segunda-feira, 4 de julho de 2011

Hackers e outros no espaço democrático, artigo de Tarso Genro.


OPINIÃO DO BLOGEIRO:

O artigo de Tarso Genro, dirigente do PT e governador do Rio Grande do Sul, traz uma reflexão que tenho tido profundo interesse em debater ou propor. O reascenso dos ideais da esquerda socialista é uma questão que tem exigido de todos e todas nós grande atenção justamente pelo desgaste que determinados setores o fazem pelo mundo e aqui (no Brasil).

Como já disse não tenho medo de justificar minha luta interna no PT. Sou um socialista convicto e minha atuação não perdeu do horizonte a luta pela transformação desta sociedade, mas ser antineoliberal e anticapitalista não tem sido suficiente pelas contradições enfrentadas na tática institucional que impõe limites.

O Estado preparado para amortecer os conflitos da luta de classes e limitar as lutas populares no campo da democracia liberal, meramente representativa, consultiva e deliberativa nos marcos determinados pelos interesses dominantes impedem o avanço das reivindicações econômicas, sociais e políticas dos trabalhadores (as).

Quero dizer que tenho divergências com Genro no PT e na visão de "governança" política que emprega em seu governo, mas concordo com a sua reflexão abaixo. Ou enfrentamos o desafio do reascenso das idéias democratizantes, progressistas e avançadas para um novo momento de participação e decisão popular ou só o "consumismo" como política de governo nos engolirá.

Ou a nossa caminhada em formas tradicionais de participação política sem buscar renovar ou apreender com o processo que esta se formando de protesto e resistência, que no máximo aglomeram as pessoas de forma comum, contudo ainda não avançam para um processo revolucionário e transformador.

As interrogações estão aí, saber olhar, refletir e buscar os caminhos é nosso dever! Boa leitura...

Tarso na Folha de S. Paulo: Hackers e outros no espaço democrático

03.07.2011

A sociedade civil, com seus meios diretos de articulação, sem a mediação dos partidos, está em um conflito com a “sociedade política” existente

Os ataques hackers, que se sucedem contra instituições de Estados, e os movimentos sociais em redes virtuais em defesa de direitos que se expressam em vários lugares do mundo, seja contra políticas de “ajuste” de governos, seja contra regimes fechados de caráter nacionalista-fundamentalista, problematizam a vida democrática baseada exclusivamente na centralidade dos partidos políticos.

Os movimentos -também convocados em rede- para protestos fragmentários, centrados em temas muito localizados e particulares, representam, hoje, na cena política internacional, expressões completamente novas da luta política, para orientar o Estado, para “tomá-lo” ou para reformá-lo.

Na velha luta de classes da sociedade industrial, que originou direitos social-democratas, espalhados pelo mundo como legislações de defesa dos direitos e de sustentação dos direitos civis num plano elevado (que passaram a adentrar a fábrica moderna), partidos e sindicatos tinham enorme proeminência.O “desgaste” da esfera política como espaço de conflito e negociação vem centralmente desta contradição: a sociedade civil, com seus meios diretos de articulação, sem a mediação dos partidos, está em conflito com a “sociedade política” realmente existente.

E o Parlamento, em regra, não tem vínculos com a opinião e com as necessidades dos novos grupos e movimentos sociais que montam as redes virtuais, que não se identificam com o jogo político da representação democrática tradicional.

O “novo” representa, antes de tudo, o surgimento do instrumental tecnológico que permite que elas se expressem -independentemente do mérito das suas propostas- de uma maneira maciça, seja pelo conflito público democrático, como no 15M, na Espanha, seja por formas autoritárias de guerrilha virtual hacker -diretamente contra o Estado-, sem medir os prejuízos que causam a toda a sociedade, especialmente àquela parte mais pobre, que precisa de políticas públicas para sobreviver com um mínimo de dignidade.

A representação da previsão de Marx, de um proletariado insurgente contra o capitalismo industrial, apresenta-se, hoje, como uma revolução democrática global, que tem como centro comum a revolta contra o Estado, capturado pela dívida pública, escravo das agências de risco e dos bancos centrais como aparatos burocráticos, sujeito às consultorias “neutras”, orientadas e apropriadas pelo capital financeiro especulativo.

Isso gera a revolta contra a maioria dos partidos, que não se reformaram internamente para acolher essa energia da sociedade civil, que expressa um desejo de participação nos negócios públicos e nas decisões políticas que a democracia tradicional não tem, ainda, aparatos para absorver.

O corporativismo economicista, que não leva em consideração esses fatos -condição que domina uma grande parte do sindicalismo-, falará para uma base cada vez menos interessada, seja por meio de um discurso revolucionário “sem sujeito”, seja com discurso conservador de defesa de privilégios como “direitos adquiridos”.

Os partidos de esquerda que mantiverem a velha tradição de luta interna pelo controle dos aparelhos de poder, sem projeto ousado e inovador, ficarão cada vez mais distantes das bases sociais já em movimento, que lutam para promover a democratização da democracia.

E ficarão como os socialistas gregos, espanhóis, italianos e portugueses, vendo o “bonde passar”: sem fazer as suas reformas, para serem reformados pelo mercado, que capturou o Estado.

TARSO GENRO é governador do Rio Grande do Sul pelo PT. Foi ministro da Justiça (2007-2010), ministro da Educação (2004-2005) e prefeito de Porto Alegre pelo PT (1993-1996 e 2001-2002).

Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S. Paulo de 3 de julho de 2011.