quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Minha bandeira é vermelha! Do sangue dos e das lutadores e lutadoras!

 




Capitalismo é capitalismo! Exploração e outros golpes

 










Quando as pessoas não tiverem mais nada para comer, comerão os ricos | Carta semanal 3 (2023) TRICONTINENTAL

 

Quando as pessoas não tiverem mais nada para comer, comerão os ricos | Carta semanal 3 (2023)

Maruja Mallo (Spain), La Verbena (‘The Fair’), 1927.

Maruja Mallo (Espanha), La Verbena (A verbena), 1927.

 

Queridas amigas e amigos,

Saudações do  Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

No dia 8 de janeiro, uma multidão vestida com as cores da bandeira brasileira foi à capital do país, Brasília. Eles invadiram prédios federais, incluindo o Congresso, o Supremo Tribunal Federal e o palácio presidencial, e vandalizaram propriedades e bens públicos. O ataque, realizado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro, não surpreendeu, pois “manifestações de fim de semana” estavam sendo planejadas nas redes sociais há dias. Quando Luiz Inácio Lula da Silva foi formalmente empossado como novo presidente do Brasil uma semana antes, em 1º de janeiro, não houve tal balbúrdia; tudo indica que os vândalos estavam esperando até que a cidade estivesse mais quieta e Lula estivesse fora. Apesar de toda a sua fanfarronice, o que se viu foi um ato de extrema covardia.

Enquanto isso, o derrotado Bolsonaro não estava nem perto de Brasília. Ele fugiu do Brasil antes da posse – presumivelmente para escapar das acusações que deve enfrentar – e buscou refúgio em Orlando, Flórida (Estados Unidos). Ainda que Bolsonaro não estivesse em Brasília, os bolsonaristas, como são conhecidos seus apoiadores, deixaram sua marca por toda a cidade. Mesmo antes de Bolsonaro perder a eleição em outubro passado, o Le Monde Diplomatique Brasil sugeriu que o Brasil iria experimentar o “bolsonarismo sem Bolsonaro”. Essa previsão se escora no fato de que o Partido Liberal (PL), de extrema direita, que serviu como veículo político de Bolsonaro durante sua presidência, detém a maior bancada na Câmara dos Deputados e no Senado, enquanto a influência tóxica da direita persiste tanto nas instituições como no clima político, especialmente nas redes sociais.

 

Mayo (Egito), Un soir à Cannes (Um anoitecer em Cannes), 1948.

 

Os dois homens que estavam responsáveis pela segurança pública em Brasília no dia – Anderson Torres (secretário de Segurança Pública do Distrito Federal) e Ibaneis Rocha (governador do Distrito Federal) – são próximos de Bolsonaro. Torres atuou como ministro da Justiça e Segurança Pública no governo do ex-presidente, enquanto Ibaneis apoiou formalmente Bolsonaro durante a eleição. Enquanto os bolsonaristas preparavam seu assalto à capital, os dois homens parecem ter abdicado de suas responsabilidades: Torres estava de férias em Orlando, enquanto Ibaneis tirou folga na tarde do último dia útil antes da tentativa de golpe. Por causa dessa cumplicidade na violência, Torres foi demitido do cargo e enfrenta acusações, e Ibaneis foi afastado. O governo federal encarregou-se da segurança e prendeu mais de mil desses “nazistas fanáticos”, como Lula os chamou. Há bons argumentos sobre por que esses “nazistas fanáticos” não merecem anistia.

