:


  



domingo, 27 de março de 2022

2022, vamos sambar! Lulalckimin não é reedição de 2002, mas é o que sobrou para uma esquerda que prefere o ostracismo.

A semana esquentou. Alckmin no PSB com afagos para Lula (ver: https://twitter.com/UOLNoticias/status/1506653851730030598), Pastores evangélicos em guerra pelos recursos do MEC - MINISTÉRIO da Educação, pesquisa Datafolha confirmando favoritismo de Lula em todos os cenários de segundo turno e "Lulapalooza".

Para saber: votar em Lula agora é garantir um tipo de estagnação do bolsonarismo, e não a sua derrota. Isso é bom? Diante do quadro atual de destruição dos serviços públicos e riquezas ainda restantes sob controle do estado brasileiro.

O voto ideológico no Brasil tem extremos e uma massa no meio, não há nenhuma força político partidária que possa afirmar que detém uma base eleitoral capaz de ser ideológica, mesmo no PT há um percentual que deve beirar 30% dos seus filiados/as (é muito internamente, mas não na disputa da sociedade) que se enfrentam em tendências, correntes, teses e grupos, que também se cruzam e entrecruzam já que há recuos e mudanças na base. Quem quer saber se isso se comprova é ver no espectro das chapas que concorrem ao PED (eleições internas), onde devemos olhar para os votos nas chapas e não nas candidaturas ao cargos da presidência do partido. A própria esquerda do PT, que seria oposição a lógica recuada perdeu muito nos últimos anos, não conseguiu reagir numa "onda" classista e hoje, mesmo dividida, se unida teria cerca de 15%. Os demais são o centro-esquerda, centro e os majoritários que logo em breve deveriam ser denominados liberais de esquerda (desse último, o Lula faz parte, mas na sua narrativa isso não importa).

Então, votar em Lula não é votar na esquerda? Podemos afirmar que votar em Lula é votar num novo projeto de desenvolvimentismo. Ponto! 

Resolvido isso, podemos na esquerda ficar tranquilos. Na história eleitoral, a esquerda já tomou decisões mais difíceis, seja quando Prestes pelo PCB apoiou Getúlio Vargas na década de cinquenta, Brizola recuou pela posse de Goulart, o PT apoiou Covas contra Maluf, enfim, não precisamos concordar, mas reconhecer que esse momento histórico agora é nosso e é nosso abacaxi para descascar.

Por isso, se você reconhecer que no espectro das candidaturas  da terceira via as opções são inseguras e mais do mesmo ou fascismo de gravata ou neoliberalismo-fascista, diante do capital político do grande líder dos povos isso limita a um primeiro turno com cara de segundo turno. 

Parece simplismo, pois não considerei Ciro Gomes. Muito pelo contrário, o novo trabalhista é o antigo tucano que foi o antigo socialista, como também o último ministro dos governos Lula, ou seja, fez escolhas e está sendo avaliado por elas, o resto é propaganda eleitoral.

Já é diferente do novo convertido, sr. Geraldo Alckmin. Primeiro, não há comparação entre José de Alencar e Alckmin. Alencar faz parte de uma articulação com o capital empresarial-industrial, é parte da "carta aos brasileiros" é outro momento da história. Alckmin é a expressão da chamada "radicalização da sociedade", e vai representar a unidade dos extremos pela "pacificação do país", é o novo-velho desenvolvimentismo capitalista em bases seguras. E para aqueles que gostam de fazer comparações (coisa horrível em política) podemos dizer que é uma aliança JK-Lacerda, e quase deu certo quando tentaram a "frente ampla" contra a ditadura militar.

Nesse momento histórico fizemos inúmeros ensaios, análises, avaliações, novos rumos, etc, etc. O termo trabalho de base voltou pós 2016, sem definir que tipo?, pra que?, que programa?...ou seja, palavra vazia, em 2018 a resistência eleitoral com Haddad-Manuela só provou que a unidade do campo de esquerda faz diferença para uma parcela do eleitorado que percebe ameaças a democracia, mas é limitada, e parte da classe assalariada média compõe esse grupo. E de 2019-2022 se não fosse inclusive pela pandemia, nunca saberemos o que seria viver um governo fascista sem essa interrupção mundial. 

Então, voltamos para o principio: em 1989 a candidatura de Lula foi a ameaça da classe trabalhadora pós ditadura militar, isso deu folego e alimentou sonhos es esperanças. em 2002 a vitória de Lula ocorre com um outro PT, já maduro na institucionalidade e certo de que precisa se agarrar nisso para construir seu projeto de poder (que para nós, da esquerda ainda ficou confuso, ainda mais com Meireles no Banco Central), porém, a direita e burguesia não falham, seguem fazendo o que melhor fazem a muito tempo, manter seu controle político ideológico e hegemônico.

Então, no momento é momento de estancar a sangria. O que virá depende de novo da questão: ainda há luta de classes? (para mim com certeza, mas isso não basta)