"O que fazer?" é a frase que se tornou não apenas o documento leninista
estratégico para entender o levante de 1917, quanto uma forte linha de reflexão
sobre os desafios que a realidade e a luta política impõe a quem sabe que após
as eleições a vida continua, bem como os inimigos dos interesses da população
que em suas frentes não descansam. Flavio fujão nem visitou o Pateta na Disney e
aqui setores do bolsonarismo já se movimentam para construir uma alternativa aos
cães raivosos da família, os movimentos de Tarcisio e Michele para 2030 parecem
apressados, mas expressam como quer se movimentar a direita fascista após a
segunda derrota do bolsonarismo raiz. 2026 expressa novamente e esses movimentos
não param de acontecer e a miopia das nossas esquerdas seguem firme em negar as
mudanças da luta de massas.
Vamos aos fatos: 2013 a paciência diante do "New
Deal" lulista, um tipo de "esperar o bolo crescer pra repartir com mais justiça
social" não aconteceu e o levante daquele ano deu o tom que mexeu com todas as
estruturas de poder, só que o fascismo já em curso também aproveitou a onda e
apostando no lulismo como a "ordem" levantou parte da juventude e dos jovens
adultos a ideia de que o Brasil está como está devido o governo do PT, onde a
grande ação integralista foi mover parte das massas para o golpe de 2016, sem
tanques, mas com grandes reformas que novamente atacaram os direitos dos
trabalhadores.
Na sequencia de 2014, novamente uma esquerda surpresa é pega no
susto com a ocupação das escolas, ainda fruto da raiz da crise de projeto do
lulo-dilmismo, os jovens não aceitam o fechamento de escolas a partir de
desculpas administrativistas dada pelo governo do PSDB e isso erradia para o
Brasil inteiro, e mesmo assim, sem muito inovar a esquerda deixa passar
novamente essa oportunidade, preferindo na velha forma colher os bons militantes
para suas agremiações, deixando uma massa de jovens com consciência dispersos,
isso nos empurra para letargia de 2016, onde ao final de 2015 muitos de nós
fomos as ruas denunciar uma ameaça de golpe, que foi ignorada pela direção
majoritária do PT, o Psol e Pco nas ruas capitalizando o processo e em
definitivo fomos golpeados com a queda da presidenta Dilma.
No caminhar desse
processo, o baixo clero liderado por Jair Bolsonaro começa a colher os grupos
do oportunismo de direita - fascista a moda brasileira. Jair sempre soube
explorar o saudosismo da ditadura e suas mentiras sobre "estabilidade econômica
e paz social", contudo, martelou tanto a ideia e ainda apoiado por uma
redemocratização cagona que conciliou crimes da ditadura a anistia aos que
lutaram pela democracia, a pacificação que envolveu o MDB e o PDS, bem como todo
aparato que manteve nos postos e na carreira corruptos e assassinos de farda,
dito isto, as raízes de como a violência social anda ao lado de um tipo de
política corrupta e violenta foi parte do ovo que foi chocado na transição
democrática. Gerações pagam até hoje essas consequências históricas.
2018 foi
uma mescla de emoções, com Lula preso e Jair saindo do fim da fila para ser
eleito presidente do Brasil.
De novo as esquerdas em geral preferiram ignorar ou
ridicularizar o senhor das armas, até que fomos empurrados para um segundo turno
terrível em que fomos derrotados. O governo do Jair foi menos fascista, mais
centrão, mais falastrão do que imaginávamos. A sorte também estava do nosso
lado, em São Paulo com Doria os atos "fora Bolsonaro" foram de fato um evento
tranquilo. Quando digo menos fascista não esqueço da pandemia e o negacionismo
vacinal, mas a passividade das forças sociais também não ajudaram a enfrentar a
raiz do problema.
Ao final, o governo Bolsonaro parecia mais uma pilhagem
colonial do que um governo fascista, mesmo a tentativa de golpe ao final da
eleição de 2022 era um combinado de fanfarronice com amadorismo, milicos machos
de um lado, garantidores preocupados com suas carreiras e aposentadorias,
bolsonaristas raivosos com a certeza das ruas e portas de quarteis ocupados,
paralelamente, joias, emendas, casas, e todo tipo de enriquecimento curioso
rondavam o palácio do planalto, os filhos então, empenhados mais na vitória do
pai pensando nas mamatas e menos no projeto político fascista original.
Mesmo 08
de janeiro podemos colocar no rol das frustações dos radicais do fascismo.
Lula
chegou em ritmo de terceiro mandato achando que a combinação de macro economia e
políticas sociais fossem ser a velha e atual forma de manter firme sua
permanência pacifica no poder e quem sabe construir um sucessor para 2027, não
deu certo, os dados eram bons? Sim, desemprego baixo, inflação controlada,
políticas sociais retomadas, mesmo em ritmo lento, porém a classe trabalhadora
estava amargurada com as derrotas das reformas e a precarização fluindo como um
sangue pobre pelas veias da classe, no meio do caminho um balconista de loja se
insurge contra a escala 6x1 de trabalho, uma vez que sua percepção e vivencia
mostravam que UM DIA não era suficiente para vida, ou pelo menos para respirar,
cujos lucros sobre esse sacrifício estavam mais do que pagas e sendo utilizada
com cada vez mais intensidade com traços de crueldade, assim, um governo sem
raiz, se escora num pauta sensível da classe que segundo as pesquisas, alcançava
quase 70% de apoio pela sua derrubada. O terrorismo financeiro e economico
mostraram que o caminho era necessário e na sequencia foram as BET's (jogos de
apostas) que foram proibidas já que a família brasileira, tão defendida pelo
bolsonarismo estava sendo destruida pela lógica das Bet's.
Chegando em 2026,
novamente o susto, a incerteza, as velhas formas engolidas pelas novas formas e
com esse elemento que nos persegue desde 2013: uma massa de ativismo sem
organização, que sente e reage a ameaças variadas e que nesse caso foram
canalizadas no enfrentamento ao fascismo de Flavio Fujão Vorcaro Bolsonaro. O
"janonismo cultural", expressão do momento foi uma grande onda que não teve
tempo para ser planejado, discutido em uma reunião de diretório ou executiva,
que não pediu permissão para o marketing eleitoral, que não esperou nenhuma
analise de conjuntura brilhante para reagir não apenas ao risco de derrota de
Lula, mas de fortalecimento da violência política e do ódio como forma de
governar paralelo a destruição de direitos. 2027 exige muito de todos/as nós.
Vamos amadurecer de fato ou ainda seremos vitimas das velhas formas? Quando falo
de velhas formas não digo de métodos.
Evidente que como militante de esquerda
jamais vou desmerecer a reunião, a analise de conjuntura e a organização. Todas
seguem necessárias. Porém, vencer não pode ser uma questão abstrata, vencer
precisa ser de fato um forma de reunir, canalizar e expandir essa força que teve
se mover tanto desde 2013.
Sei que todos/as nós estamos em nossas nobres tarefas
e talvez alguns de nós não tenha disposição a abandonar algumas delas por outra
que exija mais do que podemos entregar de nossa dedicação. Mas a vida é luta e
para nós da luta de classes, cada vez mais isso é uma exigência histórica.