As palavras de ordem e cartazes que permearam Brasília no dia 8 de janeiro eram menos sobre Bolsonaro e mais sobre o ódio dos manifestantes por Lula e o potencial de seu governo pró-povo. Esse sentimento é compartilhado por grandes setores empresariais – principalmente o agronegócio – que estão furiosos com as reformas propostas por Lula. O ataque foi em parte resultado da frustração acumulada por pessoas que foram levadas, por campanhas de desinformação intencionais e pelo uso do sistema judicial para atacar o partido de Lula, o Partido dos Trabalhadores (PT), por meio de lawfare, a acreditar que Lula é um criminoso – mesmo que os tribunais tenham anulado as acusações. Foi também um alerta das elites brasileiras. A natureza indisciplinada do ataque a Brasília se assemelha ao ataque de 6 de janeiro de 2021 ao Capitólio dos EUA por partidários do ex-presidente dos EUA, Donald Trump. Em ambos os casos, as ilusões da extrema direita, seja sobre os perigos do “socialismo” do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, ou do “comunismo” de Lula, simbolizam a oposição hostil das elites até mesmo ao mais brando recuo da austeridade neoliberal.

 

Kartick Chandra Pyne (India), Workers (Trabalhadores), 1965.

 

Os ataques a repartições públicas nos Estados Unidos (2021) e no Brasil (2023), assim como o recente golpe no Peru (2022), não são eventos aleatórios; neles há um padrão que requer um exame. No Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, estamos engajados nesse estudo desde nossa fundação há cinco anos. Em nossa primeira publicação, Nas ruínas do presente (março de 2018), oferecemos uma análise preliminar desse padrão, que desenvolverei mais adiante.

Depois que a União Soviética entrou em colapso em 1991 e o Projeto do Terceiro Mundo murchou como resultado da crise da dívida, prevaleceu uma agenda de globalização neoliberal liderada pelos EUA. Esse programa foi caracterizado pela retirada do Estado da regulação do capital e pela erosão das políticas de bem-estar social. O quadro neoliberal teve duas grandes consequências: primeiro, um rápido aumento da desigualdade social, com o crescimento dos bilionários em um pólo e o crescimento da pobreza no outro, juntamente com uma exacerbação da desigualdade entre Norte-Sul; e, segundo, a consolidação de uma força política “centrista” que fingia que a História e, portanto, a política havia acabado, restando apenas a administração (que no Brasil é bem chamada de centrão). A maioria dos países ao redor do mundo foi vítima tanto da agenda de austeridade neoliberal quanto dessa ideologia do “fim da política”, que se tornou cada vez mais antidemocrática, defendendo que os tecnocratas estivessem no comando. No entanto, essas políticas de austeridade, cortando no osso da humanidade, criaram sua própria nova política nas ruas, uma tendência que foi prenunciada pelos as revoltas contra o FMI e contra a fome na década de 1980 e mais tarde se fundiram nos protestos “antiglobalização”. A agenda de globalização imposta pelos Estados Unidos produziu novas contradições que desmentiram o argumento de que a política havia acabado.

 

Leonora Carrington (México), Figuras fantásticas a caballo (Figuras fantásticas a cavalo), 2011.

 

A Grande Recessão que se iniciou com a crise financeira global de 2007-08 invalidou cada vez mais as credenciais políticas dos “centristas” que administraram o regime de austeridade. O Relatório Mundial sobre Desigualdade 2022 é uma denúncia do legado do neoliberalismo. Hoje, a desigualdade é tão ruim quanto nos primeiros anos do século 20: em média, a metade mais pobre da população mundial possui apenas 4.100 dólares por adulto (em paridade de poder de compra), enquanto os 10% mais ricos possuem 771.300 dólares – aproximadamente 190 vezes mais riqueza. A desigualdade de renda é igualmente severa, com os 10% mais ricos absorvendo 52% da renda mundial, deixando os 50% mais pobres com apenas 8,5% da renda mundial. Fica pior se você olhar para os ultra-ricos. Entre 1995 e 2021, a riqueza do 1% mais rico cresceu astronomicamente, capturando 38% da riqueza global, enquanto os 50% da base apenas “capturaram assustadores 2%”, escrevem os autores do relatório. Durante o mesmo período, a parcela da riqueza global pertencente aos 0,1% mais ricos aumentou de 7% para 11%. Essa riqueza obscena – em grande parte não tributada – fornece a essa pequena fração da população mundial uma quantidade desproporcional de poder sobre a vida política e a informação e cada vez mais dificulta a capacidade dos pobres de sobreviver.

