Blog do Wagner Hosokawa. Para quem curte novas idéias para política, a sociedade e a vida!
segunda-feira, 30 de dezembro de 2024
Você é Arthur Fleck ou Coringa? (Tem spoiler de Coringa - Delírio a dois)
Resista, meu povo, resista | Carta semanal 52 (2024) Mensagem do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social
Queridas amigas e amigos,
Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
A dor percorre as artérias da sociedade global. Dia após dia, o genocídio contra o povo palestino continua e os conflitos na região dos Grandes Lagos da África e no Sudão aumentam. Mais e mais pessoas caem na pobreza absoluta à medida que os lucros das empresas de armas aumentam. Essas realidades endureceram a sociedade, permitindo que as pessoas façam vista grossa e ignorem os horrores que acontecem no mundo todo. A indiferença pela dor dos outros se tornou uma forma de se proteger de um intenso sofrimento. O que se pode fazer com a miséria que passou a definir a vida em todo o planeta? O que posso fazer? O que você pode fazer?
Em 2015, a poetisa palestina Dareen Tatour escreveu Qawim ya sha’abi, qawimhum [Resista, meu povo, resista a eles], pelo qual foi presa e encarcerada pelo Estado israelense. Um poema que pode te mandar para a prisão é um poema poderoso. Um Estado ameaçado por um poema é um Estado imoral.
Resista, meu povo, resista a eles.
Em Jerusalém, curei minhas feridas e expressei minhas tristezas a Deus.
Eu carreguei a alma na palma da minha mão
para uma Palestina árabe.
Não sucumbirei à “solução pacífica”,
nunca abaixe minhas bandeiras
até que eu os expulse da minha terra natal
e os faça ajoelhar por um tempo vindouro.
Resista, meu povo, resista a eles.
Resista ao roubo do colono
e siga a caravana dos mártires.
Destrua a constituição vergonhosa
que impôs uma humilhação implacável
e nos impediu de restaurar nossos direitos.
Eles queimaram crianças inocentes;
Quanto a Hadeel, eles atiraram nela em público,
mataram-na em plena luz do dia.
Resista, meu povo, resista a eles.
Resista ao ataque colonialista.
Não dê atenção a seus agentes entre nós
que nos acorrentam com ilusões de paz.
Não temam os Merkava [tanques do exército israelense];
a verdade em seu coração é mais forte,
enquanto você resistir em uma terra
que sobreviveu a ataques e vitórias.
Ali gritou de seu túmulo:
resista, meu povo rebelde,
escreva-me como prosa no ágar,
pois você se tornou a resposta para meus restos mortais.
Resista, meu povo, resista a eles.
Resista, meu povo, resista a eles.

Choi Yu-jun (República Popular Democrática da Coreia), A Bela Adormecida, 2018.
“Hadeel” no poema se refere a Hadeel al-Hashlamoun (18 anos), que foi morta a tiros por um soldado israelense em 22 de setembro de 2015. Este assassinato ocorreu junto com uma onda de tiroteios – muitos fatais – contra palestinos por soldados israelenses em postos de controle na Cisjordânia. Naquele dia, Hadeel chegou ao posto de controle 56 na rua al-Shuhada em Hebron (Território Palestino Ocupado). O detector de metais apitou e os soldados disseram para ela abrir a bolsa, o que ela fez. Dentro havia um telefone, uma caneta Pilot azul, um estojo marrom e outros pertences pessoais. Um soldado gritou com ela em hebraico, e ela não entendeu. Fawaz Abu Aisheh, de 34 anos, que estava por perto, interveio e traduziu o que estava sendo dito. Mais soldados chegaram e apontaram suas armas para Hadeel e Fawaz. Um soldado disparou um tiro de advertência e depois atirou na perna esquerda de Hadeel.
Nesse momento, um soldado, alegando ter visto uma faca, disparou vários tiros no peito de Hadeel, que foi fotografada parada momentos antes. Depois de ficar no chão por algum tempo, ela foi levada para um hospital, onde morreu por hemorragia e falência múltipla dos órgãos resultante dos ferimentos à bala. Organizações de direitos humanos como a Anistia Internacional e a B’Tselem disseram que a questão da faca era irrelevante, já que Hadeel havia sido alvo de uma “execução extrajudicial” (sem falar no fato de que os depoimentos sobre a faca eram inconsistentes). A representação de Tatour da execução de Hadeel em plena luz do dia é um enorme lembrete das ondas de violência que estruturam a vida cotidiana dos palestinos.

