quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Dilema da esquerda brasileira: superar o “efeito tostines”

  
Dilema da esquerda brasileira: superar o “efeito tostines”

Sei que é antipedagógico começar uma análise política por uma analogia mercadológica como essa, mas para os que não conhecem o velho comercial da marca de biscoitos a frase “tostines vende mais porque é fresquinho ou é fresquinho por isso vende mais” pode ser enquadrada perfeitamente por um dilema, ou falso dilema, que tem sido cantado a tempos por parte da esquerda brasileira e mais recentemente pelo PT no poder institucional do Estado.

Celso Furtado (que nos faz muita falta), disse uma vez que o problema do Brasil não está em criar infraestrutura ou grandes ações para se tornar um país desenvolvido, o centro desse desenvolvimento está não na economia ou das mudanças advindas dela, mas sim da transformação da sua cultura política. De fato, olhando pelo retrovisor e de um século de República onde hoje – fim da primeira década e meia do século XXI – o Brasil vive o seu período democrático mais longo (e ainda tem gente ignorante que despreza isso), um pouco para elucidar o que o grande mestre nos disse.

O mito do desenvolvimento nacional sempre ligado a necessidade conciliações e entregas que geralmente afetam o andar de baixo – isso inclui as faixas assalariadas médias – está ligado também a algo que cria ojeriza da direita e da burguesia rentista e produtiva do capital que são as reformas estruturais (reforma agrária, tributária, comunicação, etc., etc..), isso já rendeu golpes civis-militares e a vida de personalidades nacionais.

O mantra de parte da esquerda sobre o “time” do momento de realizar tais reformas oscila entre a posição que defende reformas de forma gradual, restritas e lentas e outra posição da ruptura – esta última sempre acompanhada do velho discurso do “ascenso da luta de massas” ou o “acumulo de forças”.

Mantra que a direção do PT o fez com muita propriedade desde a queda do muro e a derrota das eleições de 1989. Mantra que faz com que a classe trabalhadora espere ou acompanhe a “longa marcha de micro reformas por dentro do Estado”, isso porque ainda não chegamos ao ponto certo do acumulo de forças, o congresso é conservador, bla, bla, bla....

Digo isso como militante da esquerda do PT e que percebe como muitos – filiados/as e simpatizantes – que a estrutura de Estado como temos não permite nenhum avanço significativo não só da esquerda, mas principalmente da classe trabalhadora.

Ataques diários, denúncias seletivas e todo tipo de recurso da comunicação ao judiciário criminalizam movimentos sociais, partidos e tudo que expresse essa classe repulsiva que é a trabalhadora de vivenciar o mínimo de poder.

O que as elites querem novamente reforçar com a sua narrativa é que a esquerda socialista pode disputar eleições, mas não pode ganhar, se ganhar não pode governar para além dos pactos e se ir além dos pactos não pode continuar, ou seja, melhor que participe do processo eleitoral burguês – com liberdade de expressão com limites – porém, sem vencer.

Reforma política tem sido o tom principal das esquerdas no Brasil, o plebiscito popular de 2014 ou qualquer outra reivindicação passa pelas reformas estruturais e o medo parece não ser das elites e pasmem da própria esquerda.

O PT expressa esse recuo, como disse, pela narrativa. Ouviamos na década de 1990 que era preciso o “Lula lá” para avançar nessas reformas, conciliar, convencer (como se fosse possível convencer Sarney, Renan, Collor, Marinhos, etc.), e avançar na “revolução democrática”.

Lula vence, governa e faz sucessora! Agora a culpa é do acumulo de forças novamente.
E assim vai entre seguidores e militontos reproduzindo esse discurso derrotista como se nunca tivéssemos, ou melhor, como se não estivéssemos a frente do Estado pelo Executivo – maior cargo da República.

Então fico pensando no mantra dos grandes gurus do meu partido – atacados, encarcerados, encurralados e apreensivos fazendo a mesma oração: “Não é possível fazer reformas estruturantes sem acumulo de forças ou sem acumulo de forças nenhuma reforma estruturante é possível”, mas que raios é o acumulo de forças?

Diz que é o maior partido de esquerda da America Latina, diz dirigir a principal central de trabalhadores, diz ter o maior enraizamento nas bases populares e dirigentes de movimentos sociais importantes, diz que governa o principal cargo da Republica e deu coesão a base contra o pedido de impeachment.

De fato sou um ignorante, não sei o que é acumulo de forças?

Ah, e antes de terminar os “sabe tudo” que confundem acumulo de forças com votos dos deputados e senadores no congresso nacional, a priori não é isso – pelo menos no pensamento de esquerda – e se isso é verdade os dois mandatos de Lula poderiam ter feito pelo menos uma reforma, uma reforma do lado de cá, dos do andar de baixo.