relatório Perspectiva Econômica Global do Banco Mundial (janeiro de 2023) prevê que, no final de 2024, o produto interno bruto (PIB) em 92 dos países mais pobres do mundo estará 6% abaixo do nível esperado na véspera da pandemia. Entre 2020 e 2024, projeta-se que esses países sofram uma perda cumulativa no PIB igual a aproximadamente 30% do PIB de 2019. À medida que os bancos centrais dos países mais ricos apertam suas políticas monetárias, o capital para investimento nas nações mais pobres está se esgotando e o custo das dívidas já contraídas aumentou. A dívida total desses países mais pobres, observa o Banco Mundial, “está no nível mais alto em 50 anos”. Aproximadamente um em cada cinco desses países está “efetivamente bloqueado nos mercados globais de dívida”, contra um em quinze em 2019. Todos esses países – excluindo a China – “sofreram uma contração de investimento especialmente acentuada de mais de 8%” durante a pandemia , “um declínio mais profundo do que em 2009”, no auge da Grande Recessão. O relatório estima que o investimento agregado nesses países será 8% menor em 2024 do que o esperado em 2020. Diante dessa realidade, o Banco Mundial oferece o seguinte prognóstico: “o investimento lento enfraquece a taxa de crescimento do produto potencial, reduzindo a capacidade das economias de aumentar a renda média, promover a prosperidade compartilhada e pagar dívidas”. Em outras palavras, as nações mais pobres afundarão cada vez mais em uma crise de dívida e em uma condição permanente de miséria social.

 

Roberto Matta (Chile), Invasion of the Night, 1942.

 

O Banco Mundial soou o alarme, mas as forças do “centrismo” – dependentes da classe bilionária e da política de austeridade – simplesmente se recusam a se afastar da catástrofe neoliberal. Se um líder de centro-esquerda ou de esquerda tentar arrancar seu país da desigualdade social persistente e da distribuição polarizada de riqueza, ele enfrentará a ira não apenas dos “centristas”, mas também dos ricos detentores de títulos do Norte, do Fundo Monetário Internacional, e os Estados ocidentais. Quando Pedro Castillo conquistou a presidência no Peru em julho de 2021, ele não teve permissão para buscar nem mesmo uma forma escandinava de social-democracia; as maquinações do golpe contra ele começaram antes de sua posse. A política civilizada que acabaria com a fome e o analfabetismo simplesmente não é permitida pela classe bilionária, que gasta grandes quantias de dinheiro em think tanks e mídia para minar qualquer projeto de decência e financiar as perigosas forças da extrema direita, que transferem a culpa do caos social para bem longe dos ultra-ricos isentos de impostos e do sistema capitalista e a joga no colo dos pobres e marginalizados.

A insurreição alucinatória em Brasília surgiu da mesma dinâmica que produziu o golpe no Peru: um processo no qual forças políticas “centristas” são financiadas e levadas ao poder no Sul Global para garantir que seus próprios cidadãos permaneçam no final da fila, enquanto os ricos detentores de títulos isentos de impostos do Norte Global permanecem na frente.

 

Ivan Sagita (Indonesia), A Dish for Life (Um Prato para a Vida), 2014.

 

Nas barricadas de Paris em 14 de outubro de 1793, Pierre Gaspard Chaumette, o presidente da Comuna de Paris, que foi para a guilhotina para a qual havia enviado muitos outros, citou estas belas palavras de Jean-Jacques Rousseau: “quando o povo não tiver nada mais para comer, eles comerão os ricos”.

Cordialmente, 

Vijay

Lojas Americanas, o velho capitalismo mostrando o que é!

