domingo, 9 de julho de 2023

#tôcomMST sempre, na luta!

#TôComMST CPI do MST: assine carta em defesa da Reforma Agrária Popular e dos movimentos sociais Assine a Carta de Solidariedade ao MST diante da CPI e apoie a campanha contra a criminalização dos movimentos sociais Notícias 6 de julho de 2023 Da Página do MST O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) é uma das mais importantes organizações sociais do Brasil, que há quase 40 anos luta pela justiça social, pela reforma agrária e por um projeto de transformação social do país. A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do MST, em curso atualmente, tem como objetivo principal criminalizar e desacreditar o trabalho de trabalhadoras e trabalhadores rurais, que lutam por direitos fundamentais, como acesso à terra, moradia digna, educação e saúde. Ao longo de sua trajetória, o MST tem se pautado pela não violência, pelo diálogo e pela construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Seus acampamentos e assentamentos se tornaram referências em agroecologia, produção de alimentos saudáveis e formas sustentáveis de desenvolvimento agrícola. Além disso, o MST tem se engajado na defesa dos direitos das mulheres, na luta pela educação popular, na promoção da igualdade de gênero e na valorização da cultura popular. A tentativa de criminalizar o MST é uma afronta à democracia, aos direitos humanos. A manifestação e a luta por melhores condições de vida não podem ser criminalizadas. Por isso, apoiadores e apoiadoras da luta pela terra e da Reforma Agrária Popular têm se unido em torno da campanha #TôComMST, pela defesa do Movimento Sem Terra. Um dos conteúdos desta campanha é a Carta em favor do MST, que convida cidadãos conscientes e comprometidos com a justiça social a se unirem à campanha de assinaturas em apoio ao MST. A realidade agrária, a estrutura de propriedade injusta, certamente não serão objeto de pesquisa e análise pela CPI, por seu plano de trabalho. E todos sabemos quantos crimes são cometidos no meio rural, pelas classes abastadas e as formas de exploração da natureza, que afetam toda sociedade brasileira”. – Trecho da Carta sobre a CPI contra o MST e contra a Reforma Agrária. Apoiar o MST é apoiar os trabalhadores e trabalhadoras rurais, é lutar por um país mais justo e por dignidade ao povo Sem Terra. É garantir que as futuras gerações tenham acesso à terra, à educação, à saúde e a oportunidades dignas de trabalho. É valorizar a agroecologia e a produção de alimentos saudáveis, respeitando o meio ambiente. Ao assinar essa campanha, você estará dizendo não à criminalização dos movimentos sociais e sim à defesa dos direitos humanos e da justiça social. Junte-se a nós e faça parte dessa luta pela transformação de nosso país em um lugar mais justo e igualitário para todos, todas e todes. Leia a carta na íntegra e assine em www.mstemdebate.com.br *Editado por Solange Engelmann

quinta-feira, 4 de maio de 2023

CADEIA PARA BOLSONARO E SUA FAMÍLIA.

 



POR QUE O MST ASSUSTA TANTO? - Por Frei Betto

 

segunda-feira, 24 de abril de 2023

A anestesia que toma conta do PT, nova etapa! (a experiência Lula 3)

 



Fora de mim não acreditar! Creio na humanidade, na força da luta, na pedagogia do exemplo, nas coisas que importam de fato para vida, enfim, se crer é acreditar preferia acreditar que o Lula encarcerado, cerceado, reflexivo e destemido tenha urgido das trevas do lavajatismo e do fascismo da ditadura jurídico política de Moro com a coragem que os e as injustiçados (as) alimentam seu retorno.


Não esperava de Lula vingança, mas reflexão crítica sobre quaos devam ser as tarefas mais urgentes da classe trabalhadora. Se ele leu mesmo Piketi e pode com tempo e calma observar os mortos e desvalidos dos escombros da vitória neoliberal, deve ter refletido sobre o quanto é limitado apenas buscar flerte com uma força da economia capitalista que além de impopular é destrutiva, o setor financeiro.