Maksudjon Mirmukhamedov (Tadjiquistão), Meu Mustang, 2020.
Um mês depois da morte de Hadeel, conheci um grupo de adolescentes em um campo de refugiados perto de Ramallah. Eles me disseram que não veem nenhuma saída para suas frustrações e raiva. O que eles veem é a humilhação diária de suas famílias e amigos pela Ocupação, o que os leva ao desespero. “Temos que fazer alguma coisa”, diz Nabil. Seus olhos estão cansados. Ele parece mais velho do que seus anos de adolescência. Ele perdeu amigos para a violência israelense. “Marchamos até Qalandiya no ano passado em um protesto pacífico”, Nabil me conta. “Eles atiraram em nós. Meu amigo morreu”. A violência colonial pesa sobre seu espírito. Ao redor dele, crianças são executadas impunemente pelos militares israelenses. O corpo de Nabil se contorce de ansiedade e medo.
Pensei muito nesses adolescentes, especialmente no último ano, que foi definido pela escalada do genocídio dos EUA e de Israel contra os palestinos. Penso neles por causa da enxurrada de histórias sobre jovens como Hadeel e o amigo de Nabil sendo mortos por tropas israelenses não apenas em Gaza, mas na Cisjordânia.
Em 3 de novembro de 2024, Naji al-Baba, de quatorze anos, de Halhul, ao norte de Hebron, voltou da escola com seu pai, Nidal Abdel Moti al-Baba. Eles comeram molokhia, seu prato favorito, no almoço, e então Naji disse ao pai que iria jogar futebol. Naji e seus amigos brincavam perto da loja de seu avô. Soldados israelenses chegaram e atiraram nos meninos, atingindo Naji na pélvis, no pé, no coração e no ombro. Após o funeral, Nasser Merib, gerente do Halhul Sports Club, onde Naji jogava futebol, disse que ele tinha um pé direito forte. “Ele era ambicioso e sonhava em se tornar internacional como Ronaldo”. Esse sonho foi destruído pela ocupação israelense.

Chuu Wai (Myanmar), Quando Amelie e Khin encontram a revolução, 2021.
A morte de um jovem é um ato imperdoável. A morte de uma criança é particularmente difícil de entender. Naji poderia ter sido capitão do time de futebol palestino. Hadeel poderia ter se tornado uma cientista extraordinária. As famílias olham para as fotografias que restam e choram. Em Gaza, outras famílias estão sentadas em tendas sem nenhuma maneira de se lembrar de seus filhos perdidos, seus corpos destruídos ou desaparecidos e suas fotos transformadas em cinzas nos escombros. Tanta morte. Tanta desumanidade.
Se o tempo e a luta nos permitirem, seremos capazes de despertar adequadamente os sonhos da humanidade. Mas a noite antes do amanhecer será longa e difícil. Ansiamos pela humanidade, mas não esperamos que ela chegue facilmente. Pequenas vozes clamam por um novo mundo, e muitos pés marcham para construí-lo. Para chegar lá, será necessário pôr fim à guerra, à ocupação e à feiura do capitalismo e do imperialismo. Sabemos que vivemos na pré-história, na era anterior ao início da verdadeira história humana. Ansiamos por esse mundo socialista, onde Naji e Hadeel terão um futuro pela frente e não apenas um breve interlúdio em nosso mundo.
Feliz Ano Novo. Que ele nos aproxime da humanidade.
Cordialmente,
Vijay
terça-feira, 10 de dezembro de 2024
Jovens, se o "futuro" do PT for eleger Jo´se Dirceu deputado federal, então saiam do PT !
quinta-feira, 7 de novembro de 2024
Trump venceu! E daí?
Trump venceu. Com votos dos delegados e com a maioria dos votos dos eleitores, seu partido alcançou maioria no Senado e na Câmara e tem maioria conservadora no Supremo Tribunal.