 


O caso das lojas Americanas expõem um mundo que deveria ser de conhecimento público. Exploração e fraude são irmãs que andam passo a passo no capitalismo, quem quer pertencer ao sistema tem que botar a mão na latrina, e ela sempre cheio de merda escorrendo pelas bordas, sim a imagem é terrível, mas é a realidade. Ser ou tentar ser capitalista é pertencer a um mundo que no centro extraí sua riqueza do trabalho dos trabalhadores (as), esse capital gerado deve circular para cumprir a tarefa da lógica da acumulação de riqueza no capitalismo. Isso leva a um "jogo natural" desse sistema, que para além da ostentação e dos bens, temos o pagamento irrisório de impostos, sonegação fiscal, crimes tributários variados, abuso do poder econômico, falseamento de documentos, notas frias, etc. A regra é clara, tem que ostentar e se afiliar a lógica do sistema.

A situação das lojas Americanas ascendem um alerta para um dos pilares do capitalismo financeiro e neoliberal que é o da privatização dos serviços públicos. Alerta porque a naturalização das terceirizações, parcerias privadas, concessão e outros primeiro quebram a impessoalidade na relação do gestor público e dos serviços que presta, administra e gerência. Alerta porque o discurso do "controle externo" virou uma piada de mau gosto para os trabalhadores/as, que são iludidos com o discurso da "meritocracia" de um lado e do outro pela supervalorização da "capacidade da gestão privada". 

O número de 40 bilhões não é apenas um número. É um escândalo! Escândalo porque esse "erro" não foi percebido pelos órgãos de controle financeiro, publico e privado; um rombo nesse valor não causou mal estar nos seus "capacitados" gestores, que não negaram a divida, mas não assumiram de onde ou para onde foi drenado esses recursos; e ao fim colocou em xeque um setor que não sendo produtivo, não tem função estratégica na sociedade, que é o comércio. Comércio que é um mero intermediário dos meios de produção e o consumidor, ou seja, um setor que cresceu as custas da desindustrialização, possui uma mão de obra desvalorizada, massacrada pela reforma trabalhista do golpista Temer e reafirmada pelo fascista Bolsonaro, sem perspectiva de valorização destes mesmos trabalhadores (as), facilmente substituído por outro grupo comercial, já que diferente dos modos de produção que tem função - como vimos na questão da crise de saúde da Covid onde o país estava desprovido de produção de respiradores á mascaras.

Os três porquinhos (Lemann, Sucupira e Teles) e a exposição de um crime "natural" do sistema. Os bilionários "bem sucedidos" da Ambev e outras emitiram nota dizendo "não saber do rombo", expondo o tamanho da confissão de sua participação nesse golpe financeiro. Novamente a ideia do "grande empreendedor", "o gestor privado eficiente", na realidade é apenas garantido pelas amarras que distanciam o mundo da economia de nós, nos tornando leigos e alheios dessa situação. 

Se tivéssemos uma ampla massa na nossa sociedade com capacidade de reflexão critica da realidade a melhor decisão seria emparedar esses cretinos e tomar seus negócios para os interesses público e dos trabalhadores (as).

Segue três lives que são interessantes para entender o que é essa crise das lojas Americanas e porque é importante que esse assunto não morra.










terça-feira, 24 de janeiro de 2023

A mitologia liberal na propaganda 05/01/2023 - Luiz Marques (publicado na Fundação Perseu Abramo)

 Recentemente uma instituição do sistema financeiro lançou uma peça publicitária, de muito apuro estético (“Fim de Ano”). Sob uma trilha musical cantada em inglês e traduzida com licença poética, espelha o desejo para que no ano corrente “as escolhas priorizem o amor em tudo que fazemos”. As esquetes cinematográficas, com conteúdos axiológicos, exprimem juízos sobre as atitudes em cena:

* Quando o jovem executivo segura a porta do elevador para a entrada do idoso, que se desloca com a ajuda de um andador. “Antes da pressa, a gentileza” (Educação);

* Quando a menina negra em idade ainda de engatinhar mergulha um laptop na água, e o pai abraça-a com paciência. “Antes da reação, a respiração” (Racionalidade);