Se é verdade em seu discurso ao sair do cárcere de Curitiba de que juventude deveria assumir os rumos das próximas batalhas. Faltou dizer isso ao PT nas últimas eleições, até onde se sabe, faltou priorizar e quem foi eleito (a), se deu pela sua própria força pessoal e coletiva.

Passamos as festas, a festa do natal, do ano novo e da posse. Ameaça de golpe na primeira semana do ano de 2023 e depois do horror fascista dos camisa verde-amarelo, passaram também 100 dias de governo.

O PT pelo menos tirou lições de 2016? Tudo indica que ainda não. 

As vozes e as atitudes são de um partido que como em 2003, entrou em "modo governo", ou seja, anestesia geral e irrestrita. Preocupado com 2024, deixou a tarefa de enfrentamento ao golpismo ao valoroso ministério dos Direitos Humanos e o da Justiça.

Na contramão da sua própria reflexão sobre ter se empenhado mais na incidência sobre os jovens, a partir do ensino médio, Lula preferiu um MEC dócil à patifes como Lemann e sua quadrilha. A não revogação ou prioridade sobre o ensino médio vai perpetuar uma geração (ou gerações) a luta de uns contra os outros na selva capitalista, gerando novos improdutivos vagabundos, como "influencers", mão de obra barata na uberização do trabalho, poucos e raros quadros formados no ensino superior, ampliação dos "nem-nem", ou seja, podemos até voltar a "comer picanha", mas na roda dos jovens o diálogo pode ser a disseminação de fakenews, ou na simbologia que me incomoda até hoje, quando em 2008 retornando de uma atividade de trabalho na linha vermelha do metrô, jovens universitários que ascenderam com as políticas sociais do lulismo, carregavam de baixo dos braços uma revista "Veja", símbolo do protofascismo que iria jogar nas trevas a sociedade brasileira a partir de 2016.

Como é rápida a adaptação das forças internas para a anestesia partidária. O que se vê ligeiramente são os discursos do "deixa disso" ou da defesa cega do governo contra o bolsonarismo. Ou seja, bolsonarismo que deveria ser combatido por nós, vira apenas estandarte para a adaptação do partido ao governo, uma rendição com retórica radical.

A mesma conversa mole de preservar as direções até as eleições de 2024 para que  a "democracia interna" não atrapalhe as articulações eleitorais, velha forma de ampliar mandatos das direções e tornar o golpe menos duro, bastando usar uma desculpa estratégica.

Essa anestesia apenas retarda as capacidades do partido ser partido. Ninguém nega que o PT seja o partido do governo, como ninguém nega que o PT é apenas mais um partido na coalisão de governo, e que novamente reafirmou sua dependência enorme no "grande líder dos povos". 

Sem crítica e sem estratégia política, faz das eleições sua única frente de atuação. Esquece do golpe de 2016, esquece da tragédia de 2018, esquece do desgoverno de 2019 a 2022, prefere simbologismos midiaticos em vez de decisões políticas urgentes para combater o fascismo bolsonarista. 

A voz corrente é de que é cedo para julgar. Bom, não estamos falando de um presidente novato, nem de um governo novato e muito menos de um partido novato no poder da República. Nessa conjuntura, o tempo é inimigo sim, pois o esgoto das redes por onde resiste é rápido em preservar narrativas, em criar símbolos e criar crises. A máquina estatal não será dócil à funcionalidade do lulismo, irá percorrer pelas veias da estrutura corroendo, corrompendo e  cooperando com a implosão do governo na menor escorregadela.

Não é novidade que a burguesia odeia a pretensão do PT e de Lula em enfrentar a pobreza. Indiretamente, enfrentar a pobreza  é enfrentar a burguesia, causando estranhezas de ambos os lados, sendo maior estranhamento da própria burguesia. 

segunda-feira, 20 de março de 2023

"Quando uma Universidade Morre"

Fonte: imagem do Google


É possível uma universidade "morrer"? Não estamos falando do seu prédio físico, mas do elemento humano que da vida a simbologia, função social e existência de um lugar, mesmo que de concreto e aço, possa "ganhar vida". Longe de querer argumentar sobre a humanização das coisas, como bem Marx soube nos apresentar. 