A esquerda liberal está esquizofrênico, fala em perigo para "democracia", perigo para os imigrantes, perigo, perigo e perigo. Mas cá entre nós, a democracia burguesa não é assim? Venceu quem captou votos e melhor expressou ideias. E esses mesmos liberais dizem: "ele mentiu, fez fake news", sim, mas os democratas também não?
Ou o movimento Black Lives Matter conquistou uma legislação ou uma polícia menos racista? A política econômica de Biden trouxe segurança social aos pobres e trabalhadores subarternizados, que em geral são funcionários de bilionários como Bezos, a questão das guerras foram resolvidas? Os Palestinos podem dormir em paz, as mulheres abandonadas a própria sorte no Afeganistão depois das promessas do "mundo livre" estadunidense?
Biden e Kamala são parte do mesmo projeto de Trump com uma diferença, os primeiros fazem um discurso moderno e o segundo é honesto em suas intenções, mas ambos serão a garantia de que o sistema financeiro do capital seguirá sendo apoiado em detrimento a população.
O fascismo de Trump é um tipo peculiar de nacional entreguismo, diz defender a "América grande" porém não pode abrir mão da dura realidade, os EUA é uma país colonizado por bandidos que o Reino Unido expulsava, bandidos convertidos a protestantes, depois impulsionou seu desenvolvimento com escravidão negra e imigração de miseráveis. Agora suas empresas lucram com a mesma mão de obra que seja imigrante ou nos centros de produção global como a Índia e a China, foram escolhidas pelos mesmos "nacionalistas" estadunidenses que pela lógica do capital preferem mão de obra barata a ter que pagar direitos de um conterrâneo nascido na "make América great again".
Sinceramente mesmo quem lamenta a derrota de Kamala sabe no fundo que mesmo com todas as promessas nada séria feito fora do roteiro: manutenção do sofrimento palestino, guerra infinita para aquecimento da economia, retórica negra com repressão branca, enfim, a única coisa que seria relevante para os liberais era poder dizem que a opressão segue respeitando os "valores democráticos" (liberais burgueses)
Essa mesma esquerda liberal que se esconde atrás das lutas legítimas das mulheres, do povo negro e LGBTQIA+ e eles que de fato criam os entraves que são denominadas pautad identitária, e não a esquerda que sempre levantou essas bandeiras e lutas. Agora quem tem monetizado com o identitarismo é essa esquerda liberal, que contamina os espaços e enfraquece as lutas populares.
O que fazer? O de sempre uai. Organizar, dialogar, formar e construir o Programa para disputar a sociedade. Não tem fórmula mágica, sem tomar aquele café com os colegas de trabalho, com a família e os conhecidos não tem trabalho de base. Trabalho de base não é oportunismo de ocasião, é dia a dia sincero, é dizer e fazer.
Trump é parte do sintoma de um fascismo que fica encubado, como uma cloaca podre que consegue se reproduzir assexuadamente em termos biológicos e por mitose se reproduzir.
Trump, Bolsonaro e outros são como disse nacional entreguistas, são parte do sistema, querem entregar serviços públicos para amigos, lucrar com isso e ainda dizer que estão "quebrando o sistema" quando na verdade estão alimentando esse próprio sistema e quebrando de fato os imbecis que creem e as vítimas que não apoiam suas ideias.
Nessa questão insisto que aí está a culpa da nossa esquerda, que fica cada vez mais parecida com os democratas estadunidenses, prometem mas não entregam.
Se dissemos que as escolas e a saúde públicas devem ser o caminho porquê nossos governos não fazem tudo que podem e que não podem para fazer dar certo, com concursos, com carreira pública, com recursos e com a participação política de profissionais e população para integrar, decidir e intervir independente de governo. Foda-se. Se a democracia confirma a nossa finita humanidade, onde seja pelas urnas ou pela vida tudo acaba, porquê não fazemos? Ajuste fiscal e contenção de gastos para alimentar o sistema financeiro é tarefa deles, não nossa! A nossa, da nossa esquerda é de fortalecer quem interessa: a população trabalhadora.
