sábado, 17 de outubro de 2020

Desde quando militância partidária virou palco de auditório?


 


Um Lênin envergonhado diante de tietes de torcida.

2020, além da pandemia mundial, do pandemônio governando de Brasília ainda temos que lidar com o infantilismo que reside na esquerda brasileira.

Entre discursos de amores, unidade, frente ampla, altos abraços e beijinhos nos anos pré eleição, quando a realidade bate a porta caminhamos por onde os pés pisam.

E as direções e personalidades da esquerda brasileira com suas indignações de rede social não construíram nem um programa e nem elementos que pudessem indicar a velha frase, “paz entre nós, guerra aos senhores".

No espectro partidário nada mudou. Ou melhor, com as mudanças promovidas pela maioria golpista e com certo apoio e desleixo parlamentar da nossa esquerda, as mudanças na organização dos partidos apenas fortaleceu o status quo das agremiações consolidadas, mas não trouxe a política programática para o mundo partidário, apenas jogou mais milho aos porcos.

A cláusula de barreira diz corrigir o número de partidos, em geral de aluguéis, e define requisitos para existência jurídica do partido. Mas isso está dissociado do conjunto de maracutaias que vão do apadrinhamento de cargos e vagas, uso da verba partidária para fins particulares, troca troca de legendas, entre outras que ainda mantém o caráter apolítico de um instrumento essencialmente político.

Diante disso, a sobrevivência é a regra. A unidade ou frente ampla contra o fascismo financeiro miliciano é detalhe. Ainda mais quando o assunto é eleição municipal.

O municipalismo no Brasil ganha força a partir de 1988 com a instituição do pacto federativo, da municipalização de políticas públicas e isso é objeto de estudo em particular nas ciências políticas, na sociologia e demais áreas das humanidades. Mas tudo isso não foi suficiente para superar o grau elevado de expressões presentes ainda nas relações políticas e que fazem parte da nossa cultura política, ou seja, mesmo em cidades como São Paulo a cultura cosmopolita passa longe quando o assunto é voto, e isso independe de classe social.

Como militante de esquerda e  socialista vivi todo tipo de tarefa, e fui candidato a vereador em 2008 e 2012 na cidade de Guarulhos pelo PT, e das lições aprendidas uma coisa é certa, os pobres pedem emprego e ajuda por meios de benefícios diversos e a classe assalariada média pede privilégios e jeitinhos junto ao poder público, nessa medida.

Coronelismo, paternalismo e assistencialismo são expressões ainda presentes no cotidiano da população com relação ao voto. Evidente que a persistência dessas expressões são parte do processo histórico e da não construção de uma cultura política alternativa.

A própria política foi contaminada pela ideia tóxica do “empreendedorismo" com frases do tipo “voto em pessoas e não em partidos”, ou “ele sim é honesto”, e posso até citar um bom exemplo paulista disso, o bom e velho Suplicy, que consolidou essa imagem. Mas que como indivíduo não expressa isso em um programa político mais amplo ou até mesmo coletivo. É a pessoa, o indivíduo, do qual seus pontos e carisma são intransferíveis.

E esse é o ponto de equívoco da esquerda brasileira. Reproduzimos na luta institucional a personalização dos nossos programas políticos coletivos em personagens individuais. E ficamos refém disso.

O lulismo cunhado teoricamente pelo sociólogo André Singer, é expressão moderna do que já vivemos com o getulismo em Vargas. Mas nesse caso, Lula não tem (toda) culpa. A culpa é nossa!

Partidos são e serão fundamentais para classe trabalhadora, sejam eles legalizados ou não. São historicamente os espaços em que a classe trabalhadora conseguiu se apoiar na organização e articulação na defesa dos seus interesses, refúgio dos que buscaram e buscam interferir na política diretamente, por onde ainda passam decisões que mexem com a vida do Estado e das pessoas.

Nesse aspecto NADA mudou na relação dos partidos e o seu poder na nossa debilitada República. E para quem dúvida basta ver como Temer, o golpista, destruiu em um ano uma parte das políticas públicas e sociais que foram criadas durante os governos de Lula e Dilma (2003-2016), parece incrível, mas não impossível. O próprio golpe de 2016 foi possível devido a ação dos partidos.

De lá pra cá o fascismo financeiro apoiado por parte das elites e o baixo clero dessas elites tem aprofundado o desmonte do Estado, que segue sendo deles, o velho Estado liberal é deles, e como um brinquedo, mudam a forma e o jeito de usar. Após aprovação da PL 529/20 de DoriaBolso, a certeza que fica é de que o Estado esvaziado de políticas públicas servirá mesmo como um gabinete dos negócios político financeiros do sistema, já que não há nada para gerir efetivamente.