Uma noite dessas de verão, quando a luz natural compete com a luz artificial, a imagem daquele prédio imponente da UNG (Universidade de Guarulhos) fez refletir sobre aquela forma geométrica que decora as janelas e que me fizeram lembrar do seu significado. Pensado justamente para ser o símbolo que a própria instituição ostentava, destaca de forma única esse prédio dos demais vizinhos a ele. 

Nem mesmo o crescimento ao redor de novos edifícios tira o destaque que o prédio da Universidade dá no horizonte. Essa reflexão não vem com nostalgia, mas vem com uma dor e tristeza. A UNG é uma instituição privada de ensino superior, ponto! 

Porém, ela nasce num momento da história em que a busca pela excelência acadêmica geravam disputas interessantes no setor. Uma delas é a busca do setor privado de ensino buscar se equiparar ao setor público. Portanto, buscar excelência era buscar docentes, era desenvolver pesquisa, ter laboratórios, competir, se necessário, para superar o setor público. 

 O campus deveria ter, pelo menos, a imagem de um lugar tão igual ou parecido ao campus de uma USP, Unesp ou Universidades federais de ponta. Com uma diferença fundamental: era para dar lucro. E mesmo assim, o tempo que fez a UNG ter a chancela de universidade era a mesma que qualquer uma do setor público e podendo disputar a fatia dos investimentos em pesquisa como tal. 

Outros tempos. Não queremos dizer que o passado era bom. Tinha seus erros, grandes erros. Mas, mesmo assim sua comunidade acadêmica gozava dos mesmos benefícios e responsabilidades acadêmicas que uma universidade deve exigir. 

Algo mudou na segunda década do século XXI, o capitalismo avança para sua evolução financeira e financista, fim dos capitalismos nacionais, da empresa familiar, enfim, a lógica da exploração reúne novos instrumentos que se somam aos tradicionais. A máquina que moer carne, agora seduz e explora sutil e ferozmente. 

A UNG pela legislação ainda é uma universidade, ainda deve seguir o tripé "ensino, pesquisa e extensão" e alguns ritos acadêmicos são realizados, como as colações de grau. Voltando a morte possível da universidade. Cada luz de uma sala de aula que se apaga é a falência desse "prédio" que só tem vida pela intensa relação entre estudantes, professores e funcionários que se trombam freneticamente nos corredores. É a morte de sonhos. 

Quando comecei a lecionar em 2014, tudo era desafiador. Preparar a aula, não vacilar, realizar bons debates e estudos, não poderíamos ter menos que doze horas-aulas, atividades acadêmicas, defesas de TCC's, exposição de painéis com os projetos de pesquisa, semanas acadêmicas, enfim, tudo era intenso. 

Mas, como todo negócio no capitalismo a UNG não era diferente, foi do mercado acadêmico para o mercado de ações. Entrou na "era moderna" da financeirização do capital, virou um ativo e a comunidade acadêmica virou o passivo da relação. Novas lógicas, novas palavras e velhas práticas. Perda de renda, perda de horas, perda, perda, e perda. 

Sabemos que a erosão da UNG não é apenas dos donos ou sua lógica de "gerenciar essa negócio", temos mudanças na conjuntura econômica, social e política, em tempos de crise econômica o corte de gastos das famílias é certo, e a formação acadêmica sai da lista de prioridades. A queda do financiamento público como FIES e PROUNI impactam. O avanço de uma cultura do "cada um por si" chamada de empreendedorismo, leva a falsa ideia dos cursos rápidos, a distância e baratos. Somado a um Estado que suspendeu e abandonou a ideia de planejamento em 1964. 

A ditadura civil-militar abortou sonhos da geração das décadas de 1940, 1950 e começo de 1960. Celso Furtado, Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Maria da Conceição Tavares, Nise da Silveira, Josué de Castro, enfim, os pensadores brasileiros, foram banidos, silenciados, cassados ou assassinados, uma geração que tinha um sonho de Brasil foi sendo impedida de realizar. 