* Quando o menino de periferia no campo de futebol, triste ao sofrer um gol, volta os olhos para o céu em oração. “Antes da tristeza, a esperança” (Mobilidade Social);

* Quando a aluna de ballet, ao calçar as sapatilhas, percebe que a colega tem uma prótese mecânica na perna. “Antes das diferenças, as semelhanças” (Diversidade);

* Quando o motorista distraído mostra-se prostrado por um acidente com danos materiais, e é consolado pela dona do carro abalroado. “Antes da raiva, o respeito” (Empatia);

* Quando a surfista, com espírito solidário, recolhe os detritos deixados na areia da praia, para depois surfar nas ondas do mar. “Antes do eu, o todo” (Bem Comum).

O comercial termina com a indagação que interpela a nação, agora emancipada da cruel distopia que minava a sociabilidade com a necropolítica liberista e fascista. Voltaremos ao assunto, adiante.

Significação

As análises semióticas de Roland Barthes sobre as revistas e as propagandas dividem a significação em denotativa, no nível da percepção superficial, e conotativa, no nível dos códigos subterrâneos transmitidos por padrões denominados pelo pensador francês de “mitologias”. A combinação de tais vetores ideológicos é o que torna viável a conversão dos meios de comunicação em instrumentos para a persuasão das massas, com vistas ao consumo de mercadorias, ideias e estilos de vida. Trata-se de compreender a criação propagandística, no contexto do capitalismo realmente existente.

Com o recurso de uma imagética das emoções, se pretende sensibilizar consumidores dos serviços bancários, sem cometer o “erro escolástico” de projetar o pensamento da instituição no público-alvo. Coisa que acontece no momento em que os profissionais de marketing avaliam os resultados das pesquisas (surveys) sob o prisma patronal, cujo propósito se resume ao pretinho básico: a maximização dos lucros e dos dividendos. Se o banqueiro quer dinheiro, o cliente quer bem-estar.

Educação, racionalidade, mobilidade social, diversidade, empatia e bem comum traduzem os valores universais das entrelinhas da propaganda. Esses construtos teóricos carregam a denotação legada pelo iluminismo, no Ocidente. O repertório dialoga com a inscrição positivista da bandeira brasileira, “ordem e progresso”. Ordem para assegurar que as mudanças nunca abalem as estruturas e as hierarquias sociais. Progresso para a “casa grande”, não para a “senzala”, conforme a metáfora freyreana. A conotação, registre-se, foi relativizada pela ampliação da consciência ecológica hoje.

A significação da publicidade, em tela, dilui as sequelas do capitalismo na cultura compartilhada pelos que desfrutam de privilégios e pelos que vendem a sua força de trabalho. A sugestão sutil de elementos que englobam a prosperidade geral, em um ambiente convivial, soa natural à medida que aponta para os efeitos colaterais do hiperindividualismo na era da “pós-modernidade”. A saber, os subprodutos suscitados pela busca frenética de rendimentos que, amanhã, beneficiarão o conjunto da coletividade humana por obra da dinâmica de acumulação e também das inovações tecnológicas.

As desigualdades que atravessam a realidade são caladas. Na verdade, interpretadas como o motor do desenvolvimento individual e social, a médio e longo prazos. O sofrimento é jogado debaixo do tapete pela compaixão atomizada no cotidiano, para legitimar a retórica universalista. A pobreza, a insegurança alimentar, a fome nas esquinas, a exclusão dos banquetes, a carência de equipamentos urbanos e a informalidade são escamoteadas da dominação capitalista. As sujeiras são escondidas.

Diferente das classes dominantes, as classes subalternas enfrentam dificuldades para formular seus interesses materiais e simbólicos com o léxico universal, a partir do paradigma do trabalho. Se a burguesia falava em nome da “nação” e da “humanidade”; em contrapartida, os trabalhadores não conseguem ocultar o conteúdo classista das demandas, ao propor políticas públicas com óbvia prioridade aos segmentos vulneráveis. Os conflitos desdobram-se, no jogo do perde e ganha.