Correto é a análise de Valério Arcary no BdF (https://www.brasildefato.com.br/2024/11/06/cinco-polemicas-sobre-a-derrota-da-esquerda-no-brasil), esse debate sobre a perda de votos entre os pobres não explica porquê perdemos votos mas regiões onde a classe trabalhadora de carteira assinada também não foi tocada pela mudança necessária.
#ficaadica
domingo, 3 de novembro de 2024
O fim de uma era na política de Guarulhos. Uma direita que se renova e uma esquerda que encerra um ciclo!
Lutas operárias, resistência a ditadura militar, Casa de Cultura Paulo Pontes na Vila Fátima, Greves operárias, Oposição Sindical metalúrgica, luta de padres contra o esquadrão da morte, fundação do PT de Guarulhos, lutas pelo direito a moradia, Tribunal da Terra de Guarulhos, Movimento Estudantil e fundação da UGES, Lula lá em 1989, lutas contra a privatização do SAAE, Espaço Cultural Florestan Fernandes, cassação do sr. Nefi Tales, vitória eleitoral do PT na prefeitura, 16 anos de governos do PT e o golpe de 2016. Esquecimento da história da cidade antes e depois dos governos do PT, lembrando 10 anos de Orçamento Participativo, mais de 100 escolas municipais, mais de 60 equipamentos de saúde pública, Teatro Adamastor, modernização do serviço público, criação do Fácil, Unifesp e Hospital Pimentas, urbanização entre tantas mudanças.
A derrota de Eloi Pieta, ex-PT e atual Solidariedade, e por uma diferença de 100 mil votos e uma ausência de mais de 332 mil entre faltantes, votos brancos e nulos, este último grupos (dos ausentes) poderia ter ficado atrás do eleito, o sr. Lucas Sanches que obteve 361 mil votos.
Eloi perdeu e ganhou onde justamente Lula havia perdido e ganho em 2022, no Pimentas. Apesar de Lula ter tido desempenho melhor na 394 na região de Bonsucesso por uns poucos 400 votos.
É o fim de uma era. E digo porquê, primeiro Eloi fora do PT não vai promover coesão da esquerda, já que com uma terceira derrota e fora deste campo, bem como a forma de organizar a tática e a estratégia, ficaram presos a uma lógica que mudou. O PT precisa saber se vai gravitar em torno da reeleição de Alencar ou buscar se reconectar com a população como um partido de oposição presente e não ausente como foi nos oito anos da gestão Guti, as demais organizações podem se sobressair como o PSOL principalmente, bem como Unidade Popular, Pstu e Pcb mas precisar também construir, e repito construir e não correr, com essa reconexão com a população guarulhense.
Guarulhos está virando um grande galpão. O setor de serviços, comercio e logística vieram para ficar e estabelecendo uma nova identidade da cidade dentro do processo de interesses do capitalismo mundial e nacional, contudo, classe trabalhadora é classe trabalhadora. Essas categorias são categorias frágeis da classe, podem ser contratado sem vinculo, sem direitos, precarizados e agora inseridos na lógica dos aplicativos, da plataformização e da polivalência do trabalho, estão inseridos nessa lógica do consumo rápido, urgente, fetichizado ao máximo, onde o prazer fica preso também a uma ideia de lazer mercadológico, ostentação e sem necessariamente refletir o bem estar de viver.
2025 é um novo. Novas angustias e novas esperanças.
Em São Paulo um Boulos "petizado" perdeu por uma diferença de 1 milhão de votos e um saldo de crescimento quase insignificante da última disputa para esta, ou seja, Marta de vice, mais de 40 milhões do Fundo Eleitoral do PT, determinado por Lula e um apagamento da lógica militante demostram que algo está errado na lógica atual que se repete faz um tempo. Talvez o Psol do "não recebi um real, tô na rua por um ideal" empolgasse mais um público que buscar mudança não pela direita na política.
Não tem muito que analisar, tem boas reflexões de Saflate, Jessé de Souza, Rudá...mas um alerta.
Tem uns liberais da imprensa a esquerda defendendo que com a vitória eleitoral do centrão, onde PSD de Kassab é o vencedor do momento, tem defendido que a esquerda precisa se "atualizar" olhar para Marçal, "comprar" o discurso do empreendedorismo e abandonar suas lutas, virar uma versão "Tabata-João Campos", tipo um produto de limpeza desengordurante.