No ensino superior não foi diferente. Sonho e realidade não fecham a conta. Entre se formar na Universidade e exercer a profissão existe um abismo, o abismo do "cada um por si da porta pra fora". Mesmo o básico do "mantra do capitalismo" sobre diploma e mercado de trabalho são na verdade mentiras, já que a demanda do mercado educacional não precisa estar em sintonia com as necessidades do país. 

Exemplos não faltam desde o número excessivo de alguns cursos até déficit de especialistas em algumas áreas, já que "fazer dinheiro" se sobrepõe ao "exercer a profissão" para conciliar trabalho e sua função social ao interesse coletivo. Esse mal se estende ao setor público de ensino, com a diferença na questão da pesquisa e da extensão, que o setor privado nem valoriza, nem quer investir. 

Dito tudo isso, imaginemos que a UNG não é a única que "está morrendo", os fatos falam por si e mundo corporativo do capitalismo no setor educacional por onde passa deixa um rastro de destruição. 

Porém, para quem fica, vive e resiste o seu lugar é a sua referência. Falei em tristeza no começo desse artigo, triste não pelo prédio e mesmo sabendo que a instituição é privada, ficamos tristes pela inércia atual, pela negligência, já que o "ativo" mais importante da instituição e que segundo seus alunos é o elemento que os prende a ela, o (a) professor (a) segue sendo desvalorizado. 

Assistir a morte de um lugar que poderia pulsar vida ainda é terrível. Nele, ainda estão as memórias e o dever de terminar de cabeça erguida e com dignidade. Triste também pelos que por uma ilusão estúpida acham que serão salvos pela sua excelência acadêmica. 

Não quero desanimar ninguém, mas a o tempo dessa excelência no setor privado está com dias contados. Poderíamos cair na contradição da busca por alunos (as), sim. Justamente por essa maldita alma que carrega a docência. 

As vezes ajudamos indiretamente nossos opressores, em nome dos oprimidos (nós mesmos e os alunos). Tamanha o peso do valor que damos a esse trabalho. 

Aqui termino, não conformado, porém ainda triste. Ver corredores cheios de vida, luzes acessas e intensidade daquela massa de gente, de ideias, sonhos, opiniões, enfim, é a alma desse lugar. A possível morte da UNG só me deixa com uma certeza, nos escombros pode sempre brotar algo. 

Que seja pública e que seja de interesse de toda sociedade.

segunda-feira, 6 de março de 2023

Os que morrem pela vida – como Hugo Chávez – não podem ser considerados mortos | Carta semanal 9 (2023)