No presente, ocorre o mesmo com as lutas multiculturalistas por reconhecimento étnico-racial e pela promoção das mulheres: esbarram no colonialismo (racismo) e no patriarcado (sexismo). Setores beneficiados pela tradição contestam os ideais igualitaristas, em prol do status quo, ao minimizar as disparidades e os preconceitos com execrações ao “politicamente correto”. O universalismo dos lemas que abstraem os fatos do solo histórico contribui para a manutenção da distribuição desigualitária de direitos, entre a população. A distância entre o discurso e a prática só encurta com a eclosão do confronto político, onde convém entregar os anéis para salvar os dedos.

Emancipação

No caso do comercial, para além dos valores explicitados nos episódios encenados, subjaz a abjeta mitologia liberal. Da educação ao bem comum, passando pela diversidade, nenhum valor - acenado propagandisticamente - traz à tona as ações dos “sujeitos em fusão”. Na inacabada formação republicana do país, os guias éticos irrompem sempre associados a condutas isoladas. Como na filmografia hollywoodiana, pródiga em produções com ênfase no papel dos indivíduos, sobram os heróis autônomos; faltam os heróis coletivos nos enredos. Quem construiu os arcos de triunfo?

O substrato das estórias é a famosa “sociedade dos indivíduos”. O processo civilizador atual supervaloriza as individualidades, descolando-as dos controles instituídos socialmente. A dialética entre o indivíduo e a sociedade chega a se dissipar, dando a entender que são categorias analíticas independentes. Ora, não existe indivíduo sem a sociedade, nem sociedade sem os indivíduos.

A “desobediência civil”, para evocar o conceito de Henry David Thoreau, circunscreve-se às atividades individuadas. Por exemplo, na recusa principista de pagar impostos. A decisão de fórum íntimo confere legitimidade ao ato. No entanto, se fulano reúne com sicrano em uma associação para articular um protesto transpessoal contra a cobrança de tributos, de imediato, a manifestação deixa de ser legítima para virar espúria. A matriz individualista vê no associativismo um conluio, por definição, para influenciar as mentes e os corações de agentes particulares da transformação. As saudáveis interações entre os indivíduos e a sociedade são postas dentro de uma camisa de força.

Com um indisfarçável tom pejorativo, a mídia corporativa se reporta a militantes das organizações da sociedade civil (movimentos sociais, sindicatos, entidades comunitárias, ONGs) e da sociedade política (partidos), como se a militância organizada não integrasse a condição cidadã. Sob esse viés, a interlocução política aprovada pelo establishment restringe-se aos representantes eleitos para o exercício de mandatos parlamentares. A eles, caberia a deliberação sobre polêmicas de interesse dos municípios, dos estados e da União. Em consequência, a proposta do novo governo de potencializar a mobilização da cidadania, no quadro de um projeto inclusivo e transparente, para viabilizar a construção do Orçamento Participativo Federal (OPF) subverte a mitologia liberal dos esquetes.

O comercial encerra com uma pergunta. “E pra você, o que vem primeiro em 2023?” O eloquente questionamento, decerto sem intenção, serve para cutucar os golpistas frustrados com o putsch que não se configurou, após dois meses de acampamento com banheiros químicos defronte os QGs do Exército. Não adiantaram as preces para pneus e ovnis, na expectativa de uma intervenção militar contrária à soberania popular expressa nas urnas. Nem o führer aguentou o chororô da impotência.

A formidável vitória foi problematizada nos sombrios meandros da dimensão paralela, inventada pelo bolsolavismo. Frações das finanças, da indústria, do comércio varejista, do agronegócio (que produz commodities para exportação) e do garimpo (ilegal, em terras indígenas da Amazônia) tentaram em vão ignorar a façanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, aclamado no mundo. Os grupos que somam uma dívida de R$ 20 bilhões, em razão de multas ambientais, tinham a promessa do governante fujão de que os órgãos de fiscalização permitiriam a absurda prescrição do débito. Deles, saiu grande parcela do financiamento para os criminosos atos de terrorismo, em Brasília.