Cuidado! Formulas de formuladores que sempre apoiam ou se ausentar nas questões de privatização, terceirização, redução da força dos (as) servidores (as) públicos (as), reformas trabalhista e previdenciária entre outras mágicas que não deram certo para a população, sempre estão aproveitando esses momentos eleitorais para deslegitimar uma luta que é necessária: de classe.
Eleições Municipais em Guarulhos, 2. Turno: O que o voto na direita tem a dizer para nós?
TODA SOLIDARIEDADE À CUBA SOCIALISTA!
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terça-feira, 22 de outubro de 2024
Análise das Eleições 2024: há futuro para esquerda guarulhense?
quarta-feira, 21 de agosto de 2024
Para mim hoje, um AVC ou ataque cardíaco seria um presente!
Tem aquele que diz que na vida ou no jogo, melhor parar quando está ganhando. Talvez haja razão nesse pensamento.
Talvez se a gente pudesse interromper a vida no nosso melhor momento, seja isso que nos permita admitir que ela valeu a pena.
Hoje, sinceramente um AVC ou um ataque cardíaco me permitiria interromper a vida num bom momento. Já fiz lutas, já fiz minhas experimentações e experiências, escolhi o que fazer e paguei o preço disso, errei, magoei, fui magoado, vivi bem, e não é uma questão de idade, é de satisfação.
Pois, quando a vida te cobra seus erros acumulados, quando parte da rotina se confunde com indiferença ou negligência, melhor parar.
Não falo em suicídio. Nem perto disso. Mas a gente depois de um tempo tenta prolongar a vida como se algo pudesse ser inovador para nossa existência.
Realmente não sei se vale a pena esse prolongamento da vida.
Valeu o que foi vivido. Se no seu balanço foi satisfatório, quem sabe, ou melhor, eu estou pensando nisso, talvez um mal súbito seja um presente.
Ninguém é imprescindível mesmo.
Acho que já trabalhei o necessário. Vamos pra próxima.
Quem sabe é hora de deixar esse papo de prolongar. Encharcar as veias da melhor carne, tomar as cachaças e as brejas que puder e deixar a vida me levar.
Ao final, me tornei parte da pessoa que jurei nunca ser, magoei quem eu faria tudo pela sua felicidade e parte do que que adoro fazer em coletivo será encerrado pelo vil metal.
Para quem está em declínio, melhor encerrar com alguma dignidade, um AVC ou ATAQUE CARDIACO seria sim um presente!
terça-feira, 20 de agosto de 2024
Escolas militares são parte de um projeto de sociedade. Como se combatem projetos societários?
Dez teses sobre a extrema-direita de um tipo especial | Carta semanal 33 (2024)Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Dez teses sobre a extrema-direita de um tipo especial | Carta semanal 33 (2024)
Queridas amigas e amigos,
Saudações do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
Desde 2016, verificamos uma consternação generalizada sobre como compreender o surgimento de Donald Trump como um candidato sério a presidente dos EUA. Longe de ser um fenômeno isolado, Trump chegou ao poder ao lado de outros “homens fortes” como Viktor Orbán (primeiro-ministro da Hungria desde 2010), Recep Tayyip Erdoğan (presidente da Turquia desde 2014) e Narendra Modi (primeiro-ministro da Índia desde 2014). Parece ser impossível que homens como esses, que chegaram ao poder e consolidaram seu governo por meio de instituições liberais, saiam de cena permanentemente por meio das urnas. Está claro que está ocorrendo um giro para a direita nos Estados democráticos liberais, cujas constituições enfatizam as eleições multipartidárias e, ao mesmo tempo, permitem que o espaço para o governo de um partido seja gradualmente estabelecido.
O conceito de democracia liberal foi e é um conceito altamente contestado que surgiu das potências coloniais da Europa e dos EUA nos séculos 18 e 19. Suas alegações de pluralismo e tolerância interna, o Estado de Direito e a separação dos poderes políticos surgiram ao mesmo tempo em que suas conquistas coloniais e seu uso do Estado para manter o poder de classe sobre suas próprias sociedades. É difícil conciliar o liberalismo atual com o fato de que os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) são responsáveis por 74,3% dos gastos militares mundiais.