Nesse climão chegamos nas eleições de 2020 e com certeza pior do que estávamos.

O passado só servirá de algo se for para constituir a nossa tática de novos ou renovados meios de buscar a nossa estratégia. O passado sendo usado para atacar candidato A ou candidato B só serve para plateia de auditório.

Cobrar fidelidade partidária quando a sua própria direção passou os dez anos de lulismo impondo um voto de silêncio para bancada do PT na ALESP (Assembleia legislativa do estado) em nome da governabilidade jogaram para baixo a capacidade do partido de ser PARTIDO. Lembremos que a última vez que o PT foi ao segundo turno em São Paulo foi com Genoino (2002) e a bancada petista era combativa, muito combativa.

Ou seja, a disciplina partidária da base é e sempre foi incompatível com a indisciplina das personalidades e seus interesses na realpolitic

E isso o neopetismo e os eleitores classe média do petismo jamais entenderão de fato o PT. Para qualificar o seu debate político precisa viver o partido, atuar e militar no partido. Não ajuda apenas “declarar o seu amor incondicional" no seu tuiter ou facebook, ou ate mesmo no Instagram, isso tudo não influencia e nem agrega para luta, apenas te faz um fanático.

Líder de torcida ou torcedor/a? Com certeza agora você deve estar entendendo do que eu estou falando.

Nas redes (anti) sociais o que mais vemos são comentaristas de um jogo, a diferença com o futebol é que você não pode entrar em campo e a sua opinião pouco importa ao treinador, na política é diferente, você pode intervir e interferir, pensa nisso.

E tem sido interessante e até entediante as brigas solitárias entre eleitores de Boulos e de Tatto. Primeiro cobrando o que não vale na regra geral, ou seja, os partidos que construíram agenda comum em alguns pontos de pauta e até em ações não superaram seus problemas internos e nem aprofundaram o debate programático, e vamos lembrar que o nascimento de um foi em divergência com o outro (e ponto!)

Cobrar unidade entre PT e PCdoB é mais coerente, andam de rosto colado a um bom tempo, um é ministro do presidente do outro.

Sobre o passado. Erundina pós prefeitura tem mais erros que acertos na esquerda, sim. E não errou sozinha, pois a ideia do “PT do SIM” não foi só dela em 1996. Foi ministra do Itamar, sim, e a direção majoritária também negociou sua parte e deixou o Plano Real e FHC navegarem sem oposição. Não cobre da velhinha se os seus BO's estão devidamente atualizados, eu me matei pela eleição e reeleição de Dilma, mas o governo era limitado, desmontando políticas da era Lula em nome de uma recuperação fiscal imbecil, e tem o golpe ainda como corolário da péssima articulação política que o governo tinha com o Congresso.

E com relação ao “meu voto é do X Y Z", “tem que respeitar a decisão”, “sou fiel ao partido”, isso é mais um problema particular e individual, que nada tem haver com a luta política necessária para enfrentar o problema maior. Tietagem em forma de argumento para justificar voto. E ainda, para influenciar quem mesmo? Ego não vota.

Ainda tem as pesquisas. Essas que sempre foram tratadas como manifestação pública da opinião geral apesar de serem aplicadas por institutos privados que a realizam mediante pagamento. A pesquisa de opinião nunca foram isentas e não seriam agora.

Na Nova República pós 1988 temos diversos motivos para não nos guiarmos pelas pesquisas isentonas, e exemplos não faltam e por coincidência sempre prejudiciais para esquerda. Lembremos de Brizola para governador no Rio de Janeiro e Luzia Erundina em São Paulo? Isso só em fatos de repercussão nacional. E os neopetistas e boulistas se guiando pelos instrumentos que a burguesia liberal usa para medir “opinião pública”, aqui nesse aspecto tamos fudidos.

Se esse for o parâmetro, melhor abandonar o socialismo e o comunismo já que parte da população se diz de direita. Lembrando que confunde “ser de direita" com “ser direito” em termos morais e não ideológicos. Jogos meus queridos, jogos.

Então, no final? Boulos ou Tatto? Ou BouloTatto ou TattoBoulo? Sinceramente, tanto faz. O que vai determinar a política ainda para esquerda é um misto de navegar na realpolitic e a massaroca do jeito de votar da população em geral e das maquinas partidárias, com sua militância, organização, mobilização, diálogo, enfim, ainda não aprendemos em 2020, e nem preciso dizer que 2022 está chegando.