O Estado de direito democrático garantiu a Constituição, em vigor, apoiado no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Aos compatriotas restam as “quatro linhas” da Carta Magna, que zumbis citam com uma hermenêutica falsa. A pátria provou ser mais forte do que a extrema-direita. O povo começa a se livrar dos grilhões da tirania de classe, gênero e raça. A mitologia na propaganda de produtos do mercado financeiro não tem o poder de anestesiar nosso espírito de luta, com abstrações. O combate à barbárie ensinou-nos o caminho para a emancipação.

* Docente de Ciência Política na UFRGS, ex-Secretário de Estado da Cultura do Rio Grande do Sul.

O assalto da horda contra a democracia e os desafios da luta antifascista 10/01/2023 - Hamilton Pereira/Pedro Tierra (Fundação Perseu Abramo)

 O assalto das hordas fascistas inspirado (engendrado?) pelo energúmeno, que se refugiou nos Estados Unidos horas antes do eleito tomar posse, consumou-se no domingo, 8 de janeiro de 2023.

As instalações dos três poderes da república foram devastadas pelo impulso destrutivo acumulado ao longo de quatro anos do pesadelo neofascista, nutrido quotidianamente pelo discurso do ódio às instituições democráticas vocalizado pelo delinquente derrotado nas urnas de outubro último.

A tentativa de golpe de Estado fracassou. Como fracassaram as anteriores desde janeiro de 2019, estimuladas pelo governo dos milicianos de Rio das Pedras que emergiu do submundo do crime para assumir o governo central de um país bestificado pelo fanatismo e pelo culto à ignorância, com a conivência, quando não com o apoio explícito do capital financeiro, de setores do agro e dos empresários da fé.

A parcela majoritária do povo brasileiro que resistiu à estratégia de demolição do país, ao longo de seis anos, fez fracassar a tentativa de reeleger a figura sinistra que encarnou a barbárie, em 2 de outubro e 30 de outubro de 2022. Ali se consumou uma virada histórica quando o energúmeno foi derrotado pela frente ampla liderada por Lula.

O silêncio que se seguiu à derrota não admitida não era outra coisa senão um caldeirão de ressentimentos a alimentar a fúria e o terror contra as instituições e os eleitores que lhe negaram as pretensões de perpetuar-se, até a explosão de 8 de janeiro.

O que a sociedade brasileira assistiu neste domingo de assombros foi uma metáfora do que viveu o país enquanto durou o governo de liquidação nacional, em todas as áreas de ação do estado. Uma metáfora materializada na destruição física das dependências dos edifícios-sede dos três poderes da República. Já que não foram capazes de destruir o país – porque o povo brasileiro resistiu – restava à legião dos ressentidos o último gesto de demolir seus símbolos mais emblemáticos.

Uma ação típica de hordas fascistas que buscam destruir pela força aquilo que sequer alcançam compreender: a democracia. Ainda que seja esta democracia liberal mal desenhada que o país veio construindo desde 1988.

A tela de Emiliano Di Cavalcanti que recebeu as digitais do fascismo – sete golpes desferidos com pedras portuguesas recolhidas da Praça dos Três Poderes, utilizadas com instrumento contundente – será um testemunho duradouro da passagem da barbárie de 8 de janeiro, uma espécie de epílogo sinistro do governo derrotado.

Salta aos olhos da sociedade – 90% dos brasileiros e brasileiras repudiam a tentativa de golpe de Estado – a leniência, a incompetência ou mesmo a conivência das autoridades de segurança pública do Distrito Federal.

O ex-ministro da Justiça do governo derrotado nas urnas de 30 de outubro de 2022, Anderson Torres, inexplicavelmente nomeado Secretário de Segurança Pública do DF pelo governador Ibaneis Rocha, uma semana depois de tomar posse, foi localizado gozando férias na Flórida, onde, por obra do acaso se refugiou o inspirador da devastação perpetrada pelas hordas fascistas contra o STF, o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto.

