domingo, 7 de novembro de 2021

Fora Bolsonaro. Virou luta de ano pré-eleitoral?



 As noticias para os militantes não são boas. Confusas como ainda está a perspectiva da luta unitária da esquerda brasileira e a campanha nacional Fora Bolsonaro. As primeiras lutas convocadas presencialmente alcançaram públicos diversos e desaproximou-se dos encontros de velhos e bons companheiros e companheiras, assim como foi o Fora Temer. Bolsonaro expressa uma ideia e permitiu uma transição geracional importante para que parte considerável da juventude se colocasse em oposição ao modelo autoritário, doutrinador e moralizador da extrema direita brasileira. Aqui há riscos, que devem ser analisados, pois, não sabemos se parte dessa oposição jovem se dá também no "eucentrismo" neoliberal que se apresenta como "moderno" e mercantiliza as lutas da diversidade sexual, racial e feminina, sabemos que as grandes corporações tem investido na "colorização" das suas marcas, buscando se aproximar dos jovens associados o ter bens materiais reconfigurados em expressões de modernidade tecnológica e cultural, tanto que vemos o investimento pesado das mídias em ressignificar as formas de relação com o mercado financeiro, com os jogos, compras, entre outras. Esses riscos existem e não podemos deixar de considerara-los. 

Evidente que na luta antifascista atual, essa aliança é fundamental. O enfrentamento ao capital se dá na permanente resistência em quebrar essas ilusões do mercado e do capital, e há espaço e momento para isso agora, não vamos ficar presos ao "etapismo", isso já deu errado pelas mãos reformistas e pela acomodação stalinista no leste europeu. 

O filme Marighella dirigido pelo ator e diretor Wagner Moura a partir do livro de Mario Magalhães chegou tarde devido a oposição e boicote institucional do bolsonarismo no poder executivo central mas parece ser providencial, já que tem sido expressivo nas bilheterias e traz a narrativa da necessária luta de projetos de país que estão ainda em aberto, a importância dos ideais enquanto sociedade e não apenas projetos individuais.

Beleza, estamos num processo de retomada, ok, porém, retomada para que direção política? Pela direita e o centrão, abre a oportunidade da manutenção e retomada da velha política em reaparelhar o Estado de um lado usando a máquina bolsonarista em crise, ocupando cargos no governo e utilizando para seus interesses no parlamentarismo de oportunidades em que se tornou nosso sistema presidencialista ou em lançar nomes velhos em combate a crise econômica que se tornou a aventura bolsonarista, como a ressuscitação de Alckmin em São Paulo.

E pela esquerda? A retomada parece estar mesmo presa na lógica político institucional. O tempo passou e a retorica critica ao governo Bolsonaro travou, onde as demandas institucionais em série associadas a uma pandemia da Covid-19 não permitiram uma retomada político ideológica que exigiria, por exemplo a retomada do trabalho de base. 

O trágico ato nacional de 02 de outubro que reuniu oportunistas de todas as matizes centralizadas no MASP só expressam que a unidade sem uma articulação que deveria ser construída pelo debate dos programas, limites, problemas de organização, enfim, uma unidade que não pode ser constituída por meio de eventos, mas de bundas sentadas e sem hora para sair, não há unidade que se construa sem paciência, divergência e disposição. Os aceites das direções para que o ato simplesmente desconsiderasse os ânimos das bases e que "gregos e troianos" subissem no caminhão de som, como se por mágica, as divergências se pulverizassem no sentimento "fora bolsonaro" não aconteceu. Não é de bom tom acusar quem jogou a primeira garrafa de água ou a primeira vaia, já que as direções - tão capacitadas - desconsideraram uma unidade que não foi construída por um processo que deveria ser iniciado na base, com todos os problemas que isso fosse acarretar. 

Amadurecer deveria ser um objetivo subjetivo a ser alcançado diante do caos que estamos vivendo. E não basta de forma simplista considerar que o governo Bolsonaro em si já é ponto de unidade. Não é. Já que estamos pulverizados pelo próprio governo bolsonaro nas diversas áreas do Estado e das políticas públicas. Tudo tem relevância nessa conjuntura. A história sempre foi elemento fundamental, contudo, em determinados momentos foi colocada de lado nas decisões centrais, como a "carta aos brasileiros" de 2002, as alianças no campo dos governos do PT e entre outros, antigos inimigo durante a ditadura militar sentaram-se a mesa para governar. Porém, agora o trauma de 2013, do golpe de 2016, das eleições de 2018 e a crise da Covid-19 ainda estão presentes na subjetividade política dos militantes, dos não militantes, dos novos militantes, dos que estão se aproximando, enfim, do público que em oposição a Bolsonaro não está necessariamente UNIDA num mesmo projeto político ideológico, institucional, eleitoral, etc., e uma parte mesmo participante dos nosso "fora bolsonaro" ainda estão assistindo que via seguir.

Afoitos com o momento e sem analisar conjuntura, chegaram a convocar o dia 02 de outubro e 15 de novembro querendo "guardar lugar" na fila da simbologia, já que 07 de setembro foi o "fascist day", o dia da proclamação da república deveria ser capitaneado pela esquerda, na cabeça das direções. Duas datas que antes do bolsonarismo só eram bons feriados. No final, o fiasco da unidade de 02 de outubro levou a desmentida das direções com relação ao 15 de novembro, ou seja, apagar o dito pelo não dito. 

Numa inflexão débil ao nosso fraco "Black Lives Matter" com atraso histórico e com vários corpos negros já brutalizados, as direções resolvem reabilitar o 20 de novembro para limpar a cagada do 15 de novembro: reestabelecer a unidade pela esquerda e aliançar-se ao lado dos movimentos negros. Sim, antes tarde do que nunca! E agora convocam efusivamente como se pertencessem a unidade da causa negra. Inclusive se o 20 de novembro fosse tão prioritário antes, como será agora, quem sabe teríamos uma unidade real da classe trabalhadora.

Bom, não estou bem para ficar no entusiasmo do "fora bolsonaro" e "viva a esquerda brasileira" porque não há motivos para isso nessa conjuntura. Estamos chegando no fim de 2021 e adentrando 2022 em quase que área cega causada pela anestesia do debate político institucional eleitoral. Perdemos o bonde do trabalho de base, da solidariedade de classe e o "fora bolsonaro" entrou em rota de colisão com as urnas de 2022, se fundindo. 

Quando digo direções, não estou fixo na lógica maniqueísta sobre o bem e o mal das direções, e sim como se constitui a forma que constrói o "tipo ideal de militante", do roteiro bem lido, da boa ficha hereditária e até mesmo acadêmica, dos "quem indica" e quem se submete a uma forma como se dão os perfis aceitos de fazer parte desse "mundo". Eu tentei habitar esse "modus vivendi", mas não gostei do que vi, vivi e percebi que identidade de classe exige mais do que ficar figurando num teatro das lideranças. 

Escrevo pela minha consciência de classe, pela minha experiência de luta, pela certeza de que cada um contribui como pode no momento histórico que vive, que não quer errar as mesmas coisas, mas errar por motivos e causas diferentes, sigo impaciente pacientemente a enfrentar seja quem for: traidor, capitalista ou fascista e todos os seus derivativos.

Nos vemos na luta!