Países com constituições que enfatizam eleições multipartidárias têm visto cada vez mais o estabelecimento gradual do que é efetivamente um governo de partido único. Essa regra de partido único pode, às vezes, ser mascarada pela existência de dois ou até mesmo três partidos, ocultando a realidade de que a diferença entre esses partidos têm se tornado cada vez mais insignificantes.
Helios Gómez (Espanha), Viva octubre [Viva outubro], 1934.
Tornou-se evidente que um novo tipo de direita surgiu não apenas por meio de eleições, mas exercendo domínio nas arenas da cultura, da sociedade, da ideologia e da economia, e que esse novo tipo de direita não está necessariamente preocupado em derrubar as normas da democracia liberal, como debatemos no nosso mais recente dossiê, O avanço do neofascismo e os desafios da esquerda na América Latina. Isso é o que chamamos de “abraço íntimo entre o liberalismo e a extrema direita”, seguindo os escritos de nosso falecido membro sênior Aijaz Ahmad.
A formulação desse “abraço íntimo” nos permite entender que não há contradição necessária entre o liberalismo e a extrema direita e, de fato, que o liberalismo não é um escudo contra a extrema direita, e certamente não é seu antídoto. Quatro elementos teóricos são fundamentais para entender esse “abraço íntimo” e a ascensão dessa extrema direita de um tipo especial:
As políticas de austeridade neoliberal em países com instituições eleitorais liberais destruíram os programas de bem-estar social que permitiam a existência de sensibilidades progressistas. O fracasso do Estado em cuidar dos pobres se transformou em severidade para com eles.
Sem um compromisso sério com o bem-estar social e com os programas redistributivos, o próprio liberalismo entrou no mundo das políticas de extrema direita. Isso inclui o aumento dos gastos com o aparato repressivo que policia os bairros da classe trabalhadora e as fronteiras internacionais, juntamente com a distribuição cada vez mais avarenta de bens sociais, distribuídos somente se os beneficiários aceitarem a destituição de direitos humanos básicos (como “concordar” com a obrigatoriedade do controle de natalidade).
Nesse terreno, a extrema direita de um tipo especial descobriu que se tornava cada vez mais aceita como uma força política, dado o giro dos partidos liberais em direção às políticas defendidas pela extrema direita. Em outras palavras, essa tendência de basear-se em políticas de extrema direita permitiu que esta ala se tornasse convencional.
Por fim, as forças políticas liberais e de extrema direita se uniram em todos os setores para diminuir o alcance da esquerda sobre as instituições. A extrema direita e seus colegas liberais não possuem divergências econômicas fundamentais em relação à classe. Nos países imperialistas, há uma grande confluência de pontos de vista sobre a manutenção da hegemonia dos EUA, a hostilidade e o desprezo pelo Sul Global e o aumento do chauvinismo, conforme observado pelo apoio militar total ao genocídio que Israel está realizando contra os palestinos.
Após a derrota do fascismo italiano, alemão e japonês em 1945, os analistas do Ocidente se preocuparam com a incubação da extrema direita em suas sociedades. Enquanto isso, a maioria dos marxistas reconhecia que a extrema direita não havia surgido do nada, mas das contradições do próprio capitalismo. O colapso do Terceiro Reich foi apenas uma fase na história da extrema direita e do desenvolvimento do capitalismo; ela ressurgiria, talvez com roupas diferentes.
Em 1964, o marxista polonês Michał Kalecki escreveu o estimulante artigo “The Fascism of Our Times” [Faszyzm naszych czasów]. Nesse ensaio, Kalecki disse que os novos tipos de grupos fascistas que estavam surgindo na época apelavam “para os elementos reacionários das grandes massas da população” e eram “subsidiados pelos grupos mais reacionários dos grandes negócios”. No entanto, escreveu Kalecki, “a classe dominante como um todo, embora não aprecie a ideia de grupos fascistas tomarem o poder, não faz nenhum esforço para suprimi-los e se limita a reprimendas por excesso de zelo”. Essa atitude persiste até hoje: a classe dominante como um todo não teme a ascensão desses grupos fascistas, mas apenas seu comportamento “excessivo”, enquanto as seções mais reacionárias das grandes empresas apoiam financeiramente esses grupos.