O interino que o substituiu enviou mensagem ao governador na tarde de domingo, 8 de janeiro, garantindo que as manifestações seriam pacíficas, enquanto sua polícia conduzia alegremente a horda que meia hora depois estaria vandalizando os edifícios públicos que abrigam o coração institucional do país. Fato que levou o governador do DF a exonerá-lo e o Presidente Lula a decretar prontamente a intervenção federal na área de Segurança Pública do DF, visivelmente acumpliciada com as manifestações golpistas de 12 de dezembro último e agora com os atos terroristas de oito de janeiro.

Um dado curioso e revelador: as hordas da extrema-direita que se deslocaram para perpetrar a barbárie na Praça dos Três Poderes, partiram de um acampamento mantido à sombra das guaritas do Quartel General do Exército Brasileiro, desde a derrota do energúmeno, em 30 de outubro. O Ministro da Defesa do governo, José Múcio, homem lhano, adotou a tática de “comer pelas beiradas” para desmobilizar os acampamentos – verdadeiras incubadoras de atos terroristas na opinião de seu colega, o Ministro da Justiça Flávio Dino – e colheu a catástrofe de 8 de janeiro de 2023.

O Ministro Múcio revelou, uma semana depois da posse, não ser o homem talhado para conduzir uma área cujo quotidiano é marcado pelo desafio de converter em realidade o que determina a Constituição: subordinar o estamento armado, portador histórico de uma cultura autoritária e golpista, ao poder civil conferido pela soberania popular em um governo democrático.

O estamento militar brasileiro cultiva com zelo invejável, ao longo da história, a pretensão de situar-se acima da Constituição, e como se algum ente sobrenatural o definisse como o tutor do poder civil.

O impulso econômico, social e cultural que resultou na tentativa de golpe de Estado promovida, nesse 8 de janeiro, pela extrema-direita segue latente na sociedade. Ainda que seu mito tenha se refugiado em Orlando, levando consigo a expectativa de voltar nos braços dos garimpeiros ilegais, dos matadores de indígenas, dos devastadores e comerciantes de madeira, dos grileiros, dos envenenadores do meio ambiente nessa tentativa, afinal frustrada. Aos defensores da democracia cabe lembrar, os fatores que o levaram ao poder durante quatro anos, guardam energia suficiente para sustentá-lo ou algum outro aventureiro de perfil semelhante.

O que impõe, mais do que nunca, na história do Brasil, a unidade das forças populares e democráticas para enfrentar o neofascismo em todas as suas manifestações. Seja nas estruturas do estado contaminadas pela ideologia autoritária da extrema-direita – e o lavajatismo é apenas uma delas –, seja na sociedade onde a ”guerra cultural” se converteu num elemento mobilizador do que há de mais reacionário na sociedade para reconstruir uma utopia regressiva, em busca de um passado que, a rigor, nunca existiu.

Os setores populares, os movimentos dos trabalhadores, os sindicatos, movimentos culturais têm diante de si a tarefa permanente de tensionar o governo Lula, sustentado por uma frente heterogênea como todos sabem, para avançar além das políticas públicas de combate à fome, de inclusão social, de redução das desigualdades regionais, rumo à construção e consolidação de mecanismos de participação democrática capazes de respaldar a vocação transformadora do projeto que o elegeu pela terceira vez.

O combate ao neofascismo passa inevitavelmente pela punição exemplar dos responsáveis pela tentativa de golpe de estado – e seus financiadores – e só se tornará realidade com uma expressiva participação popular organizada nos ambientes de trabalho, nas escolas, universidades e centros de pesquisa e quotidianamente nas redes sociais.

Lula no Planalto e a militância antifascista nas ruas!

Brasília, 9 de janeiro de 2023.

Hamilton Pereira/Pedro Tierra, poeta. Ex-Presidente da Fundação Perseu Abramo.