Queridas amigas e amigos, Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social. Em 28 de outubro de 2005, um evento especial foi realizado em Caracas na Assembleia Nacional da República Bolivariana da Venezuela. Nessa reunião, realizada no aniversário de Simón Rodríguez (professor de Simón Bolívar), o governo venezuelano anunciou que quase 1,5 milhão de adultos aprenderam a ler por meio da Missão Robinson, um programa de alfabetização em massa iniciado dois anos antes. A Missão recebeu o nome de Rodríguez (que também era conhecido pelo pseudônimo de Samuel Robinson). Uma dessas adultas, María Eugenia Túa (70 anos), ficou ao lado do presidente Hugo Chávez Frías e disse: “não somos mais pobres. Somos ricos em conhecimento”. O governo venezuelano construiu a Missão Robinson com base em um método cubano de alfabetização de adultos chamado Yo sí puedo [sim, eu posso], desenvolvido por Leonela Relys Díaz, do Instituto Pedagógico da América Latina e Caribe (Iplac), em Cuba. Naquele dia, a Venezuela declarou às Nações Unidas que seu povo havia erradicado o analfabetismo. No ano anterior, em dezembro de 2004, Chávez falou na cerimônia de formatura de 433 alunos do programa Yo sí puedo, realizada no Teatro Teresa Carreño, em Caracas. A Missão Robinson, disse Chávez , vai “organizar o exército da luz” que levará a alfabetização ao povo, onde quer que as pessoas morem, levando “Maomé à montanha”. Comentando sobre a jornada educacional de uma das formandas, Chávez descreveu as oportunidades que surgem da alfabetização: “Ela não perdeu tempo e já está aprendendo matemática e geografia, língua espanhola e literatura. E estuda as ideias bolivarianas porque sabe ler. Ela pode ler a Constituição. Pode ler os escritos de Bolívar. Pode ler as cartas que Bolívar escreveu”. O processo bolivariano organizou a distribuição de livros da literatura mundial e de não-ficção para bibliotecas criadas em bairros populares para “nos armar com conhecimento”, disse Chávez. Citando o herói nacional cubano José Martí, Chávez refletiu sobre a relação entre educação, emancipação e a história que está sendo escrita pelo povo venezuelano: “ser culto para ser livre. Saber quem somos, conhecer a fundo a nossa história, aquela história de onde viemos”. Para Rosa Hernández, uma das graduadas, a Missão proporcionou a “clareza porque antes havia trevas. Agora que sei ler e escrever… vejo tudo com clareza”. María Gutiérrez, colega de classe de Rosa, disse que sua entrada no “exército da luz” se deu “graças a Deus, a meu presidente e aos professores que me ensinaram”. Há dez anos, em 5 de março de 2013, Hugo Chávez faleceu em Caracas após uma prolongada luta contra o câncer. Sua morte abalou a Venezuela, onde grandes setores de trabalhadores empobrecidos lamentaram não apenas pela partida de um presidente, mas por um homem que eles sentiam ser seu comandante. Enquanto o cortejo de Chávez passava pela Praça Bolívar, a canção de Alí Primera, de 1976, Los que mueren por la vida [Os que morrem pela vida], soou entre a multidão: Os que morrem pela vida Não podem ser chamados de mortos. E a partir desse momento É proibido chorar por eles. É proibido chorar, cantavam, não porque não quisessem, mas porque estava claro que o legado de Chávez não estava em sua própria vida, mas no difícil trabalho de construção do socialismo. Seis anos após a morte de Chávez, caminhei com Mariela Machado pelo conjunto habitacional Kaikachi onde ela morava, no bairro La Vega de Caracas. Durante o primeiro mandato presidencial de Chávez, Mariela, sua família e outras 91 famílias ocuparam um terreno que havia sido doado a incorporadoras por um governo anterior, mas deixado vazio. Essas famílias da classe trabalhadora – muitas delas afro-venezuelanas – foram diretamente a Chávez e pediram para construir casas no terreno. “Vocês conseguem fazer isso?”, Chávez perguntou a eles. “Sim”, disse Mariela. “Nós construímos esta cidade. Podemos construir nossas próprias casas. Tudo o que precisamos são máquinas e materiais”. E assim, com recursos da cidade, Mariela e seus companheiros construíram seus modestos apartamentos. Um busto de Chávez fica do lado de fora do centro comunitário, onde há uma padaria que fornece pão de alta qualidade a preços acessíveis aos moradores, uma cozinha que alimenta 400 pessoas, um salão comunitário e uma pequena sala onde as mulheres costuram roupas para um negócio que dirigem. “Somos chavistas”, disse-me outra mulher, com os olhos brilhando enquanto segurava uma criança no colo. A palavra “chavista” tem uma ressonância especial em lugares como este. Não é incomum ver camisetas com o rosto de Chávez estampado, e seus icônicos olhos por toda parte. Quando perguntei a Mariela o que aconteceria com Kaikachi se o processo bolivariano acabasse, ela apontou para os prédios de apartamentos vizinhos dos endinheirados e disse: “se o governo cair, seremos