Mario Schifano (Itália), No [Não], 1960.
Uma década e meia depois, quando Ronald Reagan parecia estar prestes a se tornar o presidente dos Estados Unidos, Bertram Gross publicou Friendly Fascism: The New Face of Power in America (1980) [A nova face do poder na América], que se baseou livremente em The Power Elite (1956) [A elite do poder] de C. Wright Mills e Monopoly Capital: An Essay on the American Economic and Social Order (1966), [Capital monopolista: um ensaio sobre a ordem econômica e social americana] de Paul A. Baran e Paul M. Sweezy. Gross argumentou que, como as grandes empresas monopolistas haviam estrangulado as instituições democráticas nos Estados Unidos, a extrema direita não precisava de botas e suásticas: essa orientação viria por meio das próprias instituições da democracia liberal. Quem precisa de tanques quando se tem os bancos para fazer o trabalho sujo?
As advertências de Kalecki e Gross nos lembram que a intimidade entre o liberalismo e a extrema direita não é um fenômeno novo, mas emerge das origens capitalistas do liberalismo: este nunca foi nada além da face amigável da brutalidade normal do capitalismo.
Os liberais estão usando a palavra “fascismo” para se distanciar da extrema direita. Esse uso do termo é mais moralista do que preciso, pois nega a intimidade entre os liberais e a extrema direita. Para isso, formulamos dez teses sobre essa extrema direita de um tipo especial, que esperamos que provoque discussões e debates. Esta é uma formulação provisória, um convite para o diálogo.
Tese um. A extrema direita de um tipo especial usa instrumentos democráticos até onde for possível. Ela acredita no processo conhecido como “longa marcha através das instituições”, por meio do qual constrói pacientemente o poder político e aparelha as instituições permanentes da democracia liberal com seus quadros, que depois levam seus pontos de vista para o pensamento dominante. As instituições educacionais também são fundamentais para a extrema direita de um tipo especial, pois determinam os programas de estudo para os alunos em seus respectivos países. Não é necessário que essa extrema direita de um tipo especial deixe de lado essas instituições democráticas, desde que elas ofereçam o caminho para o poder não apenas sobre o Estado, mas sobre a sociedade.
Tese dois. A extrema direita de um tipo especial está promovendo o desgaste do Estado e a transferência de suas funções para o setor privado. Nos Estados Unidos, por exemplo, sua propensão à austeridade está ajudando a reduzir a quantidade e a qualidade dos quadros em funções essenciais do Estado, como o Departamento de Estado dos EUA. Muitas das funções dessas instituições, agora privatizadas, são realizadas sob os auspícios de organizações não governamentais lideradas por capitalistas bilionários emergentes, como Charles Koch, George Soros, Pierre Omidyar e Bill Gates.
Tese três. A extrema direita de um tipo especial usa o aparato repressivo do Estado de modo a silenciar seus críticos e desmobilizar movimentos de oposição econômica e política. As constituições liberais oferecem ampla latitude para esse tipo de uso, do qual as forças políticas liberais se aproveitaram ao longo do tempo para reprimir qualquer resistência da classe trabalhadora, do campesinato e da esquerda.
Maryan (Polônia), Personnage [Personagem], 1963.
Tese quatro. A extrema direita de um tipo especial incita uma dose homeopática de violência na sociedade por parte dos elementos mais fascistas de sua coalizão política para criar medo, mas não medo suficiente para que as pessoas se voltem contra ela. A maioria das pessoas de classe média em todo o mundo busca conforto e se incomoda com os inconvenientes (como os causados por manifestações, etc.). Mas, ocasionalmente, um assassinato de um líder trabalhista ou uma ameaça a mão armada feita a um jornalista não é atribuída à extrema direita de um tipo especial, que muitas vezes nega apressadamente qualquer associação direta com os grupos fascistas marginais (que, no entanto, estão organicamente ligados a ela).
Tese cinco. A extrema direita, de um tipo especial, oferece uma resposta parcial à solidão que está presente no tecido da sociedade capitalista avançada. Essa solidão decorre da alienação das condições precárias de trabalho e das longas jornadas, que corroem a possibilidade de construir uma comunidade e uma vida social vibrantes. Essa extrema direita não constrói uma comunidade real, exceto quando se trata de seu relacionamento parasitário com comunidades religiosas. Em vez disso, ela desenvolve a ideia de comunidade, comunidade pela Internet ou por meio de mobilizações ou comunidade por meio de símbolos e gestos compartilhados. A imensa fome de comunidade é aparentemente resolvida pela extrema direita, enquanto a essência da solidão se transforma em raiva, e não em amor.
Tese seis. A extrema direita de um tipo especial usa sua proximidade com conglomerados privados de mídia para normalizar seu discurso, e sua proximidade com os proprietários de mídias sociais para aumentar a aceitação social de suas ideias. Esse discurso de agitação cria um frenesi, mobilizando setores da população, seja on-line ou nas ruas, para participar de manifestações em que, no entanto, continuam sendo indivíduos e não membros de um coletivo. O sentimento de solidão gerado pela alienação capitalista é atenuado por um momento, mas não superado.
Tese sete. A extrema direita de um tipo especial é uma organização tentacular, com suas raízes espalhadas por vários setores da sociedade. Ela atua onde quer que as pessoas se reúnam, seja em clubes esportivos ou organizações beneficentes. Seu objetivo é construir uma base de massa na sociedade, enraizada na identidade da maioria em um determinado lugar (seja raça, religião ou senso de nacionalidade), marginalizando e demonizando qualquer minoria. Em muitos países, essa extrema direita se apoia em estruturas e redes religiosas para incorporar cada vez mais profundamente uma visão conservadora da sociedade e da família.
Tese oito. A extrema direita de um tipo especial ataca as instituições de poder que são o próprio alicerce de sua base sociopolítica. Ela cria a ilusão de ser plebéia em vez de patrícia, quando, na verdade, está nos bolsos da oligarquia. Ela cria a ilusão de plebeia ao desenvolver uma forma altamente masculina de hipernacionalismo, cuja decadência transparece em sua feia retórica. Essa extrema direita se aproveita do poder da testosterona desse hipernacionalismo e, ao mesmo tempo, joga com sua retratada vitimização diante do poder.
Tese nove. A extrema direita de um tipo especial é uma formação internacional, organizada por meio de várias plataformas, como o The Movement de Steve Bannon (com sede em Bruxelas), o partido Vox do Fórum de Madri (com sede na Espanha) e a anti-LGBTQ+ Fundação Fellowship (com sede em Seattle, EUA). Esses grupos estão enraizados em um projeto político no mundo atlântico que reforça o papel da direita no Sul Global e lhes fornece os recursos para aprofundar as ideias de direita onde elas têm pouco solo fértil. Eles criam novos “problemas” que antes não existiam nessa proporção, como a algazarra sobre sexualidade no leste da África. Esses novos “problemas” enfraquecem os movimentos populares e reforçam o controle da direita sobre a sociedade.
Tese dez. Embora a extrema direita de um tipo especial possa se apresentar como um fenômeno global, há diferenças entre a forma como ela se manifesta nos principais países imperialistas e no Sul Global. No Norte Global, tanto os liberais quanto a extrema direita defendem vigorosamente os privilégios que obtiveram por meio da pilhagem nos últimos 500 anos – por meio de seus meios militares e outros – enquanto no Sul Global a tendência geral entre todas as forças políticas é estabelecer a soberania.
A extrema direita de um tipo especial surge em um período definido pelo hiperimperialismo para mascarar a realidade do poder hediondo e fingir que se preocupa com os indivíduos isoladamente quando, na verdade, os prejudica.
Ela conhece bem a loucura humana e se aproveita dela.
Cordialmente,
Vijay.
P.S. Salvo quando indicado de outra forma, as ilustrações desta carta semanal foram retiradas dos dossiês Novas roupas, velhos fios: a perigosa ofensiva da direita na América Latina (2021) e O que esperar da nova onda progressista da América Latina? (2023)