despejados. Nós – negros, pobres, classe trabalhadora – vamos perder o que temos”. Mariela, Rosa, María e milhões de outras pessoas como elas – “negras, pobres, trabalhadoras”, como disse Mariela, mas também indígenas e marginalizadas – carregam consigo a nova energia vital da Revolução Bolivariana, que começou com a vitória eleitoral de Chávez em 1998 e continua até hoje. Esse sentimento está resumido na palavra de ordem chavista: “Nós somos os Invisíveis. Nós somos os Invencíveis. Venceremos”. Observadores da Revolução Bolivariana frequentemente apontam para essa ou aquela política para entender ou definir o processo. Mas o que raramente é reconhecido é a teoria que Chávez desenvolveu durante seus 15 anos como presidente. É como se Chávez fizesse coisas mas não pensasse nelas, como se não fosse um teórico do processo revolucionário. Tais atitudes para com líderes e intelectuais da classe trabalhadora são insidiosas, reduzem a força de seu intelecto a uma onda de ações impensadas ou espontâneas. Mas, como Chávez (e muitos outros) mostraram, essa perspectiva é infundada. Cada vez que eu via Chávez, ele queria falar sobre os livros que vinha lendo – clássicos marxistas, certamente, mas também os livros mais recentes da América Latina (e sempre os últimos escritos de Eduardo Galeano, cujo livro, As veias abertas da América Latina, ele deu ao presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, em 2009). Preocupava-se com as grandes ideias e questões da época, sobretudo com os desafios de construir o socialismo num país pobre e rico em recursos (petróleo, no caso da Venezuela). Chávez estava constantemente teorizando, refletindo e elaborando sobre as ideias compartilhadas com ele por mulheres como Mariela, Rosa e María, e testando essas ideias por meio de experimentos práticos em política. As narrativas burguesas são ágeis em descartar a campanha de alfabetização do país, como se não fossem nem um pouco extraordinárias, mas isso perde totalmente sua importância, tanto em termos de sua teoria subjacente quanto de seu imenso impacto na sociedade venezuelana. O objetivo da Missão Robinson não era apenas ensinar as pessoas a ler, mas também que o currículo Yo sí puedo encorajasse a alfabetização política. Como disse Chávez sobre a mulher graduada de Yo sí puedo, em 2004, “ela está estudando as ideias bolivarianas porque sabe ler. Ela pode ler a Constituição. Pode ler os escritos de Bolívar”. Essa graduada se tornaria uma das muitas lideranças em sua comunidade. Outra, Alessandra Trespalacios, participou de programas sociais em uma área miseravelmente pobre e tornou-se liderança do conselho comunitário e posto de saúde da Comuna de Altos de Lidice. São mulheres como Alessandra que começaram a pesar crianças e idosos de seu bairro como parte de sua política de erradicação da pobreza, e que davam aos que estavam abaixo do peso comida extra. “Somos motivados pelo amor”, disse ela, mas também pelas ideias revolucionárias que ela e seus colegas aprenderam com a Missão Robinson. Para comemorar os dez anos da morte de Hugo Chávez, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e o Instituto Simón Bolívar para a Paz e a Solidariedade (Venezuela) têm o prazer de apresentar nosso dossiê n. 61, O pensamento revolucionário estratégico e o legado de Hugo Chávez dez anos após sua morte (fevereiro de 2023). O texto é um relato preliminar da teoria revolucionária de Chávez, construída a partir da necessidade de melhorar a vida cotidiana do povo venezuelano, do desafio de construir programas de moradia, saúde e alfabetização, mas vai além, aprofundando-se em como transformar as relações produtivas do país e defender a soberania da Venezuela e da América Latina do imperialismo estadunidense. É, como escrevemos, uma teoria “viva e totalmente revolucionária” e não “uma receita nem um conjunto de áridas reflexões acadêmicas”. O pensamento de Chávez começa na mesa de uma mulher indígena no coração da planície venezuelana, uma mulher cuja leitura da Constituição de 1999 – ratificada com 72% dos votos a favor – motivou-a a se tornar uma liderança em sua cidade, talvez em Sabaneta (no estado de Barinas), onde Chávez nasceu em 28 de julho de 1954. Esse é sempre o começo de sua teoria. Esperamos que você leia, compartilhe e discuta nosso dossiê para entender melhor a práxis da Revolução Bolivariana. Há alguns anos, Anacaona Marin, uma liderança na comuna de El Panal, no bairro 23 de Enero, em Caracas, me disse: “muitas vezes é feita uma conexão entre o socialismo e a miséria. Em nosso trabalho, por meio do método Chávez, essa conexão será quebrada. Não pode ser quebrado apenas por palavras, mas por ações. Isso é o chavismo”. Cordialmente, Vijay.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

Educação e Governo Lula: desafios para derrotar o fascismo!


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